O Museu dos Rios e das Artes Marítimas, em Constância, oferece um conjunto de atividades até ao dia 27 de agosto, que integram o programa ‘Verão no Museu’, numa dinamização da Câmara Municipal, estando as mesmas centradas em torno dos rios Tejo e Zêzere e da sua riqueza ambiental, cultural e patrimonial. Os passeios num tradicional barco à vela no Tejo decorrem sob o mote ‘ Navegar no Borda Rio’, a partir do Cais de Constância, uma atividade gratuita mas de inscrição obrigatória (com limite até seis participantes por viagem). Com duração de cerca de uma hora, as viagens decorrem ainda na quarta-feira, 27 de agosto, às 11h00. Informações e reservas devem ser efetuadas através do Museu dos Rios pelo telefone 249 730 053 e/ou email . museu.rios@cm-constancia.pt
Constância – Uma viagem pelo Tejo no Borda Rio – por Paula Mourato
A viagem por tempos em que o Tejo era completamente navegável e servia de via para o transporte de mercadorias vem-nos logo à cabeça assim que chegamos ao Cais do Tejo, em Constância, para um passeio no Borda Rio. Os olhos procuram as cores vibrantes da embarcação em madeira, sobem pelo mastro e exploram a grandeza da vela, inicialmente amarrada por cordas, descem até ao leme que se movimenta, ora para a direita ora para a esquerda, ao sabor da corrente.
Iniciamos num regresso ao passado, porventura umas décadas nas quais a tradição da pesca no rio e a construção de embarcações de pequeno e grande porte era uma realidade, em Constância.
O Borda Rio era usado para fazer a travessia de passageiros no Tejo – como se sabe Constância é um concelho dividido pelo rio Tejo com a Vila a nascer na confluência dos rios Tejo e Zêzere – e chegou até à atualidade sem perder a cor nem a singularidade. Para isso tem merecido restauro e preservação constante e apresenta-se como novo e a postos para rasgar as águas rio acima até à estação de areia de Montalvo.





O Tejo e a sua diversidade de fauna e flora, constituem um património de beleza incomparável que muda e que se transforma a cada território ribeirinho, desde a Lezíria até ao Médio Tejo.
Em Constância, o Tejo, apesar da prospeção de areia, oferece uma paisagem com salgueiros e choupos, de grande serventia na estabilização das margens, incluindo na caso de cheia, junco e erva verde que faz as delícias dos rebanhos que por ali pastoreiam. É possível ver garças brancas e cinzentas, patos e até lontras, se tiver a sorte que finte a timidez dos esquivos animais. Os passeios oferecem tranquilidade, história pela explicação de Anabela Cardoso, responsável pelo Museu dos Rios e das Artes Marítimas de Constância, acontecem em agosto e, provavelmente, a exemplo de outros anos, em setembro.
A iniciativa ‘No Rio com o Museu’ arrancou pela primeira vez em 2023. Anabela Cardoso explicou à reportagem do mediotejo.net que o barco que agora permite passeios turísticos pelo Tejo, uma embarcação, uma lancha tradicional de Constância, toda em madeira, mereceu um restauro, incluindo do mastro com sete metros de altura. “O leme, o mastro e as velas e todo os tipo de roldanas, as cordas”, especifica.





O barco, propriedade do Município, também está presente no rio aquando da romaria em honra da Nossa Senhora da Boa Viagem e “antigamente servia para fazer a travessia de passageiros no rio”, da margem norte para a margem sul e vice-versa. Depois chegaram os barcos em diferentes materiais, colocando de lado a madeira como matéria prima de excelência para a construção de embarcações.
O Município “tenta preservar este tipo de embarcação. Como sabemos está a desaparecer do rio Tejo, esta construção tradicional em madeira. As fibras vieram substituir a madeira”, explica Anabela Cardoso.

Sérgio Silva, de 54 anos, é o barqueiro do Município de Constância e conhece o rio desde sempre. Natural da vila poema herdou do pai a profissão de pescador sendo o único calafate do território. “O meu pai era pescador aqui e trazia-me para a pesca. Andava sempre em barcos, quando era miúdo. Aprendi a navegar”.
Diz notar algumas diferenças no rio, designadamente no caudal da água. “Há anos em que não temos quase água nenhuma, este ano está a ser bom. Choveu mais, há mais água, as barragens vão largando”, observa, tendo feito notar que a irregularidade dos caudais tem sido uma situação recorrente.
Quanto ao peixe. “vai havendo. Menos lampreia. Há três anos que praticamente não há. Pesco fataça, barbo, saboga e lúcio-perca”. Uma pesca hoje muito ligada aos festivais de gastronomia e às solicitações dos diversos restaurantes que querem ter o peixe do rio nas suas cartas.

Sérgio já não encontra parceiro no que toca a pescadores profissionais. Apesar de Constância ser uma vila ribeirinha “há umas pessoas que praticam pesca desportiva e uns particulares fazem uns passeios de barco mas pescadores profissionais não”, afirma.
Em 2023, no primeiro ano da iniciativa, o Borda Rio teve sempre lotação esgotada; seis em passeio mas dois da tripulação. Por norma às quartas e sábados, havendo também um domingo. Uma hora a navegar. “As pessoas interessam-se! E é uma viagem incrível porque se vê o movimento no rio” incluindo os peixes a saltar, refere Anabela.
“Ainda há uns barquinhos em madeira. Ainda é possível perceber como foi o passado de Constância, como este rio estava cheio de vida. Era navegável para pequenos barcos de pesca mas também para grandes embarcações, para os varinos que andavam Tejo abaixo, Tejo acima a transportar mercadorias até meados do século XX, por volta de 1940. Era um comércio muito vivo e fez florescer e prosperar muitas pessoas”.





No passado, as velas, muitas vezes improvisadas com lençóis das camas, eram colocadas nos barcos dos pescadores que tentavam a sua sorte a montante da vila de Constância, para evitar remar.
Além da fauna e flora do rio é possível, ainda, ver o que resta da Quinta das Almas, antigamente entrada na vila de Constância. Conta-se que, pela inexistência de eletricidade, a iluminação era feita através de pequenas lamparinas, o que dava ao lugar um certo ar místico. Hoje uma ruína esquecida entre a vegetação que tomou conta da construção e dos terrenos designados de nateiros, antigamente cultivados na encosta do rio em socalcos.
Para içar a vela e navegar sem a ajuda do motor esperámos que o vento desse um valente sopro, o que às tantas aconteceu. No passado os barcos navegavam ziguezagueando pelo rio, fintando a fraca força do vento.
A montante o Tejo era, e é, menos navegável, com pontos difíceis como os cachões, e daí a razão dos muros de sirga, que podem ser encontrados em concelhos ribeirinhos como Gavião ou Nisa, estrutura construída que serviu para homens e animais puxarem os barcos rio acima quando não subiam por falta de vento.




Ao proporcionar estes passeios gratuitos numa embarcação tradicional, o objetivo do Museu dos Rios e das Artes Marítimas de Constância passou por “por um lado mostrar o conhecimento do Sérgio Silva, que é calafate. Um dos únicos que constrói e repara os barcos da região. Quem tiver meios, quiser e tiver gosto em reparar o barquinho, é com ele. Um conhecimento que só o Sérgio tem e é necessário”, explica Anabela.
Por outro lado, “a pesca. Já fizemos trabalhos muito giros em que o Sérgio lança as redes, os tresmalhos, tem a sua técnica: o lançamento, a colocação das redes, o puxar, o bater na água para o peixe ir em determinada direção. Além de ser barqueiro”, lembra a responsável do Museu.

Em causa estão três profissões – pescador, barqueiro e calafate – que “ou já acabaram ou estão em vias de acabar e era esse o passado da vila. E é isso que o Museu representa e tem para as pessoas verem estas três grandes atividades. O transporte fluvial já não se pode fazer” mas a iniciativa ‘No Rio com o Museu’ “pretende mostrar numa lancha como é que os grandes varinos andavam ao sabor do vento. O perigo que era também, com cargas mal arrumadas. E depois o saber navegar à vela. É principalmente estes saberes e fazeres que há que preservar”, defende.
Sérgio Silva tem preservado os dois barcos do Município e “vai reparando outros já a pensar no futuro do Museu dos Rios e das Artes Marítimas”.
“Pretende-se que os barcos típicos do Tejo em madeira – a lancha e a bateira – não fiquem na água mas fiquem guardados num espaço. Porque quando o Sérgio se reformar, e eu também, infelizmente não vai haver ninguém capaz de reparar os que existem e muito menos fazer barcos novos. Não há gente jovem, não vejo ninguém que se interesse”, nota Anabela.
*Reportagem em 2024, revista e republicada em agosto de 2025. Com Paula Mourato e Mário Rui Fonseca

