Cerimónia de abertura da iniciativa '5 séculos, 5 dias' em Constância, nas comemorações dos 500 anos de Camões. Créditos: mediotejo.net

A abertura oficial das comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões, em Constância, ocorreu na Casa-Memória de Camões com a inauguração da exposição ‘Vida e Obra de Camões’, doada pelo Instituto Camões.

Os cincos séculos do nascimento do poeta serão assinalados pela Câmara de Constância em colaboração com outras instituições parceiras, entre 06 e 10 de junho, com exposições, música, caminhada, patinagem, dança, poesia, orientação, uma feira de antiguidades e velharias, a Taberna Quinhentista e o já tradicional Mercado Quinhentista, onde serão vendidos os frutos e as flores referidos por Camões na sua obra.

Cerimónia de abertura da iniciativa ‘5 séculos, 5 dias’ em Constância, nas comemorações dos 500 anos de Camões. Créditos: mediotejo.net

Relativamente a Luís Vaz de Camões desconhece-se, praticamente, tudo sobre a sua vida até partir para o Oriente (em 1553), onde passou 17 anos, e pouco mais sabemos sobre a sua estada naquelas paragens. Há, todavia, factos biográficos que, aqui e ali, podem deduzir-se dos seus textos. Por exemplo, pode supor-se, devido à sua poesia, que teve uma vida amorosa agitada. A história do percurso do poeta está espelhado na exposição agora inaugurada na Casa-Memória Camões.

Pomonas Camonianas decorrem entre os dias 8 e 10 de junho. Foto: CMC

Sabe-se, no entanto, que na juventude terá sido desterrado da corte, talvez devido a alguma situação amorosa. Há quem admita que a isso se refere uma passagem da Lusitânia Transformada, de Fernão Álvares do Oriente, que alude ao desterro para Punhete (a atual Constância), nas margens do rio Nabão, uma personagem que se supõe corresponder a Camões.

Mais uma vez a Câmara Municipal de Constância, juntamente com o Agrupamento de Escolas e outras instituições, como a Casa-Memória de Camões e o Centro de Ciência Viva de Constância, juntam-se para celebrar o poeta e a sua obra.

A diretora do Agrupamento de Escolas de Constância, Olga Antunes, começou por salientar a diferença que Camões faz na escola. “Toda a vivência de Camões em Constância, tudo aquilo que é o acreditar Camões em Constância, traz de diferente para a escola, faz diferente para o ensino da obra do poeta, e faz diferente para aquilo que são as competências do alunos”, disse.

Cerimónia de abertura da iniciativa ‘5 séculos, 5 dias’ em Constância, nas comemorações dos 500 anos de Camões. Créditos: mediotejo.net

A exposição cedida pelo Instituto de Camões, que se encontra na Casa-Memória de Camões, são 38 quadros que traçam toda a vida de Luís Vaz de Camões, alguns detalhes da sua obra e as terras por onde passou. O quadro nº 4 faz referência a Constância.

A exposição estará patente durante as Pomonas Camonianas e poderá ser visitada através de contacto com a Casa-Memória de Camões ou com o Posto de Turismo de Constância, uma vez que a Casa-Memória “não está fechada”, explicou o presidente da Associação Casa-Memória de Camões, Máximo Ferreira, mas por impossibilidade financeira não se mantém, regularmente, de portas abertas.

Está previsto, segundo Olga Antunes, que a exposição ‘Vida e obra de Camões’ integre o currículo escolar dos alunos do 9º ano da escola de Constância, no próximo ano letivo. “E que sejam eles, quando necessário, serem os guias para apresentarem a exposição outras escolas”, avançou.

Cerimónia de abertura da iniciativa ‘5 séculos, 5 dias’ em Constância, nas comemorações dos 500 anos de Camões. Créditos: mediotejo.net

Máximo Ferreira, dirigindo-se aos alunos do Agrupamento de Escolas que se encontravam presentes na cerimónia de abertura das comemorações, disse que “Camões foi muito mais do que aquilo que escreveu. É um exemplo de cidadania, de civismo, de amor à pátria. É tão importante que os jovens entendam isto que a direção vai propor da próxima Assembleia Geral, a criação de sócio jovem e que fiquem dispensados do pagamento da quota, que é 20 euros por ano, enquanto forem estudantes. Queremos ter na Associação, quer como associados quer como elementos nos corpos sociais, jovens da nossa terra”.

Cerimónia de abertura da iniciativa ‘5 séculos, 5 dias’ em Constância, nas comemorações dos 500 anos de Camões. Créditos: mediotejo.net

“Temos de ser realistas e não podemos ser líricos”. Constância sem condições “logísticas” para receber cerimónia oficial do Dia de Portugal

Por seu lado, o presidente da Câmara Municipal, Sérgio Oliveira, que abriu a cerimónia das comemorações, atestou a ligação do concelho a Camões, como o Jardim-Horto, o monumento a Camões, a Casa-Memória, as Pomonas Camonianas e a Associação Casa-Memória de Camões que desenvolve e aprofunda o estudo de Camões e da sua obra.

“Com esta ligação Constância põe de pé um conjunto de iniciativas ao longo destes cinco dias, com atividades culturais e atividades desportivas que reafirmam esta ligação”, declarou.

Sérgio Oliveira aproveitou o momento para referir que o projeto Casa-Memória de Camões “continua incompleto” e que, “não sendo algo que seja propriedade da Câmara Municipal, é algo que toca naquilo que é o desenvolvimento do concelho”. Por isso defendeu “dotar” a Casa-Memória de Camões de “recursos humanos, de recursos financeiros, para poder abrir de forma permanente ao público, com conteúdos”.

Nesse sentido, o edil lembrou “os esforços” municipais junto do anterior governo e também agora junto do atual executivo nacional “sensibilizando” a ministra da Cultura.

“Acho difícil haver uma terra, um concelho, dos 308 que o País tem, que comemore como Constância comemorou Camões no passado e como vai comemorar este ano. Espero que esta festa de Camões chegue ao Terreiro do Paço e que no Terreiro do Paço vejam que temos aqui condições para acolher uma Casa digna deste poeta que foi Camões”, afirmou o presidente da Câmara.

Na data dos 500 anos do nascimento de Camões, questionado sobre se lamenta o facto das celebrações do 10 de Junho, não terem lugar em Constância, Sérgio Oliveira reconheceu as limitações “em termos logísticos e práticos” do concelho e da vila para receber uma cerimónia da dimensão do Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas.

“Temos de ser realistas e não podemos ser líricos”, disse. “A não ser que fosse no Campo Militar de Santa Margarida”, sugeriu, por questões de espaço e logística. Porém, ali já seria fora do ambiente ribeirinho, onde o Zêzere abraça o Tejo, e longe da vila Poema e da casa onde Camões terá estado.

Foto: CMC
ÁUDIO | PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE CONSTÂNCIA, SÉRGIO OLIVEIRA

Seguiu-se a apresentação do livro ‘Saber Os Lusíadas’ pela autora Cecília Rezende que começou por questionar se atualmente faz sentido ler ‘Os Lusíadas’, um poema com 453 anos, num género que já não é usado em literatura nos termos em que era usado até finais do século XVIII. A resposta foi positiva.

Cerimónia de abertura da iniciativa ‘5 séculos, 5 dias’ em Constância, nas comemorações dos 500 anos de Camões. A escritora Cecília Rezende. Créditos: mediotejo.net

Explica que as epopeias – narrativas – eram cantadas em verso, os feitos de heróis, desde a Grécia antiga. Ainda no século XVI, “o género épico era o mais nobre da literatura, mais nobre que o género dramático, mais nobre que o género lírico porque era o mais difícil. Com o aparecimento do romantismo no século XIX o género épico mudou, já não era em verso e o assunto era qualquer um. Nasceu o romance”.

Para Cecília Rezende, uma ex-professora do ensino secundário, “Os Lusíadas só poderiam ser escritos no Oriente” onde Camões esteve 17 anos, revelando a sua vivência. O poeta tomou como modelo a ‘Eneida’ de Virgílio e a “genialidade” de Camões encontrou a solução, dois planos para escrever o seu poema: a realidade histórica e a realidade mitológica. Vão paralelamente até final do canto VIII. Deu-lhe o titulo ‘Lusíadas’ que significa portugueses, num poema “longo” em 8.816 versos divididos em X cantos.

Em resumo, o livro ‘Saber Os Lusíadas’ é um resumo do poema de Camões, uma edição que pretende colocar ‘Os Lusíadas’ ao alcance de todos.

Seguiu-se a exposição ‘A Grande Máquina do Mundo’, no Largo Heitor da Silveira, junto ao Jardim-Horto de Camões, pelo Centro de Ciência Viva de Constância, onde Máximo Ferreira, astrónomo e diretor do Centro, explicou a ligação entre ‘Os Lusíadas’ e a astronomia, além de fazer uma referência aos projetos do Centro de Ciência Viva. Essa tenda pode ser visitada de sexta (7) a segunda-feira (10) das 15h00 às 18h00.

Lá é recordado que a 22 de novembro de 1497 a frota de Vasco da Gama dobra o Cabo da Boa Esperança e, a partir daí, navegando para norte, o céu era já conhecido, permitindo a navegação até Melinde e, depois, até à índia. No regresso à pátria, a deusa Vénus e as ninfas do oceano colocam na rota das naus uma ilha magnífica, com ambientes que, segundo Camões, constituíram a recompensa pelo esforço que havia permitido vencer dificuldades de uma viagem que se traduzia em honra e glória para Portugal.

Ali, na Ilha dos Amores, a deusa Tétis mostra a Vasco da Gama a Grande Máquina do Mundo, uma lição de astronomia segundo o conceito geocêntrico e não seguindo a teoria do Heliocentrismo de Copérnico, embora Camões já conhecesse essa teoria, escreve como se estivesse em 1497, explica Máximo Ferreira.

ÁUDIO | MÁXIMO FERREIRA, ASTRÓNOMO

Esta sexta-feira, a Igreja da Misericórdia será o palco da conferência “Artes em Punhete: no Tempo de Camões”, pelo professor Victor Serrão. Foi cancelado o concerto previsto para a noite, no anfiteatro dos rios, com o Carrilhão Lvsitanvs, e que teria o mote “Música no tempo de Camões ao som dos sinos”. As condições atmosféricas adversas estão na base da decisão de última hora.

No sábado, 08 de junho, dia que marca a abertura das XXVII Pomonas Camonianas, inicia-se na Casa Memória de Camões, às 11:00, com a conferência “Fernão Gomes (1548-1612), Pintor Amigo de Poetas e autor do retrato de Camões”, por Victor Serrão.

Entre os dias 08 e 10 de junho, o parque de merendas, situado na zona ribeirinha de Constância, na confluência dos rios Tejo e Zêzere, será transformado num imenso mercado quinhentista, retratando a época em que viveu o poeta.

A recriação histórica vai ser feita por centenas de alunos do pré-escolar ao ensino secundário, apoiados por professores e auxiliares de ação educativa do agrupamento de escolas de Constância, e encarregados de educação que se vão trajar a rigor para personificar os mercadores, membros do clero, nobres e plebeus, a par da dinamização de outras atividades.

Sobre as ruínas que o povo aponta como tendo sido as da casa que o acolheu, foi erguida a Casa-Memória de Camões para perpetuar a memória do poeta à vila ribatejana.

Em Constância, existem ainda o Monumento a Camões do mestre Lagoa Henriques e o Jardim-Horto Camoniano, desenhado pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles, que apresenta a maior parte das plantas referidas por Camões na sua obra e é considerado um dos mais vivos e singulares monumentos erguidos no mundo a um poeta.

Por estes dias, o visitante pode ainda desfrutar de uma visita guiada ao Jardim-Horto de Camões onde poderá apreciar 52 espécies (flores, plantas e árvores) citadas nos versos de Camões em ‘Os Lusíadas’ e na lírica, dispostas em canteiros concebidos, como referido, pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles. Junto a cada exemplar, uma placa exibe a designação do elemento, bem como um excerto, em verso, da citação do poeta.

Tendo por inspiradora Pomona, a divindade romana dos pomares e dos jardins, que Camões também cantou, o evento apresenta, na sua essência, um mercado quinhentista, com exposição e venda de frutos e flores referidos por Camões na sua obra, e vários espetáculos teatrais, poéticos e musicais.

Ainda na Casa-Memória de Camões poderá optar por uma visita guiada à exposição ‘E Vós Tágides Minhas’ de Norberto Nunes, composta por 10 telas, pintadas com cores fortes e motivos alusivos a cada um dos cantos de ‘Os Lusíadas.

Na parede em frente, alinham-se 10 guitarras portuguesas igualmente decoradas com pormenores de cada canto; no centro da sala as peças de uma jogo de xadrez sugerem detalhes das culturas indiana e portuguesa. Seguem-se esculturas e pinturas alusivas a Camões, a Vasco da Gama e a episódios da descrição poética da primeira viagem portuguesa à Índia.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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