Na cerimónia oficial das XXIX Pomonas Camonianas, junto ao monumento a Luís de Camões, no centro histórico da vila, Sérgio Oliveira associou as celebrações a uma reflexão sobre os desafios atuais do país e sobre o papel das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
“Saudamos as nossas comunidades com um profundo reconhecimento pelo amor que têm a Portugal”, afirmou o autarca, referindo experiências recentes de contacto com emigrantes portugueses em França e em localidades geminadas com o concelho.
Citando Camões e o poema “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, Sérgio Oliveira considerou que as transformações em curso no mundo “devem deixar inquietos e preocupados, mas nunca resignados nem derrotados”.




O presidente da Câmara apontou o regresso da “lei do mais forte” nas relações internacionais, marcado por guerras, disputas de poder e interesses económicos, defendendo que esse contexto tem impacto direto na vida quotidiana dos portugueses.
Segundo afirmou, essas consequências refletem-se no acesso à habitação, no aumento do custo dos bens essenciais e agravam problemas internos que continuam por resolver, nomeadamente nas áreas da saúde e da concretização de infraestruturas consideradas fundamentais para o desenvolvimento do país.




“Que sejam feitos compromissos para as reformas necessárias, bem como para a construção física de infraestruturas que não fiquem dependentes dos ciclos políticos”, defendeu, apelando a consensos alargados em torno de matérias estruturantes.
VIDEO/DISCURSO DE SÉRGIO OLIVEIRA, PRESIDENTE CM CONSTÃNCIA:
O autarca sustentou igualmente que os cidadãos devem ser envolvidos nos processos de decisão e alertou para a necessidade de preservar o prestígio das instituições democráticas.
“A política não pode ser vista, executada e discutida como se estivéssemos numa mesa de café com amigos”, afirmou, concluindo com um apelo à união de esforços e uma mensagem de esperança em Portugal.
Na mesma cerimónia, o presidente da Associação Casa Memória de Camões, Máximo Ferreira, destacou a responsabilidade de Constância na preservação da memória do poeta, lembrando que a vila mantém há séculos uma ligação singular à figura de Luís de Camões.
“Que responsabilidade esta de nos mantermos dignos da memória de uma personagem enaltecida em todo o mundo”, declarou, acrescentando que importa transmitir às novas gerações “a noção do valor deste inestimável património”.




O responsável enumerou várias iniciativas desenvolvidas pela associação, entre as quais visitas guiadas à Casa Memória e ao Jardim-Horto Camoniano, palestras em diferentes pontos do país e participação em encontros e conferências dedicados à obra camoniana.
Máximo Ferreira anunciou ainda a entrada em funcionamento, durante o dia de hoje, de um sistema digital para visitas autónomas ao Jardim-Horto Camoniano através de aplicação móvel e recursos de inteligência artificial.
“Continuaremos o nosso propósito de mostrar mais e melhor trabalho, de modo a justificar a proteção e o reconhecimento nacional da Casa Memória de Camões em Constância”, afirmou.
Por seu lado, a diretora do Agrupamento de Escolas de Constância, Olga Antunes, defendeu que a ligação da vila a Camões constitui uma das marcas identitárias da comunidade local.
“Em muitas terras deste país esta é mais uma data do calendário. Em Constância é mais do que isso. É uma data da nossa identidade”, afirmou.




A responsável considerou que a tradição segundo a qual Camões terá vivido na vila foi transformada pela população num compromisso permanente de preservação da memória histórica.
“O Jardim-Horto, a Casa Memória e as Pomonas Camonianas são a prova de que uma comunidade pode escolher não esquecer”, declarou.
Olga Antunes destacou ainda o papel da escola na transmissão desse património às novas gerações, defendendo que a educação se faz também através da participação dos alunos nas iniciativas culturais da comunidade.
“Quando os nossos alunos dançam, cantam, representam e declamam nas Pomonas Camonianas, não estão apenas a animar uma festa. Estão a aprender que a cultura é algo que se vive e se constrói em conjunto”, sustentou.




A diretora recordou igualmente a dimensão internacional da língua portuguesa, falada por mais de 260 milhões de pessoas, considerando que Camões continua a representar um elo de ligação entre comunidades portuguesas dispersas por vários continentes.
As intervenções decorreram no dia de encerramento das XXIX Pomonas Camonianas, iniciativa que desde sábado recriou o universo quinhentista associado à tradição segundo a qual Luís de Camões terá vivido em Constância e ali escrito parte da sua obra.
As comemorações incluíram a tradicional deposição de coroas de flores junto ao monumento ao poeta no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.







Constância mantém há décadas uma forte ligação simbólica a Luís de Camões, assente na tradição de que o poeta terá vivido na vila e ali escrito parte da sua obra.
Além do Monumento a Camões, da autoria de Lagoa Henriques, e do Jardim-Horto Camoniano, concebido por Gonçalo Ribeiro Teles com espécies referidas na obra camoniana, o concelho continua a reivindicar apoio estatal para concretizar a Casa Memória de Camões, projeto cuja requalificação e abertura permanente ao público voltou a ser defendida pelo município na véspera desta edição das Pomonas Camonianas.

As celebrações em Constância coincidem com o encerramento oficial das comemorações nacionais do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões, iniciadas em 2024.
A efeméride terminou esta quarta-feira, 10 de junho, com iniciativas culturais em Lisboa, mas o programa prolonga-se ainda durante este mês no espaço lusófono, deixando como legado projetos de digitalização e divulgação da obra camoniana junto das novas gerações, através de conteúdos educativos, audiolivros e podcasts, culminando com o colóquio internacional “Camões Sem Fim”, no Rio de Janeiro.

