Dezenas de alunos do 9° ano da escola Luís de Camões encheram, no dia 22, o auditório da Casa-Memória de Camões em Constância para ouvir José Ruy, o autor da adaptação d’Os Lusíadas, de Luís de Camões, a Banda Desenhada.
Por iniciativa da Casa-Memória, o autor deslocou-se da Amadora à Vila-Poema para falar da sua obra e das técnicas de desenho e de impressão de livros de banda desenhada.
O livro, com cerca de 130 páginas, foi publicado em português e em mirandês e é recomendada pelo Plano Nacional de Leitura. A primeira edição surgiu em 1984, numa altura em que José Ruy trabalhava no Diário de Notícias. Hoje em dia já soma 82 mil exemplares vendidos em português e em mirandês.
Desvendando os bastidores do livro, o autor lembra-se que demorou cerca de ano e meio a acabá-lo numa altura em que não havia computadores e os processos tipográficos eram mais rudimentares. Por isso, os desenhos eram todos feitos à mão, tal como o texto que acompanha as imagens.
Meticuloso e disciplinado no seu trabalho, José Ruy trabalhava com modelos ao vivo para desenhar. Chamava os seus colegas de trabalho para servirem de modelos às personagens d’Os Lusíadas, tarefa que gostavam de fazer. Mas quando pediu um voluntário para servir de modelo à figura do Adamastor, ninguém se chegou à frente. Teve de ser o próprio autor a desenhar a figura em frente a um espelho.
O rigor do seu trabalho vai ao ponto de estudar o comportamento dos tecidos que se usavam no séc. XVI para que o desenho da roupa no corpo correspondesse à realidade. E até para desenhar o mar e a forte ondulação referida por Camões no Cabo das Tormentas, José Ruy foi de barco para o mar, fez vários pequenos cruzeiros para viver essa experiência e melhor desenhar essa realidade.
Fez questão de mostrar à plateia os lápis, apáros, minas, pinceis e penas que usa para desenhar, tal como algumas pranchas originais e alguns dos mais de 50 livros que lançou. Explicou os processos de impressão em offset, a dobragem e a encadernação dos livros, trazendo algumas provas para mostrar aos espectadores.
Com 88 anos, José Ruy começou a desenhar em 1944 num jornal infantil intitulado “Papagaio”. A sua vida profissional dividiu-se entre técnico de artes gráficas, decorador, autor de Banda Desenhada, ilustrador e pintor.
São da sua autoria livros de banda desenhada sobre várias cidades e vilas do país e sobre figuras da história de Portugal, alguns dos quais publicados em várias línguas, incluindo o árabe.
Considerado o mais prestigiado autor português de banda desenhada, José Ruy procura “fazer um trabalho com verdade” como o próprio afirmou.
No final da sessão, os alunos e outros participantes puderam fazer algumas perguntas ao autor e até tirar selfies.
António Matias Coelho, Presidente da Direção da Casa-Memória de Camões, agradeceu e elogiou a palestra proporcionada pelo autor oferecendo algumas lembranças da instituição e da vila.

Agradeço muito sinceramente esta reportagem que o jornal «MEDIOTEJO» fez sobre a minha palestra
de ontem, 22 de maio na Casa-Memória» em Constância. Foi com muito prazer que a realizei, por convite do seu Presidente da Direcção, Dr. António Matias Coelho. Penso que divulgar aos jovens os processos de trabalho com que consegui vencer dificuldades através de décadas, lhes poderá ser útil.
Bom trabalho aos jornalistas, pela divulgação que a Casa-Memória e o Horto de Camões merece.
Afectuosamente
José Ruy