Bombeiros de Constância fecham acordo judicial com ULS Médio Tejo e encerram dez anos de diferendo. Foto: Ricardo Escada/mediotejo.net

Pode afirmar-se que os Bombeiros Voluntários de Constância atingiram uma provecta idade a exercer um trabalho indispensável ao serviço da comunidade. As celebrações oficiais do centenário realizam-se no sábado, dia 10 de maio, fazendo parte da história dos Bombeiros em Portugal que tem séculos, sendo uma instituição criada no século XVIII, somando, portanto, 300 anos.

Porém, nem a passagem do tempo nem o comprovado valor da missão parecem trazer os recursos materiais necessários para proteger a população ou sequer o reconhecimento social que merecem, apesar de serem figura presente nas horas aflitivas.

Bombeiros de Constância nos anos 1920, cujo comandante era o sargento Gambôa, Foto: propriedade de José Luz, antigo presidente da Assembleia Geral dos Bombeiros Voluntários de Constância.

É pelas mãos daqueles homens e daquelas mulheres que passa o combate a incêndios, o socorro a vítimas, o transporte de doentes, a proteção civil. No corpo de Bombeiros de Constância são 70 elementos no ativo, sendo 40 assalariados pela entidade detentora, uma associação humanitária sem fins lucrativos, e 30 voluntários, que colaboram oferecendo o seu tempo e disponibilidade.

O corpo de Bombeiros de Constância tem a sua sede na vila de Constância e uma secção na freguesia de Santa Margarida. A sua área de atuação própria são os limites geográficos do concelho de Constância (constituído pelas freguesias de Constância, Montalvo e Santa Margarida da Coutada), tendo ainda intervenção, de acordo com planos prévios, acordos com outros congéneres, em benefício da rapidez e prontidão do socorro.

O seu trabalho prende-se, então, com “prestação de socorro, socorro em acidentes quer rodoviários quer com matérias perigosas, incêndios rurais e estruturais, somos a principal força na emergência pré-hospitalar”, explicou a mediotejo.net o comandante adjunto Pedro Brás, dando conta que ficaram para trás os tempos de “litígio” com a Unidade Local de Saúde do Médio Tejo, tendo voltado o corpo de Bombeiros a prestar serviços à ULS por “acordo entre as partes”.

Um trabalho de 24 horas sobre 24 horas, durante 365 dias por ano, isto numa instituição que não pertence ao Estado. São por isso, um exemplo digno de trabalho associativo; aquele que é exercido pela comunidade e para a comunidade.

Pedro Brás, comandante adjunto dos Bombeiros de Constância: Créditos: mediotejo.net

No caso de Pedro Brás, chegou à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Constância (AHBVC) com 14 anos, atualmente tem 45. Uma adesão “familiar, digamos assim. Tinha cá o meu primo e ele é que me meteu o bichinho”, conta ao nosso jornal. Ficou até hoje, já lá vão 30 anos, pela “missão, para ajudar o próximo”.

No seu quotidiano, os Bombeiros de Constância mantêm uma força mínima de intervenção operacional em regime de prevenção e alerta permanente no quartel, constituída e organizada em função da natureza e nível de riscos.

Atualmente têm, durante o ano, um dispositivo de socorro: uma equipa pré-hospitalar e uma equipa de intervenção. No verão, de 15 maio a 15 de outubro, “há o reforço das equipas. Temos mais duas equipas para combate aos incêndios rurais. De julho a setembro garantimos também o serviço de brigadas de aeródromo, no heliporto de Caniceira, onde está situado um meio da Afocelca”, indicou Pedro Brás.

Assim, para o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR) o corpo de Bombeiros conta com uma equipa permanente, mais um reforço no verão com duas equipas, totalizando três equipas, num total de 12 elementos, ou seja, duas equipas de combate e uma de apoio logístico.

“Nos dias de alerta – amarelos, laranjas, de acordo com a gravidade – há um reforço dessas equipas, mas não é certo. É de acordo com a disponibilidade e com aquilo que nos é solicitado pelo comando sub-regional”.

Conta que no dia do “Apagão”, a 28 de abril, não foi necessário reforço em Constância além das equipas em permanência, “foi suficiente para as necessidades. Nesse dia garantimos as nossas comunicações, demos também apoio à nossa farmácia com o gerador, para refrigeração de medicação que precisa de estar no frio e estávamos prontos para, se fosse necessário, apoiar a Santa Casa da Misericórdia na parte alimentar, frigoríficos e arcas congeladoras. Mas não foi necessário”, esclareceu.

Bombeiros Voluntários de Constância. Créditos: mediotejo.net

Nos quartel dos Bombeiros encontramos à entrada a Central de Comunicações que funciona 24 horas por dia, assegurada por um operador de telecomunicações profissional. Ao lado, o parque de viaturas em dois locais distintos contando com três ambulâncias de socorro, uma delas está ao serviço do INEM, 12 veículos de transporte de doentes não urgentes, seis veículos de combate a incêndios, quatro dedicados à área florestal e um à área urbana e industrial.

Alguns desses veículos encontram-se do outro lado do Tejo, na freguesia de Santa Margarida da Coutada, como medida preventiva, devido aos constrangimentos que oferece a ponte sobre o rio Tejo.

Pela Central de Comunicação passa toda a informação, que posteriormente chega ao despacho de meios. Os Bombeiros contam ainda com o secretariado, onde trabalham duas funcionárias administrativas, as trabalhadoras dos serviços de limpeza que são igualmente duas, bem como dois mecânicos na oficina.

Na estrutura de comando encontramos o comandante e o comandante adjunto. O corpo de Bombeiros conta igualmente com três Equipas de Intervenção Permanente (EIP). Os voluntários, como trabalham durante a semana em outras atividades, prestam o serviço sobretudo ao fim-de-semana.

Na corporação “todos fazemos a diferença e os voluntários são uma mais-valia. Oferecem o seu contributo”, diz o comandante adjunto que não esconde que nas questões de “vinculo laboral” os Bombeiros Municipais têm melhores condições de trabalho, mais vantagens, como por exemplo o subsídio de risco. Por outro lado, as Associações “conseguem mais facilmente apoios públicos”, designadamente para a aquisição de viaturas, do que os municípios que têm Bombeiros Municipais, onde não cabem as EIP.

E se o mais difícil na vida da Associação, estando classificada como “um mal geral”, é a sustentabilidade financeira, “muito dependente dos municípios”, para o bombeiro propriamente dito é “o tempo ausente da família”. Ser bombeiro obriga a uma dedicação plena, “ocupa-nos muito tempo”, garante Pedro Brás.

Bombeiros de Constância assinalam 100 anos de vida. Foto: Ricardo Escada

Falando do financiamento, o responsável refere que “a principal fonte de receita” dos Bombeiros é “os transportes de doentes não urgentes” de segunda-feira a sábado, de manhã à noite, seja para consultas médicas, para sessões de fisioterapia ou hemodiálise. A receita que “garante salários”, nota.

Além disso, o comandante adjunto lamenta a falta de “carreira profissional” para os voluntários, que são funcionários de associações, o que não acontece com os bombeiros municipais e com os bombeiros sapadores. “Não existe uma carreira igual para todos. É uma profissão de desgaste e não temos um subsídio de risco. Mas o trabalho de bombeiro é igual em Lisboa, em Tomar ou em Constância”. Por isso, gostaria de ver a profissionalização da carreira de bombeiro voluntário.

A paridade sente-a na desvalorização social do bombeiro, seja voluntário ou profissional. “Os problemas são esquecidos” quando acaba o verão e “os problemas que existiam no ano passado continuam este ano”, critica. Apesar das fases menos boas, não tem dúvidas de ter escolhido a “profissão certa”.

Bombeiros Voluntários de Constância. Créditos: mediotejo.net

Recrutar jovens para a missão de bombeiro é que se apresenta mais complicado. Em Constância a última recruta decorreu em 2024, com sete elementos a concluir a dita, tendo sido contratados pela Associação Humanitária cinco. Em 2025 está agendada, para outubro, uma nova recruta, com três ou quatro elementos.

“Não é como antigamente. São poucos, porque a carreira não é atrativa, não temos muitos incentivos para proporcionar aos jovens. E muitos dos que vêm já têm ligação ao corpo de Bombeiros, através de familiares ou amigos. Se houvesse 20 voluntários? Poderíamos recebe-los. Era excelente!”, diz.

A Associação Humanitária do Bombeiros Voluntários de Constância foi, então, fundada no dia 6 de maio de 1925, servindo a população há 100 anos. Como referido a AHBVC tem como propósito principal a proteção de pessoas e bens, designadamente o socorro a feridos, doentes, náufragos e a extinção de incêndios, detendo e mantendo em atividade o corpo de bombeiros.

Na atualidade, o bombeiro voluntário no ativo mais antigo é o Bombeiro de 1ª António Roberto, na corporação desde 1977. O mais novo tem 10 anos, é o infante Guilherme Silva. Adelino Gomes assume a presidência da direção da AHBVC e Marco Gomes é o atual comandante da centenária corporação.

As comemorações do centenário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Constância arrancaram no dia 22 de março com um jantar dos empresários, comerciantes e forças vivas do concelho de Constância. No dia 4 de maio realizou-se um almoço de confraternização e entrega de condecorações com bombeiros e familiares.

As cerimónias oficiais têm lugar este sábado, 10 de maio, a realizar junto ao Pavilhão Municipal de Constância, com a presença de várias entidades nacionais, regionais e locais.

No programa consta a atribuição de crachás de ouro aos Bombeiros e atribuição de condecoração à AHBVC e ao ex-comandante Adelino Gomes, atual presidente da AHBVC, com várias alocuções. Segue-se um almoço convívio no pavilhão municipal.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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