É no Cais do Tejo, em Constância, que Sérgio Silva faz grande parte do seu trabalho. Imagem: mediotejo.net

Quando não está de volta dos barcos está a fazer a travessia de pessoas entre as margens do Tejo ou ainda a pescar peixe para ganhar mais algum sustento. Numa ligação aos rios que começou por influência do pai, o calafate, barqueiro e pescador conta ao mediotejo.net o que o faz persistir neste modo de vida em vias de desaparecer.

Entre um mês a um mês e meio é quanto tempo demora em média a construir de raiz uma embarcação. Isto “se tiver oportunidade para trabalhar nela todos os dias”, diz-nos desde logo Sérgio Silva.

Calafate desde os 17 anos, há mais de três décadas que mantém de pé a arte de dar vida aos barcos tradicionais de Constância, as lanchas e as bateiras. “Já lá vão uns bons anos”, diz-nos, rindo-se como quem num instante recorda tudo o que já lhe passou pelas mãos. “Uns 75, certamente mais de 70 barcos” que construiu de raiz.

“A maior parte das pessoas que faziam isto já morreram. Aqueles que ainda vão fazendo sou eu, e o meu irmão também, e já não se vê mais ninguém a fazer, pelo menos aqui em Constância”, desabafa.

Exemplo de um dos barcos nos quais Sérgio Silva faz trabalhos de reparação, junto ao cais de Constância. Imagem: mediotejo.net

A sua ligação aos rios começou em criança, tinha apenas 7 anos, quando o pai o ensinou “a pegar nos remos”. “Isto começou com a família, o meu pai era pescador e aprendi com ele. Ele levava-me à pesca. Depois também construía os barcos dele e arranjava, e eu sempre desde miúdo que comecei nisto, andava sempre com ele quando era preciso e depois comecei também a fazer para mim uns barcos e para outras pessoas que queriam”, recorda, assumindo com um sorriso que desde aí “não mais parei até hoje”.

Com uma breve interrupção de dois anos para explorar a área da construção civil, rapidamente se apercebeu de que “não era aquilo que queria” e voltou a arregaçar as mangas para se dedicar aos rios.

Numa arte que “dá muito trabalho e que não dá assim muito dinheiro”, Sérgio Silva não estranha que hoje “as pessoas estejam viradas para outros empregos diferentes”. Mas com isso levanta-se a questão da tradição e da sua sobrevivência. É em poucas palavras que nos diz que se está a perder, não só em Constância “mas também noutros lados em que se fazia construção de barcos se está a perder muito”.

Sérgio Silva, 50 anos, é barqueiro, calafate e pescador. Imagem: mediotejo.net

Especializados na construção naval, nos tempos em que os rios desempenhavam um papel primordial nas trocas comerciais, o calafate era uma das profissões comuns na vila de Constância. Mestre em criar embarcações de raiz, destacava-se no seu trabalho a calafetagem, em que entre as tábuas do casco de barco se colocava a estopa e posteriormente uma mistura de resina com alcatrão, o breu, para proteger a madeira do apodrecimento e evitar a entrada de água na embarcação.

“O primeiro passo é arranjar a madeira, e começa-se o barco sempre pelo fundo. Estica-se umas tábuas no chão (…) depois arranja-se os braços do barco. Corta-se à medida por cima certinha, depois é que se aplicam as tábuas de lado pregadas. No final, leva a estopa e o breu e depois é pintar”, elucida-nos Sérgio Silva com a destreza e rapidez de quem sabe de cor cada passo, fazendo parecer simples o que na realidade exige minúcia e tempo.

Hoje, dedica-se aos barcos nos bocadinhos de tempo livre que tem durante o seu outro ofício, o de barqueiro. Reparando embarcações e dando um jeito a outras, de vez em quando aparece um trabalho maior, como alguma encomenda. Mas nos últimos anos “o número de encomendas de barcos decresceu bastante”, confessa.

Borda Rio, o barco que está a renascer à vela

Mas mesmo com poucas encomendas trabalho não falta. Nos últimos tempos, Sérgio Silva tem em mãos um projeto desafiante em conjunto com o Museu dos Rios e das Artes Marítimas e que pretende dar uma nova vida a uma das embarcações que durante todo o ano está nas margens do Tejo, o Borda Rio.

“Estávamos a pensar em meter um barco a andar à vela, mas até às festas já não conseguimos, só depois das festas. Vamos tentar andar à vela, ainda temos de ensaiar e ver como funciona. Temos que apanhar vento bom também”, conta-nos o calafate.

A ideia é a de criar um “pequeno museu flutuante” conforme adiantou ao mediotejo.net a responsável do Museu dos Rios e das Artes Marítimas, Anabela Cardoso, permitindo que os visitantes possam experienciar como era navegar ao sabor do vento.

“Nos outros anos costuma estar vento para cima, este ano é que o vento está para baixo. Mas com o vento para cima dava, por exemplo, para ir até Montalvo de barco à vela e depois voltar. Se o vento estiver assim, temos de começar lá de cima e vir para baixo”, aponta Sérgio Silva, que para já se ocupa de arranjar a embarcação, impermeabilizar aquilo que o tempo foi desgastando, e voltando a pintar as flores desenhadas nos cascos.

A outra missão de Sérgio: Ligar pelo rio as margens da vila

À beira rio há sempre alguém a solicitar passagem para o outro lado da margem, e é nessa missão de ligar pelas águas as margens de Constância e Constância Sul que Sérgio Silva se agarra de segunda a sexta-feira.

“É como passo mais tempo é como barqueiro, é a atividade que me ocupa mais tempo”, admite. Desde 1989 que faz diariamente a travessia, faça chuva ou faça sol, ao serviço da Câmara Municipal de Constância.

Ao Cais do Tejo, local onde passa a maior parte dos seus dias, chegam ainda diversas pessoas a solicitar passagem por variados motivos. “Uns trabalham na Caima, outros vêm para a Câmara, uns vêm tratar de assuntos aqui à vila, também miúdos da escola que não querem esperar pelo autocarro vem por aqui”, enumera.

A travessia fluvial é gratuita e tem horários definidos: de meia em meia hora das 07h30 às 11h00, às 12h00, às 14h00, e novamente de 30 em 30 minutos das 16h00 às 18h30.

“Há dias em que passo umas 10 ou 12 pessoas, outros dias passo 15 ou 20, outros dias passo só quatro ou cinco. É conforme. Alguns já sabem os horários, os habituais que já passam aqui há mais tempo já sabem”, diz.

Do lado de Constância Sul, avista-se ao longo o cais da parte norte da vila de Constância. É entre estes dois pontos que é feita a travessia fluvial. Imagem: MRAM

Além de calafate e barqueiro, Sérgio Silva é um homem de sete ofícios e aos fins de semana veste o papel de pescador. “Aos fins de semana venho para a pesca, que é quando tenho mais tempo”, conta.

Diz que já não há tanto peixe como antigamente, mas que “tem havido ainda e tem-se vendido”. No seu caso, vende para os restaurantes locais, por encomenda. “Por exemplo, liga-me um restaurante que quer 10/15kg de peixe, venho apanhá-lo na véspera à noite ou no dia de manhã e vou entregar”, explica-nos.

Com a hora da próxima travessia a aproximar-se, é tempo de deixar a conversa e ir buscar aqueles que do outro lado da margem esperam pela boleia do barqueiro de Constância. Pelas águas do Tejo dentro, fazemos uma última pergunta: “Aos dias de hoje, ainda pensa mudar de vida?”.

Com um sorriso no rosto de quem carrega orgulhosamente a missão de manter viva a identidade constanciense, a resposta é sucinta e direta: “Não, acho que já não!”.

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Ana Rita Cristóvão

Abrantina com uma costela maçaense, rumou a Lisboa para se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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