António Matias Coelho e Jorge Paiva Foto: DR)

Sucedem-se as iniciativas para revitalizar a Associação Casa-Memória de Camões em Constância. A par da recuperação do jardim horto que está a ser executada por uma empresa especializada, têm-se realizado palestras e espetáculos ligadas à temática camoniana.

Na sexta feira, dia 12, o convidado foi o biólogo Jorge Paiva que, no auditório da Casa-Memória e perante uma plateia maioritariamente constituída por jovens alunos da escola Luís de Camões, falou sobre “As plantas na obra poética de Camões”.

António Matias Coelho, presidente da direção da Associação começou por agradecer a presença do conferencista e de autarcas, dirigentes, professores e outros interessados, mostrando-se agradado por ver a casa cheia.

Com iniciativas como aquela, a Associação pretende “reforçar a ligação de Camões à vila”, “revitalizar a Casa-Memória” e “fazer de Constância um centro de culto camoniano”.

Matias Coelho apresentou Jorge Paiva como “pedagogo, defensor do meio ambiente e um dos mais conceituados biólogos portugueses”, realçando “o encontro que o orador consegue fazer entre a ciência e a cultura”.

A conferência surgiu na sequência de uma visita que Jorge Paiva fez em setembro ao Jardim-Horto, durante a qual deu várias sugestões para melhorar o espaço.

O orador começou por confessar que, quando andava na escola “odiava” Camões. Mas, depois começou a ler outra vez a obra camoniana e resolveu identificar toda a flora na obra épica e lírica. Nessa altura ficou com “uma admiração brutal” pelo poeta.

Aos presentes mostrou uma cópia fac-simile da 1ª edição de Os Lusíadas que conseguiu depois de consultar o original na biblioteca Joanina.

Casa cheia na Casa-Memória de Camões (Foto: mediotejo.net)

“Como é que foi possível publicar uma obra (Os Lusíadas) cheia de paganismo em pleno tempo da inquisição?”, questiona Jorge Paiva. Revela que o Inquisidor-Mor não queria autorizar a publicação, mas D. Henrique deu ordens para que a obra saísse para a rua, esgotando no prazo de um mês. “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, esgotou num dia, faz notar.

Com base nas suas investigações, chegou a algumas conclusões através daquilo a que chama de “inferências” mas que põem em causa algumas teoria tidas como certas.

Com recurso a uma projeção multimédia, apresentou uma cronologia histórica da vida de Camões. Não se sabe ao certo quando nasceu nem se, de facto, morreu a 10 de junho. Estranha-se que não haja qualquer poema de Camões dedicado à mãe o que poderá indiciar que seria um filho bastardo.

Luís de Camões era “extremamente culto” e tudo indica que deveria saber grego e latim, refere o conferencista. O poeta esteve em Coimbra na sua juventude, como aio de uma família, altura em que, na ausência do marido, se terá envolvido com a mulher, referida de forma subtil em vários poemas.

Luís de Camões regressa a Lisboa e daqui voluntaria-se para viajar até Goa.

São mais de 50 as espécies referidas na obra de Camões (Foto: mediotejo.net)

O mito de que Camões terá salvado os Lusíadas a nado é desmontado pelo orador uma vez que o local onde se deu o naufrágio tinha pouca água e dava para andar a pé enquanto o barco terá ficado atolado no lodo, defende Jorge Paiva.

“As plantas citadas nos Lusíadas não têm nada a ver connosco”, afirma, para dizer que Camões escreveu os Lusíadas no Oriente, com influência da flora do jardim de Garcia da Horta.

Se as referências da flora n’Os Lusíadas remetem quase todas para o Oriente, já a lírica está cheia daquilo a que chama “plantas do love”, quase todas autóctones com muitas alusões a espécies ripícolas, ou seja, existentes à beira rio. Plantas e flores existentes nas margens do Tejo e do Mondego são abundantemente referenciadas na lírica do poeta.

Para Jorge Paiva só há dois episódios n’Os Lusíadas com referências a “plantas do love”. Inês de Castro e Ilha dos Amores não contêm qualquer referência a plantas asiáticas.

No ecrã vai passando uma lista exaustiva de plantas e flores, mais de 50, citadas nos Lusíadas com referência ao respetivo nome científico, nome vulgar, canto e estrofe onde se encontram.

Ao longo da palestra vai criticando a política florestal do país condenando a proliferação dos pinheiros bravos e eucaliptos, principais responsáveis pela propagação dos incêndios. Em contraponto, defende espécies como o carvalho, o sobreiro, o pinheiro manso, a oliveira, entre outras.

Participaram dezenas de alunos da escola Luís de Camões (Foto: DR)

Muito viajado, projeta algumas imagens de árvores e plantas que foi recolhendo pelo mundo e também pelos locais por onde Camões terá passado.

Sempre num tom leve e bem disposto, Jorge Paiva vai desfilando a lista de dezenas de plantas, árvores e flores citadas nas obras de Camões. Por exemplo, a rosa é referida 26 vezes na lírica.

A utilização das espécies para aromatizar, para aumentar a virilidade ou como simples símbolos é desenvolvida pelo orador que, durante hora e meia, consegue com facilidade prender a atenção da plateia.

Jardim-Horto está a ser recuperado (Foto: mediotejo.net)

Jardim Horto de Camões abre renovado no 10 de junho

Os responsáveis da Associação Casa-Memória de Camões tencionam mostrar o resultado do trabalho de reabilitação do jardim-horto que está a ser executado pela empresa Opengreen – Arquitectura Paisagista, Lda, de Vila Nova da Barquinha, no dia 10 de junho, feriado oficial, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Iniciada em setembro, a recuperação do jardim está a ser feita com a “recolocação das plantas certas nos locais certos, de acordo com o projeto original feito pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles”, conforme explica Manuela Arsénio, dirigente da associação.

Colocação e substituição de terras, manutenção dos canteiros, podas, são alguns trabalhos que estão a ser feitos, sendo certo que o jardim “há de estar mais florido na Primavera”.

O objetivo, explica aquela responsável, é “ter, no dia 10 de junho, o jardim mais bonito para os olhos e com as características científicas e literárias que não pode deixar de ter”.

Jorge Paiva tem 84 anos e corre 10 quilómetros por dia (Foto: DR)

Jorge Paiva, um caso raro de vitalidade e cultura

Além de ser um dos mais conceituados biólogos portugueses, aos 84 anos, Jorge Paiva não para de surpreender, de aprofundar e divulgar os seus conhecimentos na área.

Na fase introdutória da conferência falou um pouco sobre si. Revelou que todos os dias corre 10 quilómetros e que raramente está em casa. Aliás, em casa não estuda botânica mas sim outras áreas da cultura. E quando falava sobre este assunto, realçou a diferença entre ser culto e ter escolaridade, dando exemplos de pessoas com poucos anos de estudo mas que possuem uma bagagem cultural surpreendente.

Nesta fase da vida, para além do exercício físico diário, anda a exercitar a memória. O desafio a que se propôs foi decorar todos os sonetos de Camões. “Hei de decorá-los todos”, garante.

Confessa que prefere fazer educação ambiental com jovens, como os que estavam na sala, do que com velhos.

No início da conferência, distribuiu a todos os presentes um cartão de boas festas (com referências à nossa flora), que ele próprio idealizou e executou. É uma tarefa que faz todos os anos, enviando os cartões para todos os continentes onde tem familiares e amigos.

Há uma proposta para se editar um livro com a reprodução desses postais mas uma exigência do autor é que o livro seja oferecido a todos os professores de biologia do país, condição que ainda não conseguiu ser ultrapassada pelas editoras interessadas, dados os custos que tal acarreta.

José Gaio

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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