Constância "agradecida" e "engrandecida" homenageia ex-presidente António Mendes. Foto: Ricardo Escada

“Nesta fase da minha vida também eu me sinto agradecido e engrandecido; agradecido por ver reconhecido pelo Município e pela comunidade, em 2024, uma obra de um quarto de século que mudou a vila, o concelho e a vida dos seus munícipes. Engrandecido por ter tido a honra de, por repetida vontade do povo, ter participado como protagonista nessa grande obra, em que dediquei os melhores anos da minha vida”, começou por dizer o comendador António Mendes, no seu discurso durante a cerimónia de homenagem prestada no Dia do Concelho de Constância.

As palavras referiam-se ao “agrado” e “satisfação” com que leu, na placa inaugurada, momentos antes, no exterior do edifício dos Paços do Concelho, no âmbito da homenagem, que Constância se sente agradecida e engrandecida.

Para o ex-presidente da Câmara Municipal de Constância, a homenagem “é um momento muito especial” particularmente numa “casa onde servi durante tantos anos” em dia de Festa do Concelho, foi o ponto de encontro de homenagem que “naturalmente me deixa feliz”, confessou.

António Manuel dos Santos Mendes nasceu no dia de Reis de 1950 em Santa Margarida da Coutada, no concelho de Constância, onde sempre viveu, exceto entre 1971 e 1973, quando cumpriu serviço militar na então Lourenço Marques, Moçambique, durante a Guerra Colonial.

Ao regressar à “metrópole”, casou-se. O percurso profissional traçou-se na CP, tendo saído quando foi eleito presidente da Câmara Municipal de Constância.

Homenagem ao comendador António Mendes em Constância. Créditos: mediotejo.net

António Mendes foi eleito pela primeira vez em 1979, então para a Assembleia de Freguesia de Santa Margarida da Coutada, e, ainda antes de ser eleito presidente de Câmara, foi vereador na oposição – na época o executivo municipal era de maioria PSD.

Foi militante do Partido Comunista Português até que, devido à luta por uma lei das Finanças Locais não penalizadora dos pequenos municípios, deixou de o ser, mas candidatou-se à Câmara Municipal de Constância sempre pela CDU, explicou ao nosso jornal, mesmo como independente.

Em 2009, apesar de ainda se poder candidatar ao cargo de presidente de Câmara, decidiu não se recandidatar, pois sentiu que era a altura de sair pelo seu pé e não por imposição legal. Afirma “não estar nada arrependido” da decisão que tomou.

António Mendes dedicou 40 anos ao poder local a partir de Constância Foto: Ricardo Escada

Tal como não se arrepende de ter abraçado a causa autárquica, garantiu ao mediotejo.net.

“Sem dúvida! Se a minha idade fosse outra. E lembro que saí da Câmara ainda podia fazer mais um mandato, mas não é uma vida fácil ser autarca. Quando nos empenhamos, quando nos envolvemos, quando nos interessamos, quando damos tudo o que temos para ver as coisas alterarem e muitas vezes não o são… hoje voltava a fazer exatamente o mesmo, se calhar melhor porque a vida me deu mais experiência”.

Constância “agradecida” e “engrandecida” homenageia ex-presidente António Mendes. Foto: Ricardo Escada

O que poderia ter feito melhor? Não sabe responder “mas que me esforçava, como na altura aconteceu, por fazer bem, isso indiscutivelmente, que me esforçava”, afirmou ao nosso jornal à margem da cerimónia de homenagem.

Para António Mendes “mais do que um homem ou um autarca o que aqui se homenageou hoje é a mudança que se fez na nossa terra, a profunda transformação que soprou no Concelho, na transição do século passado para o atual”.

A António Mendes coube-lhe “ser o rosto, mas o rosto apenas, desse processo longo, muitas vezes difícil, mas sempre motivador. Verdadeira obra coletiva de que todos em conjunto nos devemos orgulhar”.

Não esqueceu os “vários governantes” de diferentes governos com quem “mantivemos os diálogo, e as boas relações de trabalho de colaboração, que perceberam e apoiaram o que se estava a fazer no nosso concelho independentemente da nossa matriz político-partidária” nem tão pouco “algumas frustrações” e “momentos de tristeza”.

Sublinhou que em Constância, “um concelho pequeno mas respeitado pelas suas tradições”, se conhece e reconhece “dotado das infraestruturas necessárias à vida de quem nele habita, de quem nele trabalha e de quem o visita. Foi capaz de dar a volta ao destino de decadência a que parecia condenado e se projetou para o futuro com argumentos e com força de vontade”.

Lembrou “as várias lutas” nas quais se envolveu “com empenho e dedicação” para “afirmar os pequenos municípios na Associação Nacional de Municípios Portugueses e fora dela. Muitos se lembrarão dessa grande jornada vivida na nossa vila onde estiveram mais de 80 pequenos e médios municípios numa iniciativa de afirmação e combate político contra uma injusta lei das Finanças Locais que a não ser alterada, como felizmente aconteceu, retirava verbas muitos significativas aos pequenos municípios”.

Nas suas palavras lembrou, também, o jurista e consultor da Câmara de Constância, José Amaral, recentemente falecido, como “um homem extraordinário que me acompanhou para Coimbra e que se envolveu de tal maneira na reunião que, sem ele, certamente não seria capaz de protagonizar o que protagonizei”.

Homenagem ao comendador António Mendes em Constância. Créditos: mediotejo.net

Uma referência ainda ao 25 de Abril ao dizer que “tudo isto só foi possível porque houve Abril. O que estamos a viver aqui hoje é também uma homenagem ao 25 de Abril, ao poder local democrático”.

ÁUDIO | COMENDADOR ANTÓNIO MENDES

Além do comendador António Mendes, também o atual presidente da Câmara Municipal de Constância, o socialista Sérgio Oliveira, discursou perante um salão nobre dos Paços do Concelho repleto de convidados e população que se quis juntar tendo aceite o convite aberto para estar presente na homenagem, bem como na sessão solene do Dia do Concelho, que iniciou com o içar das bandeiras, guarda de honra prestada pelos bombeiros voluntários de Constância e presença da Filarmónica Montalvense 24 de janeiro.

Sérgio Oliveira dividiu a sua intervenção em duas partes, primeiro discursou sobre ‘a vida do concelho, passado recente e futuro’ e meia hora depois abordou a ‘homenagem ao sr. comendador António Mendes’, lembrando que a Assembleia Municipal aprovou por unanimidade, em fevereiro de 2015, uma recomendação para que a Câmara Municipal lhe promovesse uma homenagem.

Homenagem ao comendador António Mendes em Constância. Créditos: mediotejo.net

“Foi um processo longo, com várias ideias, adiado pela pandemia, poderia ter sido há mais tempo, reconheço, mas o importante é que hoje a estamos a fazer”, disse o presidente da Câmara.

Para tal foi constituído um grupo de trabalho que integrasse as forças políticas representadas nos órgãos municipais para que com base numa proposta da Câmara Municipal se decidisse o motivo de homenagem, o dia e o local. Sérgio Oliveira recordou aquilo que considerou “um lamentável episódio”, ou seja, a polémica gerada à volta da atribuição do nome de António Mendes a uma travessa em Santa Margarida da Coutada e afirmou ter concluído que “qualquer homenagem que lhe fizéssemos envolvendo apenas e só a atual maioria que democraticamente foi eleita pelo povo seria matéria de arremesso político-partidário”.

Acrescentou que a maioria PS considerou que António Mendes “não merecia que, numa homenagem que lhe estamos a promover de coração aberto, fosse colocado no centro da cegueira partidária de alguns que não conseguem ver além-mar. Para nós esta homenagem está inscrita no catálogo dos assuntos de Estado em que o consenso deve ser a palavra de ordem, em que as diferenças têm de ser esquecidas a bem de uma realização maior”.

Segundo Sérgio Oliveira “o valor de um homem, a sua competência, a sua dedicação aos serviço público não se aufere pelo cartão de militante do partido A ou do partido B, nem pelas suas convicções ou opiniões com as quais podemos ou não concordar, estas qualidades auferem-se pelo exemplo de quem esteve sempre disponível, a dar o melhor de si, sujeitando-se à crítica, ao escrutínio, ao erro, abdicando de muitas horas a favor da família. Na política apenas existem diferenças de opinião, devendo a mesma ser encarada como um ato nobre ao serviço das pessoas e com respeito por todos”.

Foto: Ricardo Escada

O atual presidente da Câmara definiu como “a melhor e maior homenagem” a um autarca a submissão “ao veredicto das populações e ser sucessivamente reeleito com maiorias folgadas. Vossa Excelência foi alvo desta homenagem em 1989, 1993, 1997, 2001 e 2005”.

Também Sérgio Oliveira mencionou o advogado José Amaral, recentemente falecido, tendo sido assessor de cinco presidentes de Câmara, de cores políticas diferentes.

ÁUDIO | PRESIDENTE SÉRGIO OLIVEIRA

Na primeira parte do discurso o edil começou por dizer que “nos últimos anos o esforço tem sido de aumentar a qualidade de vida da comunidade” e enumerou, em jeito de lista, um conjunto de obras, intervenções, projetos e atividades levadas a cabo nos seus mandatos, portanto desde 2017.

Referiu igualmente as apostas para o futuro, como, por exemplo, a construção de habitação a custos acessíveis, as piscinas naturais em Santa Margarida da Coutada, a requalificação da Igreja Matriz de Constância, o ciclo urbano da água e a respetiva eficiência hídrica ou o Cais do Tejo.

“Vivemos tempos exigentes, que exigem aos políticos falar verdade, mesmo que essa verdade não seja popular”, declarou, tendo criticado “o monstro burocrático em que a administração pública está mergulhada” obrigando a “resistir”.

ÁUDIO | PRESIDENTE SÉRGIO OLIVEIRA

A homenagem incluiu ainda a distinção aos funcionários do município com 10, 20 e 30 anos de serviço. Tendo sido distinguidos, com medalha Cobre, dois trabalhadores que trabalham para o Município há 10 anos: Marisa Eduarda Figueiredo e Luís Miguel Batista.

Nesta mesma segunda-feira, Constância celebra também a festa da Boa Viagem, um dia sempre muito especial para as gentes do concelho pela tradição dos marítimos e das ligações ribeirinhas. Às 13h00 decorreu a cerimónia da chegada das embarcações ao cais de Constância, tendo chegado ao rio Zêzere, vindas do Tejo, 63 embarcações engalanadas representando 15 municípios.

E da parte da tarde decorreram as cerimónias religiosas, voltando a ser o ponto alto dos festejos, dos quais se destacaram a Missa Solene, a Procissão em honra de Nossa Senhora da Boa Viagem e as Bênçãos dos Barcos nos rios Tejo e Zêzere e das viaturas na Praça Alexandre Herculano.

A Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem realiza-se anualmente e tem como principais objetivos a “preservação e a valorização dos costumes, das tradições e das vivências locais”.

A noite, e as Festas do Concelho, encerra com o concerto dos HMB e fogo de artifício.

ENTREVISTA RELACIONADA:

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Entre na conversa

1 Comment

  1. A presidência do Sr . António Mendes deixou Constância sem Alma , nomeadamente na zona ribeirinha onde ficaram duas zonas descaracterizadas nas margens dos dois rios . Um projecto pífio e piroso , cheio de mau gosto e que apagou as zonas bonitas de sempre . No Tejo , uns ” arranjos ” sem graça , no Zêzere tudo tão , mas tão mau que tirou todo o encanto à zona ribeirinha . Um verdadeiro atentado ao bom gosto , um excesso de tudo . Que pena !
    De uma constancience da primeira metade do séc XX
    Gabriela De Lemos

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *