*Entrevista publicada em julho de 2024, republicada em janeiro de 2025
Chamaram-lhe Quinta da Fé. Fé é nome da rua em Malpique (Constância) onde Renato e Ana criaram a sua quinta com alojamento local e interação com animais, e a razão da falta de dúvidas sobre o batismo. Aquele pedaço de silêncio, com terra, árvores, um sereno por-do-sol e 26 animais à solta é o projeto de dois jovens que, cansados do reboliço da cidade grande, tiveram na pandemia o empurrão que precisavam para se mudarem para o campo.
Desde então, aquele lugar tem sido construído aos poucos, embora já tenham encontrado as duas casas; a de família onde residem e outra à qual deram função de alojamento local, construída pela antiga proprietária, numa antiga taberna de Malpique.
Ali permitem que os seres humanos criem laços com os animais, desfrutem da tranquilidade rural, plantem na horta, façam churrascos ou se refresquem na piscina.

Quando chegaram, em março de 2022, havia laranjeiras e oliveiras por podar, espaços de brincar e relaxar por construir, duas casas por organizar, uma grande biblioteca por guardar e moradias para animais por conceber.
Tiveram de aprender tudo, quase sempre por conta própria embora os vizinhos tenham ajudado, designadamente a distinguir as sementes, como cultivar ou tratar das cabras anãs, das galinhas, dos coelhos, dos patos e da Maria da Fé, a mascote, uma burra que chegou à Quinta, vinda de Elvas. E a aprendizagem continua também na companhia da cadela Cookie do cão Brownie e até de um gato que mais independente, por ali explora o território.
Atualmente, Ana Plácido, com 31 anos, e Renato Siderot, com 32, garantem não estar arrependidos da mudança até porque não se imaginam noutro lado, mas denotam algumas dificuldades nesta aventura campestre. A maior passa por conseguir gerir e conciliar o tempo da vida pessoal e da vida laboral.
“É uma luta! O início um grande desafio. Às vezes é mais a vontade de desistir do que de continuar. Mas depois vem alguém com uma onda de amor…”, justifica Ana que, da vida no litoral, diz sentir apenas falta do mar, nome que deu a uma das suas cabras.




Conheceram-se em Sintra, Ana a trabalhar na Associação Quinta Essência com pessoas com deficiência, depois de um curso de Animação Sociocultural e ter saído de Ponte de Sor, aos 18 anos, arriscando aceitar um emprego não tendo sequer onde dormir. Ficou lá 10 anos. E Renato era bombeiro com presença recorrente na instituição.
“Foi amor à primeira vista”, assegura Ana. Mal tiveram tempo de se conhecer e Renato é chamado a cumprir o serviço militar, uma tropa precisamente com passagem por Santa Margarida. Malpique era portanto um local descartado. “Não gostei muito! Muitas moscas, muito calor e os momentos passados no curso também não foram agradáveis”, relembra o jovem a rir.
Porém, o IC19 conseguia superar tudo, no que toca a insatisfação. Renato viajava diariamente de Sintra para Benfica (Lisboa) para trabalhar nos Pupilos do Exército e estava “farto”. A gota de água chegou com a pandemia e o consequente confinamento.
A viver num apartamento sem varanda, “era caótico. Quase que fazíamos turnos, para não nos encontramos no corredor, para respirarmos. Tivemos muito tempo fechados. E eu disse: bora mudar de vida, vendemos tudo e vamos morar para o campo. Nós não pensámos! Podia ter corrido muito mal. Mas sentimos que era a altura. Pusemos a casa logo à venda”, conta Ana.
Em dois meses a casa estava vendida. “Entrámos em pânico porque vendemos sem ter um lugar para ficar”. A opção passou pela Deolinda, uma carrinha que transformaram, em duas semanas, numa espécie de casa sobre rodas, com cama e frigorífico, preparada para estacionar num Parque de Campismo, sabendo que o destino era ou o Ribatejo ou o Alentejo.
Esta última região acabou excluída por uma questão de mobilidade: “tínhamos de ter uma estação de comboio perto para o Renato continuar a trabalhar em Lisboa até conseguir a mobilidade” e ser transferido para o interior do País, explica Ana.
Antes da mudança para o campo, ainda alugaram um apartamento na margem sul mas acabaram por ir viver uns tempos para o Parque das Nações (Lisboa), com o objetivo de Ana tomar conta de uma idosa, sogra de um amigo, que sofria de Alzheimer.
“Morava num T1, tivemos dois ou três meses a dormir no chão da sala, mas foi a melhor experiência da nossa vida. Apaixonámo-nos por aquela velhota”, tendo Amália sido a primeira pessoa a ir com o casal ver a Quinta da Fé, que lhes chegou ao conhecimento através de anúncios.




Quando viu o espaço que hoje é a Quinta da Fé, Renato recuou no entusiasmo, representava “muito trabalho! Havia muita coisa para fazer”. Porém, foi cativado pelo doce das laranjas e pela frase da cunhada: “Mais fé que vocês é impossível!”, afirmou no momento, em jeito de augúrio.
Vaticínios à parte, uma coisa o casal sabia: queriam ter um sítio que possibilitasse receber pessoas, “a ideia era o alojamento, mas ainda não tínhamos bem a ideia formada de como iríamos fazer. A verdade é que a Quinta foi-se construindo aos poucos”, afirma Ana.
Um ano depois a associação ‘Os Quatro Cantos do Cisne’ propôs que a Quinta recebesse 100 crianças numa atividade de contacto com a natureza.
“Foi uma emoção! E começou a fluir. Chegaram os animais; as cabrinhas Georgina, Domingão e Mar. Em junho de 2024 o alojamento local assinalou um ano” em funcionamento. Ter pavões será o passo a seguir, ainda que o processo de legalização dos animais junto da DGAV não seja simples, complicando quando se trata de animais considerados “exóticos”.
Mas a Quinta da Fé não foi a primeira aventura em que Ana Plácido e Renato Siderot embarcaram. Quando casaram, em 2018, não tinham dinheiro para a boda e trataram de meter mãos à obra tendo dois empregos, cada um, para reforçar o orçamento.
Com a ajuda dos pais de Ana lançaram-se na entrega de cabazes de produtos biológicos, diretamente de Ponte de Sor para a grande Lisboa.
“Com pão caseiro, a minha mãe migava caldo verde, fazia broas. Não tínhamos mãos a medir, era abrir a bagageira e vender cabazes. Ainda há pessoas que mandam hoje mensagens a perguntar pelos cabazes”, conta Ana que, além disso, trabalhou como baby-sitter enquanto Renato acumulava o emprego que tinha com um trabalho numa pizaria.




Depois de pago o casamento, faltava dinheiro para a lua-de-mel. Receberam, como prenda de casamento, bilhetes de avião para Itália – Renato tem raízes italianas – onde estiveram duas semanas mas com constrangedoras restrições alimentares, contando os euros para poderem viajar nos transportes públicos, de mochila às costas, de cidade para cidade, desde Milão até à Sardenha.
“Comprávamos uma pizza gigante de manhã e tinha de dar para o dia todo. Os meus sapatos dobravam de tão rotos que estavam. À minha mãe, sem sonhar, dizia-lhe: comemos mãe, comemos!”, garantia Ana, contando que ainda tiveram a simpatia de um casal estrangeiro que, após conversa de circunstância com Ana e Renato, ofereceu-lhes 50 euros para jantarem. “Foram mesmo queridas!”, relembra a jovem.
Atualmente encontram-se no papel inverso ao de turista e sentem, no acolhimento dos hóspedes no alojamento – uma casa com cozinha, quarto com duas camas de casal, sala de refeições e de estar e casa-de-banho -, que “toda a gente é família. Por isso escrevemos na parede da casa: ‘esta casa é a casa de muita gente!”, explica.
O verão está praticamente todo reservado, só com algumas vagas em setembro. Recebem essencialmente hóspedes de Lisboa, mas também já receberam espanhóis, holandeses e ingleses, que procuram tranquilidade e que encontram entre as práticas rotineiras de uma quinta, como tratar dos animais, tirar os ovos das galinhas, plantar árvores ou fazer cabazes com ovos, frutas ou feijão verde, atividades interessantes.

Quando recebem as escolas na Quinta criam ateliers, por exemplo de pintura, com direito a insufláveis e brincar na zona de areia, complementada por uma casa infantil de exterior.
Os miúdos vão com a Ana tratar dos animais e plantam num vaso um girassol ou uma suculenta que levam para casa. Disponibilizam também a qualquer interessado a Open Farm, para conhecer a Quinta e brincar com os animais.
Basta ligar e marcar, custa 4 euros por adulto e 2 euros para crianças até aos 10 anos, uma quantia que ajuda na compra da ração dos bichos. Recentemente lançaram o apadrinhamento dos animais, querem criar um convívio designado dia dos padrinhos, colocando o seu nome no mural dos padrinhos, e cada pessoa pode colaborar com 5 ou 10 euros por mês, esta última modalidade permite 10% de desconto no alojamento em época baixa.
Entretanto, num conceito ainda mais ambiental, estabeleceram parcerias na região, com um supermercado em Montargil (Ponte de Sor) para combater o desperdício alimentar, alimentando os animais. Recebem igualmente legumes e pão de uma empresa de distribuição e de uma mercearia, da mesma cidade alentejana.
Para as redes e vedações da Quinta conseguiram uma parceria com uma empresa de Aveiras. “O sr. Zé Feijão, vendedor ambulante das Bicas, colabora com fruta. À nossa volta sentimos solidariedade, não nos podemos queixar. Dão sem pedir nada em troca”, revela Ana.
Referem que ainda não sentiram a recompensa do alojamento local, ou seja, do investimento. O dinheiro que conseguem, investem na Quinta. Têm planos de, para o ano, avançarem com caixas de hortas sustentáveis, querem construir um tanque que sirva de piscina, algo típico no Alentejo, um baloiço e expandir o alojamento que provavelmente passará também pela instalação de um bungalow de madeira, mais destinado a retiros e terapias.
Quer Ana quer Renato tiraram um curso de massagens e no início da chegada a Malpique a jovem organizou um grupo de meditação com o objetivo “das pessoas se conectarem consigo próprias”.
E por isso, chegou a organizar workshops de desenvolvimento pessoal com vários parceiros e aposta num dia dedicado ao sagrado feminino, com duas terapeutas do Entroncamento.

“Temos sempre a casa cheia, embora sintamos a necessidade de sair, porque isto é um trabalho de 24 horas por dia, 7 dias por semana. Solidão não sentimos. Mesmo com os hóspedes ficamos à conversa a partilhar histórias”, diz Ana.
Hóspedes que chegam a Malpique através, essencialmente, das redes sociais, à procura de sossego proporcionado por um jovem casal com “vontade” e “coragem” de mudar de urbano para rural.

Já lá estive com o meu neto. São fantásticos! Numa manhã chuvosa, receberam-nos com imensa simpatia e ali estivemos a interagir com os animais de uma forma para mim, que sempre estive habituado ao campo, inédita. Os animais vivem, literalmente, uns com os outros. O cão brinca com o gato, o gato joga à apanhada com as galinhas, as cabritas não nos largam a pedir atenção e a burra parece que fala. Nenhum ataca nenhum o que faz lembrar um mundo de fantasia tipo Rei Leão 😊. Uma delícia para as crianças, uma surpresa para os adultos e um simpático alojamento local para quem queira passar uns dias com esta verdadeira família de pessoas e animais. Para quem queira fazer uma festa de aniversário das suas crianças, é também um óptimo local. Levem-os a conviver com os animais, a sujarem-se na lama e a brincarem no campo, a fazerem um piquenique, em vez de os levarem a um restaurante “fast food” a beber Coca-Cola e comer batatas fritas. Parabéns ao casal!
Até me senti emocionado com o vosso historial de vida… Um romance delicioso, digno de uma obra literária… Continuem com essa força interior e vão registando o v/ dia a dia… Também tenho netos que vivem em Lisboa. Se algum dia aparecer uma oportunidade talvez os leve à Quinta da Fé (belo nome), talvez, porque ainda temos uma vida muito ocupada apesar da idade avançada…