O abrantino Conde Martins em sua casa, na Parede, ostentando a Taça de Campeão do Mundo de Vela 1953, em classe 'snipe'. Fotografia: mediotejo.net

Após uma vida cheia de aventuras, o ex-comandante de submarinos “atracou” no litoral de Cascais, mais propriamente na Parede. Da varanda de sua casa vê-se o mar, um velho amigo com quem mantém uma relação de intimidade. O auge desta história passa-se precisamente no mar. Em 1953, “zarpou” até ao Mónaco – na realidade foi de táxi, numa viagem atribulada que contaremos já a seguir –, para pegar no leme do ‘snipe’ Garrancho, levantar a vela e ser campeão do mundo. Tinha 17 anos.

A embarcação da classe ‘snipe’ Garrancho 9294 – com um comprimento de 4,70 metros e boca de 1,50 metros – venceu, em 1953, o Campeonato do Mundo da sua classe disputado no Mónaco, tripulada por António José Conde Martins (leme) e Fernando Lima Bello (proa). Este foi o primeiro título mundial de vela ganho por portugueses. Atualmente encontra-se exposto no Pavilhão das Galeotas do Museu da Marinha, em Belém.

Conde Martins e Fernando Bello no “Garrancho”, numa das regatas do Campeonato do Mundo de Vela em 1953. Aspeto geral da prova. Créditos. Marinha Portuguesa

António José Conde Martins nasceu em Abrantes a 1 de abril de 1936, filho de José Martins e de Maria José Tramela Conde. O pai, natural de Chainça, Abrantes, e a mãe com raízes familiares em Sardoal, viveram enquanto casal em Algés, devido à profissão que o patriarca abraçou.

“A minha mãe era de Abrantes e Sardoal porque o meu avô tinha em Sardoal a única loja de comércio geral que havia na época. Quando a minha mãe ficou grávida já vivia em Lisboa”. Contudo, António foi nascer a Abrantes – o casal mantinha casa na rua Ator Taborda, n.º 17.

O pai era igualmente marinheiro – com quem confidencia ter tido uma relação complicada – e acabou por desenvolver a veia empresarial no ramo militar durante a Guerra Colonial, negócio que terminou na falência com a revolução de Abril. Anteriormente a essa experiência – de sucesso financeiro durante o Estado Novo, segundo o filho – fez carreira como oficial da Armada e foi professor na Escola Naval.

O gosto pelo mar talvez lhe esteja no sangue. A proximidade da praia, por certo, ajudou à vontade de praticar vela, ainda mais residindo nas proximidades do Centro de Vela da Mocidade Portuguesa.

Por Abrantes e Sardoal mantinha-se a família, incluindo os avós, entre os quais se conta a avó Génia, como lhe chamava, curiosamente madrinha de casamento da mãe do primo Conde Falcão, e cujo falecimento foi uma das razões que afastou o jovem António da região. Mas ainda em vida motivaram a mãe a querer que os dois filhos, António e a irmã, nascessem na terra dos seus antepassados.

Atualmente, da família que ainda reside no Médio Tejo resta um primo em Sardoal (António Conde Falcão, um militar de Cavalaria do Exército que se dedica à fotografia, e que tinha 13 anos quando “o grande herói do Mónaco”, como define o primo, se sagrou campeão). Conde Martins recorda também dois tios maternos, um deles médico que viveu em Moçambique e regressou após a independência. A exercer medicina em Lisboa, “as pessoas do Sardoal e de Abrantes iam todas à sua consulta”, recorda.

Fotografia de António José Conde Martins com os pais e a irmã. Créditos: mediotejo.net

Até aos 15 anos, António José visitou com regularidade Abrantes. Após os 18 deixou o Ribatejo para trás, entusiasmado que estava com a prática da vela. Iniciara a carreira de velejador amador aos 10 anos, na classe de ‘lusitos’, no Centro de Vela da Mocidade Portuguesa, organização juvenil com orientação ideológica do Estado Novo que se destinava a crianças entre os 7 e os 14 anos de idade, escolarizadas ou não, com atividades como canoagem, esgrima, boxe ou aeromodelismo, oferecidas até mesmo aos jovens socialmente mais desfavorecidos.

“A vela foi a minha grande paixão”, confessa. O ‘lusitos’, diz, “era engraçado porque tinha duas velas e era mais completo, agora só tem uma vela”. Apesar de se afirmar um homem realizado, pai de dois filhos, de riso fácil, lamenta que a sua irmã, entretanto falecida, “morresse com a mágoa” de não ver uma única referência a António José Conde Martins na sua cidade natal, quando tem menção até na capital, precisamente no Museu da Marinha. “Coisas da vida!”, desabafa.

Logo aos 13 anos, em 1949, sagrou-se Campeão Nacional nessa classe, sendo galardoado com o troféu ‘Nobre Guedes’. Em 1951 transitou para a classe de ‘snipes’ que, naquela época, era o barco de competição com maior divulgação internacional.

Na função de proa, pois como era muito magrinho – convinha ser um indivíduo mais corpulento – não passava para a frente de maneira nenhuma. “Foi um bocadinho complicado passar para a classe de ‘snipes’, sendo uma classe internacional, de adultos. Não era a Formula 1 da vela mas era, naquela altura, o barco que tinha mais projeção mundial”, vinca.

Iniciou então a praticar como ‘proa’ de Fernando Roquette e, no ano seguinte, quis a sorte que na falta de um companheiro António ocupasse o lugar de ‘leme’, obtendo o primeiro lugar no Campeonato da Frota do Centro de Vela da Mocidade Portuguesa. Classificou-se também em terceiro no Campeonato Nacional de Snipes e novamente em primeiro na XII Semana da Vela. No mesmo ano, saiu triunfante das regatas de ‘snipes’, realizadas em Leixões, para disputar a taça ‘D. Nicolas Franco’ (embaixador de Espanha em Portugal).

O seu “grande rival” no Porto era Rui Moreira (pai do atual presidente da Câmara Municipal do Porto), por ser o principal candidato ao título. De uma família com muitos recursos económicos, “tinha um barco espetacular e era dado adquirido que ia ganhar o Campeonato Nacional. Aconteceu que na primeira prova ganhou, mas na segunda ganhei eu. E isto realizava-se com pouco vento”, nota. “Na segunda regata, entrou muito vento e ondulação, e ouvi dizê-lo: ‘agora é que o puto vai à vida!’. Enganou-se.

Mais tarde, felicitando-o pela vitória, manifestou-se convicto que “qualquer outra prova que vá fazer terá bom resultado”. Dessa vez não se enganou.

Cerimónia de entrega de prémios aos campeões portugueses pelo representante do Príncipe Rainier, no Mónaco. Créditos: Marinha Portuguesa

Conde Martins, questionado se, para a proeza, teria ocorrido alguma circunstância especial, respondeu: “A circunstância especial é que nasci com uma facilidade imensa em tirar o melhor rendimento dos barcos”. Mas também considera ter tido sorte. “No segundo ano em que tive um barco atribuído, a Mocidade Portuguesa recebeu dois barcos novos, de madeira. Era a mesma coisa que passar de um Dois Cavalos para um Ferrari”, compara.

Recorda que “a regata foi duramente disputada em pleno mar por 23 ‘snipes’, com vento fresco do Norte”, e fez equipa com o proa Francisco Lacerda. Velejador que não o acompanhou ao Campeonato do Mundo, no Mónaco,“encontrando-se indisponível por motivo de estudos”, tal como não o acompanhou Hélder de Freitas, com quem fez equipa no Campeonato Internacional, em Punta Humbria (Espanha), com duas regatas, sagrando-se vencedor em cada uma delas.

“O nosso comportamento, conforme atestam os jornais da época, foi considerado magnífico, tendo as tripulações portuguesas arrebatado os sete primeiros lugares da competição”. Uma atuação “tão brilhante” dos portugueses que os jornais espanhóis os cognominaram com o epíteto de ‘El bárbaro campionissimo’.

As taças atribuídas no Campeonato do Mundo de Vela, em 1953. Créditos: mediotejo.net

Esse resultado levou a Federação Portuguesa de Vela a escolher António José Conde Martins para representar Portugal no Campeonato do Mundo, que se realizou no Mónaco, em setembro de 1953. A escolha para proa foi Fernando Lima Bello, da classe de ‘sharpies’, “com larga experiência”, até por ter estado no ano anterior no Mónaco por ocasião do Torneio da Páscoa, e por isso conhecer bem as águas onde iriam velejar.

A dupla portuguesa apresentou-se numa competição com quinze países, com equipas “de grande valor” e com melhores condições técnicas, designadamente o campeão do mundo, representante da Argentina, o campeão norte-americano Tom Froster, o representante da Dinamarca campeão europeu e “os fortíssimos” velejadores de Itália, França, Suíça e Cuba.

A embarcação Garrancho, apesar de estar equipada com velame de algodão, mais pesado do que as velas dos outros atletas em ‘dracon’ (nylon), de estar “desatualizada”, até por não possuir boeira para escoar a água, tendo a mesma de ser baldeada manualmente, navegou “muito bem”, recorda Conde Martins. E mesmo sendo a primeira vez que velejava com Fernando Lima Bello, não fizeram um único treino, assegura. A equipa funcionou e conseguiram “grande regularidade”, embora sem terem ganho uma única regata.

Fotografia do momento em que a equipa de norte-americanos cumprimenta a equipa portuguesa pela vitória no Campeonato do Mundo em 1953. Créditos: mediotejo.net

Acontece que a equipa norte-americana, que deveria ter ganho, foi desclassificada numa das provas. “Bateu numa boia que era preciso circular. E naquela altura ficar desclassificado numa prova significava um último lugar. De maneira que o avanço com que fiquei em pontos, com cuidado, dava para ganhar o Campeonato do Mundo”, refere na sua modéstia.

Independentemente da sorte ou azar, até porque os ventos foram fracos, o que não era o mais favorável para a equipa portuguesa, mantendo a regularidade ao longo das cinco regatas disputadas, obtiveram o primeiro lugar na classificação final, sagrando-se campeões mundiais da sua classe.

No entanto, até à vitória no Mónaco, o percurso que levou à participação dos três velejadores portugueses (Conde Martins, Lima Bello e como suplente Antunes Fernandes) desenhou-se uma aventura. A Federação Portuguesa de Vela não tinha orçamento para a competição, mas devido ao empenho do coordenador do Centro de Vela, João da Costa Barata, “grande impulsionador” da ida da equipa ao Campeonato, a viagem lá aconteceu também graças ao pai do velejador suplente, proprietário de uma frota de táxis, que disponibilizou um táxi “disfarçado” com um reboque, levando a equipa, por estrada durante dois mil quilómetros.

Chegados ao Mónaco, outro problema financeiro se desenhou – a equipa não tinha dinheiro para pagar o hotel. De Lisboa, via telefone, a solução teria de ser “vender o barco para pagar o hotel”, após a competição. Contudo, para alívio da equipa portuguesa, pela vitória na prova receberam como presente precisamente a estadia…

Posteriormente, a cerimónia de entrega de prémios teve lugar durante um jantar no Hotel Paris, presidido por um representante do príncipe Rainier, do Mónaco.

O regresso a Portugal, no tal táxi que os havia levado, “também foi incrível”, uma viagem recheada de episódios caricatos, principalmente a partir dos Pirenéus. O motor do carro aqueceu demasiado e valeu-lhes as taças conquistadas no Mónaco para encher o radiador com água. Chegados à fronteira, num Portugal em que a PIDE estava em todo o lado, também compareceu na raia para apressar os velejadores, esperados em Lisboa para uma receção de boas vindas com hora marcada. Também na fronteira estava o primeiro entusiasta português acenando com o jornal ‘A Bola’ e apontando para a reportagem, provando que a notícia corria veloz e sem censura. Ainda na viagem, já por terras portuguesas partiu-se o engate do atrelado que transportava o barco. Lá o deixaram pelo caminho, para mais tarde ser recolhido.

Fotografia de António Conde Martins a cumprimentar D. João Carlos I, Rei de Espanha, na qualidade de Adido de Defesa junto da Embaixada de Portugal em Madrid. Créditos: mediotejo.net

Em Portugal, o mérito dos velejadores nacionais foi amplamente reconhecido pela imprensa, sociedade civil e pelas mais altas entidades, tendo inclusivamente sido agraciados com a Medalha de Mérito Desportivo, pelo então Presidente da República, general Craveiro Lopes.

A chegada a Lisboa aconteceu a 16 de setembro. “Fomos recebidos de forma surpreendente, em apoteose. Andei aos ombros daquelas pessoas…”, ri, explicando que “campeão do mundo, sobretudo com a minha idade, não havia nenhum”.

Ainda no Mónaco, após o Campeonato, foi distinguido com a gravação do seu nome na Taça Perpétua que imortaliza os campeões. Também no Mónaco recebeu a Taça ‘Prince Souverain de Monaco’. Em Lisboa foi distinguido, tal como relatado anteriormente, com a Medalha de Mérito Desportivo, Medalha Olímpica por ter sido considerado o melhor atleta amador em 1953, Medalha Municipal de Cultura Física da Câmara Municipal de Lisboa e Medalha de Dedicação e Assiduidade da Mocidade Portuguesa.

A Medalha Olímpica com a qual foi contemplado, acabou por perder-se. Tal facto foi abordado na direção no Comité Olímpico de Portugal e foi decidido, por unanimidade, distinguir António Conde Martins com uma placa olímpica comemorativa da sua participação no Campeonato de 1953 e por ter sido o primeiro campeão do mundo de vela português. Essa homenagem foi-lhe prestada durante a cerimónia comemorativa do 98º aniversário do Comité, em novembro de 2007, em conjunto com a apresentação da equipa olímpica que se preparava para os Jogos de Pequim 2008.

Por altura da comemoração dos 60 anos da efeméride de Mónaco, em 2013, o Clube Náutico de Oficiais e Cadetes da Armada (CNOCA), no Arsenal do Alfeite, realizou uma regata desportiva no Tejo batizada por ‘Regata Comandante Conde Martins’, que atualmente ainda se realiza.

A embarcação de classe ‘snipe’ Garrancho em exposição no Museu da Marinha. Créditos: mediotejo.net

De salientar que o Campeonato do Mundo de Snipes de 1953, o primeiro título mundial de vela ganho por velejadores portugueses, manteve-se como o único conquistado durante mais de 40 anos.

A partir dessa data, a carreira desportiva de Conde Martins foi interrompida. A conclusão do curso do liceu, no D. João de Castro, e a posterior entrada na Escola Naval, condicionaram a competição, embora velejasse regularmente.

Réplica de um submarino na casa de Conde Martins. Créditos: mediotejo.net

Depois, durante as viagens de instrução de cadetes da Escola Naval realizou diversas regatas sagrando-se vencedor em 1955, em Inglaterra, aquando da regata ‘Torbay-Lisboa’, a bordo da Sagres, de dois torneios à vela, tendo como proa Alberto Pascoal Rodrigues, designadamente em Plymouth (Inglaterra) na classe de ‘redwings’ e em Darthmouth (Inglaterra) na classe de ‘dinghis’.

Mais tarde, novamente com Pascoal Rodrigues como proa, ganharam o torneio da classe ‘vaurien’ disputado em Brest (França), aquando da regata oceânica ‘Brest-Canárias’ na Sagres, veleiro que triunfou nessa competição.

A sua vida profissional, designadamente a sua especialização na navegação submarina, e o tempo passado nos submarinos, não lhe permitiram continuar a carreira de velejador. De notar que Conde Martins ainda navegou em submarinos da Segunda Guerra Mundial.

O abrantino Conde Martins em sua casa, na Parede. Créditos: mediotejo.net

António Conde Martins teve uma vida naval muito prestigiada. Fez algumas comissões no Ultramar, como era normal na época das colónias, duas na Guiné – que “dispensava”, conta –, sendo mais tarde destacado para a Esquadrilha de Submarinos da Armada. Por lá ficou 10 anos antes de chegar a Comandante da Esquadrilha, cargo que desempenhou durante 5 anos.

Foi comandante de Henrique Gouveia e Melo, atual Chefe do Estado-Maior da Armada e Autoridade Marítima Nacional. Anos depois desempenhou funções de Adido de Defesa em Madrid e Atenas. Foi também diretor do ISN – Instituto de Socorros a Náufragos, e representante do Sistema de Autoridade Marítima na Comissão Nacional de Proteção Civil.

Sobre a prática de vela, tem a certeza que “os jovens que começam a praticar ficam apaixonados”. Sem deixar de observar que no seu tempo “pagava-se zero” e “agora quem não tem dinheiro tem dificuldades em ingressar no Clube Naval de Cascais, ou noutro sítio qualquer”, espera que futuramente sejam criados incentivos a esta modalidade desportiva, que o apaixonou durante toda a vida.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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