'Agustina' - pastel seco de Ana Paula Lopes, colecção particular de Guida Correia Pires | Foto: Adelino Correia-Pires

Gostaria, um dia, de escrever sobre Agustina, como ela o fez sobre os estados de alma. Não é ainda o tempo, que a chuva teima, o vento assusta e Amarante dista mais do que parece. Terra de Pascoaes e de Amadeo, ali nas faldas do Marão, talvez por isso, já Unamuno se apaixonara pelas Sombras do poeta, filosofia sombrosa que não sombria.

Gostaria de vos falar dos lugares brandos, terras de promissão, vaquinhas e de poetas, que para Agustina, ambos seriam uma e a mesma coisa, nos sentidos mitológico e delicado.

Gostaria de pular entre Douro e Minho e perceber “…porque aos quinze anos se tem um futuro, aos vinte e cinco um problema, aos quarenta uma experiência e só com meio século verdadeiramente uma história.”

Gostaria, como ela, de vos falar de Dostoievski, abrindo qualquer livro em qualquer página e a lesse ali mesmo como nos “Sermões de Fogo”: “… que quer? não nasci para aquecer o lugar, apetece-me sempre deixar tudo ao fim de algum tempo. As pessoas são como os pardais; se estão vivos fogem, se não fogem é porque são de palha…”.

Gostaria ainda, como ela, de vos falar de Camilo como ela admiravelmente falou escrevendo, e dizer-vos que nele, o romance são a história, não do que acontece numa vida, mas do que se evitou que acontecesse, fundindo o impossível, confortando o inseguro.

Como gostaria de poder falar-vos da quase gente e das quase coisas dos seus livros, com travos ázimos e perfeitos. Da água sempre presente e que vai escorrendo por entre as páginas. Desse segundo milagre que é A Sibila. De tantas figuras femininas, dos enigmas e também dos mitos, mesmo quando nos anos pródigos anos de escrita, mal se instalava frente ao Douro não se afofando nas almofadas dos sofás, com tentações nómadas irreparáveis.

E contar-vos porque Agustina e Oliveira, o Manoel, cedo se teriam percebido mutuamente, na simbiose da palavra e da imagem. Porque os génios cedo se pressentem no que é o óbvio.

Quando um dia escrever sobre Agustina, vou lembrar-me sempre, da timidez da alma. Porque também a escrita deve ficar sempre na penumbra, sem que a claridade ofusque as margens.

Como gostaria de escrever sobre Agustina. Mas a chuva teima, o vento assusta e tudo varre…

(No dia dos seus 96 anos…)

*Crónica publicada a 16 de outubro de 2018, republicada a 3 de junho de 2019

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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