Há maneiras e maneiras de dar nas vistas. Pedro Arroja já há décadas que tenta dar nas vistas, a defender ideias que não cabem na cabeça de ninguém, como a privatização do ar. A isto chama-se “tentativa de chamar a atenção sobre mim quando ninguém me liga nenhuma”. Entretanto, talvez infeliz por não ter a atenção que acha que merece, decidiu chamar “esganiçadas” às deputadas do Bloco de Esquerda.

O ato, que muitos acharam de provocatório (porque o é), atinge o limite do desespero. É o tentar atingir  quem se sabe que vai reagir com toda a força para, assim, se ter mais destaque em tudo quanto é meio de comunicação e rede social. Objetivo conseguido!

O que não quer dizer que Pedro Arroja não corra o risco de ter que vir a responder em tribunal, uma vez que está a decorrer um inquérito no Departamento de Investigação e Ação Penal, originado por uma queixa  da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Mas deixemos as instituições funcionar.

Pedro Arroja deve ter gostado desses momentos em que meio país falava dele. Tanto que quis voltar ao estrelato do inaceitável. Agora vem dizer que “a relação homossexual é um desequilíbrio” e que mulheres a liderar partidos “é enfraquecer o espírito partidário”. Ainda alguém leva isto a sério? O “engomadinho”, como lhe chama Ferreira Fernandes, cronista do Diário de Notícias, só quer atenção… E  a única forma que encontrou de o fazer foi defender posições extremas que gerem confusão e alarido na opinião pública. Mas, mesmo que certas opiniões não sejam levadas a sério, isto não pode ser o vale tudo.

Todos temos direito à opinião. E há situações em que apetece mesmo ofender, sobretudo quando a opinião atinge o limite do inaceitável. Só que os comentadores deviam ter a responsabilidade social inscrita no seu código genético, mesmo que sejam provocadores e fraturantes. Porque atuam no espaço público, com todas as consequências que daí resultam.

A verdade é que os comentadores por excelência sabem reconhecer momentos infelizes de opinião sobre os outros, como fez Miguel Sousa Tavares (adore-se ou odeie-se) quando chamou “palhaço” a Cavaco Silva, então Presidente da República.

Responsabilidade social acrescida deviam ter os titulares de cargos públicos quando dão a sua opinião. Vontade de dar pares de estalos a autores de comentários provocatórios já todos tivemos. E muitos seriam merecidos! Mas um ministro não o pode fazer em público, muito menos usando uma rede social onde coloca fotos dos seus atos públicos como ministro da Cultura. Por isso, o título da notícia da agência de notícias inglesa, a Reuters, resume tudo: “Minister of what?”

Nestas coisas da Comunicação, que entram em processos de bola de neve, todos os cuidados são poucos. Alinhar no engrossar da bola de neve é quase sempre o pior que se pode fazer. Portanto, quando João Soares explica que não é um homem violento, e quando acrescenta que espera não ter assustado os dois cronistas a quem gostava de dar um par de estalos, só está a condenar-se ainda mais.

Mais valia assumir que foi um comentário infeliz, como todos temos. O problema é que enquanto uns provocam deliberadamente para estar no estrelato do inaceitável, outros chegam lá sem o quererem fazer…

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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