Homero, pintura de Jean Baptiste Auguste Leloir, Séc. XIX

“Fui confrontado com a certeza absoluta que era possível recuperar, eu tinha era de acreditar.”
Pedro, programa “Júlia”, 15 de Abril de 2020

As histórias são mágicas. Desde o alvor da nossa Humanidade que partilhamos histórias que nos aproximam, nos alertam, nos ensinam e nos inspiram. A oralidade é-nos ancestral e foi e será sempre a forma mais intensa de nos conectarmos ao próximo, de sentirmos empatia, compaixão ou inspiração. A linguagem é, afinal, o que faz de nós humanos. E foi a oralidade, fixa em papiros, que nos deixou histórias magníficas como a Odisseia de Homero ou a Teogonia de Hesíodo, que até hoje não cessam de nos encantar.

Na sua singular racionalidade, a ciência recente diz-nos o que intuitivamente sabemos há milénios: quando ouvimos uma boa história o nosso corpo produz oxitocina e instantaneamente surge em nós um desejo de conexão com a pessoa que estamos a ouvir. Do ponto de vista da neurociência, podemos dizer que as histórias são uma máquina de criar empatia. Um mecanismo que nos permite entrar na mente de outra pessoa, ter as mesmas experiências, os mesmos pensamentos e os mesmos sentimentos.

Valerá a pena dizer que a oxitocina, a famosa hormona do amor, tem um papel crucial na regulação do comportamento social já que leva a um aumento da confiança, empatia e robustez de laços afetivos. Mais, e particularmente interessante, é o facto desta hormona ajudar na moderação dos intensos e quase incontroláveis desejos por substâncias, comumente conhecidos por cravings. Ou seja: a este ponto, é uma hormona determinante para mim que estou em recuperação após décadas de abuso de substâncias.

No dia 15 de Abril de 2020 ouvi uma incrível e real história de sofrimento, de vulnerabilidade, de superação e de amor que precipitou uma profunda mudança da minha vida.

O confinamento havia determinado que eu esperasse pela reabertura de instituições de tratamento. Apesar da espera ser desesperada, fiquei, na verdade, bastante aliviada, porque isso significava tempo para poder procurar alternativas ao centro que me propunham e onde já havia estado. Não queria regressar onde tinha sido infeliz e onde não tinha sido possível resolver o meu problema. Este compasso de espera — sem beber — permitiu-me reconquistar alguma lucidez. Foi nessa altura que ouvi na televisão uma entrevista que viria a mudar o rumo da minha vida.

Quando uma amiga me avisou que devia ligar a televisão e ver o programa da Júlia, esperava tudo menos encontrar um homem cuja bondade e serenidade me prenderam imediatamente. A história do Pedro era inspiradora. Se ele tinha conseguido e ali estava a contar como, porque não podia eu acreditar que também conseguiria?

Cada ser humano tem a sua história. Mas as histórias individuais daqueles que vivem a dependência têm mais semelhanças do que diferenças. Os porquês e os comos da nossa vida aproximam-nos e ligam-nos numa identificação sem igual. Quando o Pedro falou da sua experiência num centro cujo modelo era de terapia ocupacional e de como isso não lhe resolveu o problema — já que, ao longo do tempo em que aí esteve internado, não abordou o que sentia e o que fazia com isso —, pensei que era exatamente isso que me esperava se me fizesse internar novamente num centro com um modelo semelhante. Também eu estive nove meses em terapia ocupacional e saí de lá praticamente como entrei. Ao explicar que finalmente conseguiu entrar em recuperação com o programa de 12 Passos, o Pedro mostrou-me que havia outro caminho. Nesse momento, tomei a minha decisão. Depois de todas as tentativas falhadas, acreditei que esse modelo seria a minha última hipótese. 

Escutar outro ser humano que sofreu e superou, acendeu em mim uma trémula, mas resoluta chama de esperança de que, também para mim, seria possível uma outra vida. É o enorme poder da partilha e da identificação. Todos aqueles que seguiram o programa de recuperação dos 12 Passos e assistem regularmente a reuniões, sabem como a partilha e a identificação mudam e salvam vidas. Nesse dia eu ainda não sabia. Mas vivi-o.

A superação do Pedro, após todo o desespero e insanidades, levou a que me sentisse acompanhada. Não era a única a mentir e a cometer loucuras e, após muitos anos, eu consegui imaginar e criar um novo ainda por vir. Ele mostrou-me por onde começar a minha peregrinação interior, urgente e essencial e que me levaria ao reencontro comigo e com a vida na sua pulsão mais verdadeira, genuína e longínqua.

O Pedro foi enormemente corajoso ao quebrar o anonimato, e o ato de coragem dele salvou-me a vida. Aquela entrevista foi um verdadeiro serviço público e para mim algo de mágico. Quando terminou eu senti, pela primeira vez na vida, que tinha um plano para recuperar em que podia acreditar.

Apenas alguns meses mais tarde, começaria a viver repetidos momentos de magia ao ouvir outros adictos e alcoólicos partilharem nas reuniões de autoajuda. A escuta das suas histórias conforta-me, inspira-me, ensina-me e, sobretudo, revela-me que não estou sozinha. Sem isso não estaria em recuperação.

Façam o favor de ouvir e contar histórias, podem revolucionar a vossa vida.

Sara Cura

Arqueóloga de formação, dedicou-se durante largos anos à investigação e ao Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo, em Mação. Atualmente exerce funções no Gabinete de Apoio à Investigação e Qualidade da Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa.

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