Manuel José Soares, porta-voz da Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo. Créditos: mediotejo.net

Manuel José Soares recebeu os nomes próprios dos avôs materno e paterno, respetivamente, há 68 anos. Natural da Vermelha, concelho do Cadaval, no limite do distrito de Lisboa com o distrito de Leiria, frequentou a escola em Torres Vedras, numa secção do Liceu D. Pedro V (Lisboa), estabelecimento escolar onde teve por colega de carteira, no sexto ano, Manuela Moura Guedes, cujo pai era vice reitor do liceu e professor de matemática. A jornalista “era simpatiquíssima, uma líder, chegou a ser Miss Teenager no ano de 1971″, recorda.

A sua situação de viúvo, em 2002, trouxe-o até ao Médio Tejo, precisamente para Torres Novas. Antes da mudança residia em Corroios, no concelho do Seixal. Trabalhou como funcionário Administrativo durante uma década na FNAT – Fundação Inatel, de 1972 a 1982, e depois até 1992 trabalhou numa empresa familiar do ramo comercial de produtos alimentares, com atividades na Costa da Caparica, onde também chegou a morar. E ainda teve uma experiência profissional em Gestão de Recursos Humanos, talvez devido aos seus estudos em Economia, curso que frequentou no ISCTE.

Mas foi em Corroios que iniciou a sua vida ligada às questões da Saúde a convite de um médico, no sentido de iniciar uma Comissão de Utentes. Muito por causa das suas intervenções públicas, inclusivamente na televisão, num programa matinal apresentado por Júlia Pinheiro, em que reivindicou um Centro de Saúde que mereceu inauguração, sim, mas apenas em 2021, ou seja, 20 anos depois.

mediotejo.net – Dia 21 de março de 2023 a Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo completa 20 anos. Como é olhar para este percurso de trabalho reivindicativo?

Manuel José Soares – É uma longevidade inacreditável. Não é por existir uma Comissão de Utentes, mas por existir com atividade e devidamente estruturada. Um dos poucos casos que há no país. Aliás trabalhámos num projeto da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, inclusivamente chegámos a participar em cursos de formação avançada, falando da nossa experiência. Um investigador italiano, que está a trabalhar em Portugal, explicava nos diversos colóquios em que participámos – éramos convidados para a Lousã, Oliveira do Hospital, Coimbra, Pampilhosa, etc – ser caso único. Deve ser duplicado e não andar a inventar situações. Existe a lei da Participação Pública das Comissões e Associações de Doentes na organização pública das Unidades de Saúde, mas não tem possibilidade de ser aplicada, quando pela prática colocamos todos os princípios e vimos que é exequível fazer aquilo que fazemos. Quando vim para o Médio Tejo comecei a contactar gente no sentido de formar uma Comissão de Utentes.

O que o moveu para esta causa?

A mim sempre me moveu a pessoa humana em si. Aos onze anos fui para o seminário, em Santarém, mas não sou crente, embora seja interessadíssimo pelas questões religiosas, de todas elas, sou capaz de ouvir durante horas debates sobre religião. Há por exemplo na Antena1 um debate com um convidado islâmico, um judeu e um católico e costumo ouvir esse programa. Sou visitante assíduo de Fátima, pelo menos uma vez por semana, por curiosidade, para estudar, e por respeito porque realmente é majestoso. O meu filho mais velho, que não acredita em Deus, nunca tinha ido a Fátima até 2018 e considerou o Santuário enorme comparando-o com a Praça de São Pedro no Vaticano. O meu outro filho pertence à Opus Dei. Tenho muita pena que o padre Diamantino tenha morrido, foi meu professor. Há um conjunto de padres que marcaram o distrito de Santarém de quem fui e sou amigo. E há esta questão que está para lá do ser crente ou não ser crente. Existem homens e mulheres e têm como objetivo ser felizes. Costumamos dizer muitas vezes na Comissão de Utentes: A Humanidade já produz riqueza suficiente, e tem conhecimentos científicos, para que uma pessoa desde o nascimento até morrer não tenha sofrimento de ordem física e até, eventualmente, psíquica. Infelizmente a soberba e a ganância de alguns leva a que condenemos ao sofrimento comunidades e comunidades. Ao nível das crianças e dos idosos é uma coisa inacreditável, em Portugal temos problemas desses. Ainda ontem Correia de Campos dizia que um dos problemas da Saúde em Portugal é os lares e residências para idosos não terem assistência médica permanente, o que leva a que apareçam nas Urgências num estado lastimoso e empata aquilo tudo, porque demora tempo reanimar um idoso ou tratar-lhe das feridas, desidratação, desnutrição e isto passa-se, infelizmente, nos nossos lares.

Ou seja, a ida para o seminário foi o primeiro passo?

Sim. Quando saí da escola primária já organizava jogos de futebol e uma série de coisas. Quando fui para o seminário puxaram-me pela veia de organização e até pela veia de nos preocuparmos com o outro. Tive a experiência, durante um ano, na organização católica, a Conferência de São Vicente de Paulo – também nas outras religiões há organizações similares, os islâmicos têm, por exemplo os Irmãos Muçulmanos, que é mais uma organização social do que política e em alguns sítios ocuparam o poder, portanto esta vertente social não é exclusiva dos cristãos ou da igreja católica – e abriu-me a perspetiva de me preocupar com o outro, do género de ter prazer em poder ser útil e fico muito chateado quando não sou capaz.

Mas porquê a Saúde? Há mais de 20 anos já sentia que era preciso exigir melhores condições nessa área?

Quando abandonei a empresa familiar, que acabou por se desmembrar, depois tive uma atividade independente em matéria comercial, ficava com algum tempo. Esse médico foi quem me puxou para as questões da Saúde, e era um campo onde não havia praticamente Comissões de Utentes. Cheguei a fazer debates com esse médico e dizia aos presentes: não tenham medo de pensar que as questões da Saúde são muito complicadas porque o Manuel José, que é comercial de bebidas alcoólicas, já muitas vezes o têm tratado por médico. Até recordo que houve um plenário de população e alguém levou as chapas do Raio X para eu ver. E de vez em quando acontece situações de levarem as receitas para eu ver o que estão a tomar e a única coisa que sei em matéria de Saúde é procurar conhecer a forma como está organizada. E nesta Comissão de Utentes há um núcleo que vem desde o principio, umas seis ou sete pessoas. Preocupamo-nos a ir um bocadinho mais além, do que apenas analisar e ver o que está mal. Achamos que tecnologicamente as coisas estão a evoluir bastante. A Saúde tem de ser vista holisticamente então se uma pessoa estiver sentada numa mesa de café e comer três bolos e se beber um refrigerante com açúcar está a prejudicar a sua saúde. Um antigo diretor geral de Saúde dizia que se acabasse o tabaco metade dos hospitais podiam fechar. Se há um acidente grave em que quatro pessoas ficam feridas o Hospital de Abrantes acaba toda a sua atividade para poder socorrer. Portanto há quatro estádios em Saúde: o primeiro é a Saúde Pública, as boas práticas de vida, e essa para nós é fundamental. A segunda, no caso dos Cuidados Primários, vulgo Centros de Saúde, muitas vezes é mais administrativo que outra coisa porque hoje, mesmo nos hospitais, estamos a caminhar para uma situação de muito trabalho no domicílio. Hoje podemos concluir que se tivéssemos mais equipas de domicílio as situações que se passam nos hospitais não se passariam. Desde logo no que toca a infeções hospitalares, depois a companhia da família, e a alimentação, uma das razões de mais protestos e que agora já está um bocadinho melhor. Portanto, esta ideia de haver cuidados domiciliários revoluciona o conceito que temos de Unidades de Saúde.

Cuidados ao domicílio. Acha que é o caminho?

Sim, vai-se lá! Ninguém quer estar hum hospital a não ser que seja uma doença muito grave ou doentes que já têm alta mas não têm para onde ir, toda a gente conhece as chamadas ‘camas sociais’. E por isso dizemos que a Saúde é um todo, porque deveria haver uma resposta da Segurança Social para que essa pessoa pudesse ser acompanhada fora do hospital. Não há! Por uma série de razões; quando são casas particulares ou IPSS dizem que a Segurança Social não lhes paga, não são devidamente compensados para essa situação. Mas a verdade é que estamos perante um problema que tem até carácter filosófico: até que ponto não estamos a prolongar a vida de muita gente para além do que é razoável. Todos queremos efetivamente que as pessoas vivam mas há casos em que se está a dar medicação que não faz efeito absolutamente nenhum.

É a favor da eutanásia?

Não! A ciência avançou de tal maneira que permite que as pessoas vivam sem sofrer e que possam viver de alguma forma acompanhadas. A sociedade portuguesa avançou de uma forma inacreditável; os centros de dia, os lares, com técnicos, temos pessoas com 90 anos a jogar às damas, a escrever – a minha mãe têm 90 anos e anda a escrever diários -, avançámos muito. Mas há uma questão que implica a organização dos cuidados de saúde: o avanço civilizacional veio trazer um conjunto de patologias, a essas pessoas idosas, com as quais os sistemas de saúde não lidavam. No princípio do século não se falava em rede de Cuidados Continuados, hoje já se fala. Cuidados Paliativos já havia algumas tentativas inclusive de os consagrar como um direito constitucional, hoje já é prática. Hoje praticamente todos os hospitais têm uma Unidade de Dor, não havia! A exigência da sociedade leva a ciência a descobrir novas patologias e novas formas de lidar com elas mas custa dinheiro, tempo. É preciso pesquisa e organizar melhor. Não se pode deixar que uma pessoa que teve um AVC saia de um hospital e esteja à espera um mês para entrar numa unidade de Cuidados Continuados para depois iniciar a recuperação. Perde-se tempo vital para a recuperação. Isto para dizer que, o mais próximo que estava da Saúde foram os 10 anos que trabalhei no Inatel, ao lado do Hospital de São José (Lisboa) e via a azáfama. Uma coisa curiosa: do crematório do Instituto de Medicina Legal, quando o vento estava norte, os cheiros entravam pela janela do edifício.

Comissão de Utentes de Serviços Públicos do Concelho de Abrantes em reunião, da qual também faz parte Manuel José Soares. Créditos: mediotejo.net

Perante o estado a que o Serviço Nacional de Saúde chegou não acha que os utentes mobilizam-se pouco na necessidade de promover um regime de dedicação à causa pública do SNS?

Sim, os utentes mobilizam-se pouco para as questões da Saúde como se mobilizam pouco para outras atividades que deveriam ter. Hoje as oportunidades e os apelativos para exercerem num conjunto de situações, são muitos. Depois a importância dos meios de comunicação, da informação, é fundamental, porque se perante grandes cheias houver uma campanha para dar uma peça de roupa para os desalojados não tenho dúvidas que aparecem milhares de pessoas solidárias. Há coisas que nunca percebi bem, que é fazer um plenário com a população, por exemplo em Paio Pires, e comparecem perto de 400 pessoas, na Sociedade Filarmónica Primeiro de Dezembro de janelas abertas porque havia gente cá fora, e no dia seguinte na Junta de Freguesia de Almada, havia problemas no Hospital Garcia da Horta, apareceram meia dúzia de pessoas; o presidente da Junta, dois utentes, três jornalistas e dois da Comissão de Utentes. Há questões que não percebemos. E as questões da mobilização temos de ver o que entendemos por mobilização e tenho grandes discussões com amigos sobre o que são as mobilizações populares. Não podemos entender que a mobilização popular tem a ver com as pessoas poderem juntar-se para protestar. Há todo um outro trabalho em que as pessoas estão a dar a sua opinião e estão a contribuir. Há muita coisa para fazer. Por exemplo uma das formas que os utentes poderiam contribuir para a melhoria dos serviços seria escreverem no livro de reclamações. O que constatamos é que há uma dificuldade inacreditável da população portuguesa para escrever. As pessoas não têm literacia para poderem escrever. Situações que se veem quase todos os dias. As pessoas às vezes não são capazes de se expressar. Fazer um parágrafo é uma situação complicadíssima.

Ou seja, numa democracia com quase 50 anos, a Educação ainda tem um longo caminho a trilhar?

Hoje vivemos por flashes, títulos, que muitas vezes nada explicam relativamente ao que está na notícia. A informação é muita. E quando se fala em Serviço Nacional de Saúde se o jornalista na TV disser sete ou oito vezes ‘caos’ as pessoas vão dizer que há um caos. Constatámos outra coisa no Médio Tejo. ´É que há muita gente a falar de Saúde que não utiliza os serviços, é por ouvir dizer. O caso curioso de um escultor de Riachos, José Coelho, que uma vez escreveu num jornal local uma crónica em que quase só faltava dizer que havia osgas nas paredes do hospital de Torres Novas. A administração da altura convidou o senhor José Coelho a ir ao hospital e ele voltou a escrever nova crónica dizendo: “estamos muito enganados”. A questão das pessoas estarem mobilizadas ou não mobilizadas, infelizmente andamos na fase das modas. A melhor maneira de pôr as pessoas a discutir é um abaixo-assinado. Distribuímos em centenas de locais, usamos várias plataformas, e as pessoas discutem, falam, têm diferentes opiniões. Na Saúde houve um abaixo-assinado onde recolhemos 30 mil assinaturas pela reorganização dos serviços de Saúde na fase pós Paulo Macedo. Em abril de 2012 fizemos um documento de organização dos serviços de Saúde no Médio Tejo, e houve na altura um individuo que, comentava creio na rádio Hertz e tinha alguma influência em Tomar, disse o seguinte: ‘mas vocês pensam que há dinheiro para isto?’. O senhor não leu o documento, se tivesse lido as 7 ou 8 páginas do documento ia chegar à conclusão que propomos gastar menos e sermos mais eficientes. Esta perspetiva de olharmos para o futuro tem granjeado à Comissão de Utentes algum prestígio.

Então se as pessoas participaram no abaixo-assinado, qual a razão de não participarem em outras manifestações de posição e protesto?

Há uma série de inibições. A Igreja Católica por exemplo têm esses problemas de análise: por que razão as igrejas evangélicas, pentecostais enchem recintos e a Igreja Católica não, limita-se àquelas liturgias, casamento, batizados, missas e funerais, porque tudo o que for além disso se calhar já é muito difícil pôr os católicos a funcionar. As pessoas estão interessadas mas os grandes meios de comunicação social se desempenhassem um papel pedagógico não era preciso fazer as chamadas consultas de opinião pública, depois fazem um inquérito a perguntar se o ministro deveria ir embora, e todos concordam com a demissão. Pudera, andaram 15 dias antes a dizer mal do ministro!

Está a referir-se a Marta Temido?

A todos. Eu reuni com Marta Temido, Correia de Campos, Paulo Macedo, Luís Pereira da Silva e com o atual, quando era secretário de Estado. Há aqueles que têm efetivamente apoio político dentro do Governo e aqueles que não têm. Dizia-me um administrador: enquanto isto foi privado a Ordem dos Médicos nunca cá veio, passou para público já cá veio três vezes e com conferências de imprensa à porta a dizer cobras e lagartos.

Portanto, conclui haver lobby dos médicos?

Claro! Não só dos médicos. Quando é para fazer mesmo lobby contratam empresas de relações públicas e a comunicação social é bombardeada. Já nem falo do caso da Ucrânia mas das questões tecnológicas. Por interesses pessoais e até profissionais visito muitos sites e blogues tecnológicos, e nos sites que vejo é perfeitamente natural em cinco deles aparecer exatamente a mesma notícia. A última que posso referir é que a Samsung depois da Huawei e da Apple vai ter comunicações via satélite nos telemóveis. Isso é um gabinete de comunicação que manda a informação. Dantes usava-se sinais de fumo para comunicar a 30 km de distância. Portanto, temos de encarar as situações da nossa sociedade como algo perfeitamente natural. É evidente que me custa. Um dia à tarde fui ao hospital de Torres Novas e estavam sete ambulâncias paradas ao lado umas das outras, tirei uma fotografia e cheguei junto de amigos e disse ser uma situação para titulo jornalístico: ‘Caos no Hospital de Torres Novas sete ambulâncias paradas à espera dos doentes’. Houve quem acreditasse, a fotografia é real, até tem a data e hora. Com uma fotografia pode-se falar do mau mas a história é boa: as ambulâncias esperam os doentes que estão a fazer hemodiálise. Até porque a hemodiálise de Torres Novas, em termos públicos, é das maiores e melhores do país. Ou seja, uma questão positiva pode ser transformada em negativa. Ouvindo as notícias, até parece que nos hospitais privados não há morgue, não morre lá ninguém. Nem há erros médicos, nem há problemas, pelo menos não é noticiado. Mas há uma forma de ver isso: no portal da queixa, escreve-se a unidade de saúde e as queixas são aos montes. As pessoas protestam. O que existe é uma capacidade de comunicação dos hospitais privados das chamadas unidades de referência, porque das outras ninguém fala.

Manuel José Soares, porta-voz da Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo. Créditos: mediotejo.net

Ainda assim é preciso exigir condições. Como é que isso se faz sem profissionais de saúde. Ou seja, já não é demasiado tarde ou havendo solução levará bastante tempo?

Exato, somos um movimento de opinião e reivindicativo. Não temos dúvidas que demora tempo. Agora há medidas de organização que defendemos e que podem ser tomadas. E se calhar gastar-se-ia até muito menos dinheiro. Primeiro, é na prevenção, é fundamental e não precisamos ter especialistas em cardiologia ou neurologia para fazer prevenção. E muitos dos problemas de saúde estão relacionados com questões de prevenção. Segundo, é que muitos cuidados podem ser prestados por profissionais que não são médicos. Até por assistentes operacionais, mereciam ter condições de formação, de trabalho e salariais muito melhores. Acresce que a taxas de absentismo nos hospitais é muito elevada. Depois há uma questão que pouca gente fala que é a produtividade médica: imaginemos um médico que está no seu gabinete e chega um utente, tem 76 anos, e diz ter um problema na perna com inchaço, o médico diz para se despir e o utente leva 3 ou 4 minutos para desatar os atacadores, mais 3 ou 4 minutos para se descalçar, mais 3 ou 4 minutos para tirar as calças e estamos na fase prévia, depois novamente para vestir, calçar etc. É um exemplo que se passa com toda a gente. Ou seja, a produtividade médica implica que os médicos tivessem um secretário clínico, tudo o que fosse burocracia teria de ser com o secretário e há todo um conjunto de meios complementares de diagnóstico que deveria ser feito por um enfermeiro. Quando chegasse o doente, o assistente operacional no gabinete deveria verificar, ser diagnosticado ou ter cuidados médicos e deixar ao médico unicamente as tarefas de cuidados médicos. E aqui estávamos a ganhar muito dinheiro. Andamos a pagar a médicos para fazerem trabalho administrativo. A nossa perspetiva não é contra isto ou contra aquilo. Há duas maneiras de estar nas Comissões de Utentes: uma é por mais médicos de família e a outra é contra a falta de médicos de família.

A situação da escassez de médicos de família é hoje a situação mais gravosa ou há outras igualmente gravosas?

De todos os profissionais é gravosa. Porque anestesista não há, pediatras não há, neurologistas não há. Falta um conjunto de profissionais. Quem teve responsabilidades na formação de médicos não viu na perspetiva da reforma e além disso há um conjunto de especialidades e subespecialidades – de vez em quando aparece uma especialidade nova, agora andam a querer uma especialidade de Urgência –, como no caso da pediatria. É curioso verificarmos que grande parte dos pediatras e dos médicos são mulheres e as mulheres, acabada a sua especialização, normalmente constituem família e engravidam e quase todas têm gravidez de risco. Temos casos no CHMT (Centro Hospitalar do Médio Tejo) de médicas contratadas e passados uns dias entram em gravidez de risco. Essas médicas não fazem Urgências, não estão para trabalhar à noite em stress hospitalar, fazem medicina de secretária. E até as crianças terem cinco, seis, sete anos, aí é que ficam libertas para poderem ser médicas a tempo inteiro. Hoje vê-se pediatras que atingem o nível de eficácia de produção máxima depois dos cinquenta anos, porque já não têm compromissos familiares.

Portanto, a solução passa pela contratação de médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde?

Neste momento, em termos extraordinários, defendemos a hipótese de contratar médicos estrangeiros. Que pudessem de alguma forma resolver a falta de um conjunto de profissionais, nomeadamente os profissionais para as Urgências. Achamos que há alguma hipocrisia ao não serem admitidos alguns médicos estrangeiros. Por exemplo, com o conflito na Ucrânia, com a intervenção militar russa, pura e simplesmente decidiu-se em três dias, o Governo publicou um decreto, a Ordem dos Médicos deu aval e sobre a questão de os médicos ucranianos não falarem português a resposta foi que toda a gente fala inglês. Significa que há dualidade de critérios.

A burocracia ao nível da resolução dos problemas da Saúde ainda é um travão (vide obras na Urgência de Abrantes, onde falta uma assinatura há meses para iniciarem as obras)?

É um travão! Preceitos legais, etc. Há gente que decide coisas que não têm a mínima preocupação com os doentes. Há quem diga que o Ministério da Saúde é uma secretaria de Estado do Ministério das Finanças. A administração do CHMT há cerca de três anos contratou um médico, acertou com ele as condições de trabalho e seguem para o Ministério da Saúde e depois para o Ministério das Finanças, três meses mais tarde ainda não havia resposta. Lá veio a resposta e o médico já estava a trabalhar noutro lado. E há a situação dos profissionais que se reformam e querem continuar a trabalhar mas não podem… portanto, há burocracias e regulamentações perfeitamente inacreditáveis. Por exemplo, se à porta de um hospital uma pessoa cai, tem um acidente, tem de se esperar que venha o INEM, o hospital não pode ir buscar a pessoa. Há questões de ordem burocrática que depois na prática as coisas correm mal. Posso contar ainda o caso de um pediatra que veio para um dos nossos hospitais e chegando aos serviços de recursos humanos ninguém sabia do processo, e o homem não pode começar a trabalhar. E depois a questão entre a Ordem dos Enfermeiros e a Ordem dos Médicos… porque há um conjunto de funções que os enfermeiros poderiam desempenhar, ainda mais sendo todos licenciados, aliás são os enfermeiros que fazem triagem nos hospitais. Mas há poderes muito fortes, muitos interesses financeiros, interesses corporativos e até alguns casos de prestígio que não percebemos. No caso de um engenheiro informático ninguém perceberia que de manhã trabalhasse na NOS e à tarde fosse fazer umas horas na Vodafone, há um conflito de interesses.

Mas uma das questões em cima da mesa passa pelo reforço salarial dos médicos…

Não conheço nenhum anestesista que ganhe mal, mesmo nos serviços públicos, e a verdade é que não há anestesistas. Sendo um problema salarial, implicaria que houvesse médicos à vontade. Nem no privado. Aquilo que sabemos é que o privado é uma ilusão. Até há quem diga que aquilo parece uma casa de repouso dada à elevada idade dos médicos. Depois basta ir ao Google e pesquisar pelo nome de um médico e ver todos os locais onde trabalha… em todos os lugares possíveis e imaginários, com falhas. Porque um médico que vem de Lisboa ao Médio Tejo se não tiver um número especifico de consultas que justifique cá vir não vêm, adia as consultas. Esta ideia de que o privado tem médicos não corresponde à realidade. Porque é que o Hospital CUF Santarém, com tantas dificuldades que há, não tem Urgência pediátrica? Porque não tem profissionais. Imaginem o que seria um hospital privado de referência receber toda a gente que tem gripe, ou seja, aquilo funciona bem para um determinado número de pessoas e não pode funcionar em situações de urgência, aliás, nessas situação normalmente estabilizam os doentes e mandam para o público. Não é rentável ter médicos que durante 8 horas têm um episódio de urgência, mas têm que lá estar, e depois nas 8 horas seguintes têm 7 ou 8 ou 9 episódios. Isto não é tudo a preto e branco, há muitos cinzentos pelo meio.

Manuel Soares, porta-voz da Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo. Foto arquivo: mediotejo.net

Depois do que acabou de dizer, deduzo que não aconselha a que os utentes façam um seguro de saúde para terem acesso aos cuidados no sector privado…

É muito bom falar em seguros nos sítios onde há privado e social. Verificamos no caso do Médio Tejo que não há qualquer alternativa privada. Há alternativa de consultórios que não passam de receitar comprimidos e de verem a tensão, às vezes diagnosticarem situações, para não falarmos da chamada promiscuidade público-privada, uma situação muito velha: o médico trabalho no hospital mas tem um consultório e numa situação mais complicada manda o doente ir ter com ele ao hospital. Infelizmente passa-se isto. Tenho familiares que o fizeram, e com a colaboração do administrativo do próprio hospital – não foi num hospital do CHMT – e passado três dias a pessoa estava internada, vinda do privado. Aqui não temos alternativa para aquilo que é verdadeiramente básico, nomeadamente as questões de Urgência. Há muitos oftalmologistas, mas se o utente tem uma rutura na córnea, só no Hospital de Tomar. Agora fazer optometria qualquer ótica faz. Se resolvem alguns problemas? Resolvem! Mas não é alternativa nem têm capacidade para isso.

Defende a obrigatoriedade do serviço público, durante determinado período de tempo, para os médicos, à semelhança, por exemplo, dos pilotos da Força Aérea, ou não?

Essa situação em parte já se verifica, nomeadamente nos internos, aqueles que andam a fazer especialidade que na prática trabalham como os outros médicos – nem imagino como seriam as Urgências neste país se os internos não estivessem lá a fazer noites. Fazem onde têm lugar para poderem fazer a formação, nos hospitais e centros de saúde que tem idoneidade formativa, e estão lá! Fazem efetivamente muito trabalho. Há alguns que assinam contratos de cinco anos, para áreas carenciadas e determinadas zonas do País. Mas por vezes pedem exoneração, pagam, indemnizam o Serviço Nacional de Saúde às vezes para ir trabalhar para o Serviço Nacional de Saúde na mesma, mas para outro local. O que podemos dizer é que em toda a atividade humana há uma avaliação em termos financeiros, e também nos médicos.

Como é que se cativa um médico a exercer numa aldeia?

Tem que se criar incentivos. Há médicos em Unidades Móveis de Saúde. Deveria haver análise em termos de voluntariado e depois compensar esses médicos e não estão a ser. Hoje o vencimento de entrada de um médico, no inicio de carreira, é realmente reduzido comparado com outras profissões, dada a especificidade e preparação profissional que têm.

No interior, incluindo no Médio Tejo, algumas Câmara Municipais pagam incentivos aos médicos e mesmo assim existe falta desses profissionais.

Diria que não é suficiente. E há questões em termos burocráticos a impedir. O caso de uma médica que queria vir trabalhar para os Cuidados de Saúde Primários em Torres Novas com a condição do marido, também médico, vir também trabalhar para o hospital, mas o assunto não foi resolvido. Ele foi para Portalegre e ela foi também para Portalegre. No caso ainda para uma zona mais carenciada do que aqui, mas é apenas para exemplificar que muitas destas situações passam por ter alguma sensibilidade. Agora a ideia do Correia de Campos, de pôr os hospitais a concorrer uns com os outros, na contração dos médicos, foi uma coisa tremenda!

De quando em vez o Ministro da Saúde anuncia que vai abrir concurso de médicos, para o Médio Tejo o ACES já prometeu um novo concurso. O problema é que ficam vazios… como explica isto? Como disse, faltam médicos no país? Há quem defenda ser apenas um problema de organização…

Há muito tempo que dizemos que neste País governa-se por anuncio e depois, mais tarde ou mais cedo, resulta mal. Nunca mais me esqueço que no ano de 2015, 15 dias antes das eleições, é publicado em todos os jornais a abertura de um concurso nacional para enfermeiros dizendo que posteriormente serão indicados os locais e as condições de trabalho. Concorreram milhares de enfermeiros mas nunca mais houve resultados desse concurso. Basta ver no plano ferroviário. Quantas vezes já foi anunciada revolução na ferrovia? Ou a via de ligação de Riachos? Já passaram oito anos e teve três sessões oficiais de apresentação. Este ministro fez a mesma coisa: vão entrar 200 médicos de família para a ARS de Lisboa e Vale do Tejo, mas afinal são 200 vagas de internos que se abrem para formação de médicos de família e que passou de 183 para 200, nem é um a mais por Centro de Saúde. São mais 17 vagas, só aqui no Médio Tejo temos 12 Centros de Saúde. Mas a ideia que passou é que iríamos ter mais 200 médicos de família. Não é nada disso! O ACES abre vagas mas não ficam preenchidas, nem com incentivos. São poucos médicos. Um médico se trabalhar três fins de semana, são 70 horas, nas Urgências, a 30 euros à hora são 2100 euros. Se entrar em concurso para o SNS ganha cerca de 1800 euros. Se há muitos médicos, e estão no privado, então estão lá a fazer o quê? É que os próprios privados têm dificuldade em contratar médicos. Há um erro em termos de formação…. aqueles chamados colégios da especialidade que estabelecem o número de formandos. O caso dos obstetras, mesmo a 90 euros à hora, não há obstetras! E como há poucos obstetras, ocupam o tempo todo e não têm tempo de formar novos, e não havendo formação de novos… estamos a agravar!

Manuel José Soares, representante da Comissão de Utentes do Médio Tejo. Foto mediotejo.net

Da experiência destes 20 anos para onde caminhamos com o atual SNS?

A pouco e pouco alguns problemas vão sendo resolvidos, a digitalização leva a muitas poupanças e a uma eficácia que não era habitual. Por exemplo, os meios complementares de diagnóstico poderem estar acessíveis, poderem ser transmitidos de um lado para o outro. Toda a gente se lembra a chamada cirurgia de ambulatório era coisa mínima e hoje não. Avançou-se, estamos a ganhar terreno. Sucede que há um conjunto de novas patologias que temos de tratar. Agora, resolvendo uns, vamos ter outros problemas. Por outro lado, com tanta digitalização, uma série de coisas estão a tornar-se impessoais, por isso a humanização dos serviços era fundamental. E ainda hoje se verifica, principalmente nos Cuidados de Saúde Primários, o médico (ou a médica) é aquele senhor com quem vamos lá para falar um bocadinho e contarmos a história porque apesar de vivermos num mundo em que a comunicação é global, as pessoas estão muito isoladas, e isto é um problema de Saúde Mental. Neste caso vemos muitas notícias e pouca ação.

Tem voz para mais 20 anos na importância de uma cidadania participativa e reivindicativa, como a da CUSMT?

Dado a minha idade, não vou ter. Gostaria muito, e esse é um problema neste tipo de organizações é que ganhamos 10 vezes zero e ainda despendemos tempo.

Sendo um homem habituado a números tem ideia de quantas horas já despendeu com a Comissão de Utentes da Saúde?

Milhares de horas. Feita a média, entre a leitura, contactos, elaboração de documentos, reuniões institucionais, as iniciativas, não tenho dúvidas que são entre 4 e 5 horas diárias. Temos alguns elementos que nos mandam informações, tudo o que tem a ver com Saúde ou com serviços públicos, intervenções nossas, opiniões, chega-nos muito até via e-mail. Mas há necessidade de ver as capas de jornais, e o titulo pode não corresponder ao que está no artigo e temos de ler o artigo. E mando e-mails para mim próprio como forma de organizar o arquivo. Confesso que tenho 283 e-mails para ler. Temos de ver as questões mais genéricas e as questões pontuais.

Então o Médio Tejo deveria ter uma segunda estrutura ou até uma terceira, ou esta dá conta do recado?

Não. Devia ter esta que tem um património e uma organização que chega a tomar posições 20 minutos depois das coisas sucederem, algumas com eficácia. Utilizamos aquilo que está à nossa disposição: sms, voz, redes sociais, blogues a própria comunicação social e não ganharíamos nada de haver mais uma porque não tardaria muito cada um andava por si em vez de ver o essencial que é resolver os problemas do Serviço Nacional de Saúde na perspetiva que o SNS serve para debelar ou reduzir o sofrimento das pessoas. Chegaríamos a uma situação de andar a discutir uns com os outros em vez de nos concentrarmos naquilo que realmente importa. As reuniões da Comissão de Utentes são suficientemente transparentes para que qualquer um possa participar, há um ponto de ordem de trabalhos que é coordenação da Comissão de Utentes. Por vezes sinto-me cansado, mas é certo o património de intervenção e que damos uma opinião do muito conhecimento que temos. Também temos a consciência de que só sabemos 15% ou 20% de todas as questões da Saúde. A informação de serem 50 mil sem médico de família não corresponde bem à verdade porque muitos têm médico prestador de serviços e alguns têm sempre o mesmo médico, mas mesmo falando em 50 mil, temos 225 mil utentes no Médio Tejo, se 50 mil não têm médico de família temos 175 mil com médico de família e devemos relevar porque é importante. Temos cinco Urgências – uma agora funciona aos bocadinhos, a urgência obstétrica – mas nunca fecham e, em números, falamos em média de 300 urgências/dia. Quando há um acidente, um problema grave, são os únicos locais onde as pessoas se podem dirigir e não consta que tenha havido muitos erros médicos, o hospital até tem recebido louvores dos responsáveis militares dos problemas que tem resolvido quando há acidentes com os soldados em Santa Margarida. Agora, não tem condições para se poder trabalhar. Nem para profissionais, nem para os utentes.

Casos que ilustrem o percurso: qual a maior vitória e qual a situação mais difícil que viveu, enquanto porta-voz dos utentes?

São muitos! Quando estava na margem Sul o ter conseguido 80 mil assinaturas para a construção do Hospital do Seixal, foi realmente importante. Depois fez-se uma manifestação que juntou umas 90 pessoas. Houve outra organizada pela Câmara, chamada ‘Cordão Humano’ e aquilo foi muito bem encenado e teve 1300 pessoas. É muito importante estarmos reunidos com as administrações, dar alertas e anotarem e verificarmos que essas medidas vão ser tomadas. Mas há uma coisa muito importante no caso do CHMT e mesmo no caso do ACES – para já não vamos a lado nenhum sem falar nas questões de Saúde Pública –, aquilo que evitamos de mal que fosse feito. E desse não se fala. Mas depois da hecatombe de 2012/2013 a nova reorganização dos serviços em que os três hospitais abandonando situações de bairrismo atingiram uma situação equilibrada em termos de proximidade, essa para nós foi fundamental. O internamento em medicina interna voltou a Torres Novas, a Tomar, houve uma série de equipamentos que batalhámos muito para que viessem, inclusivamente inquirimos diretamente a ministra, Marta Temido, nesse caso, sobre a ressonância magnética e TAC. E hoje há praticamente consultas de todas as especialidades nos três hospitais. Mesmo com Urgência Básica avançou-se muito no sentido de não terem de vir todos à Urgência Médico-cirúrgica, não faz sentido. Lembro-me de uma situação difícil: é muito chato quando vimos encerrar e tirar os equipamentos de uma extensão da saúde. Uma situação positiva foi abrirmos o diálogo com os responsáveis da Saúde. Mas há uma questão que continua a ser muito complicada que é a situação do conjunto das Urgências, cada caso que aparece em termos de urgência e não é resolvido, daí que defendemos que deve haver um elemento de ligação – seja enfermeiro ou assistente social – que nas Urgências vá explicando aos familiares o que se está a passar. Muita gente, falando de iliteracia de saúde, não imagina que quando uma pessoa entra na Urgência se calhar tem de lá estar 7 ou 8 horas, porque tem de fazer análises, estabilizar e um conjunto de situações. Esta humanização nas Urgências era fundamental. E a Urgência Médico-cirúrgica deveria ser atribuída ao conjunto do hospital para depois a administração poder gerir conforme os meios que tinha. Há uma revindicação importante a este nível: Ourém deveria ter uma Urgência Básica.

Manuel José Soares, porta-voz da Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo. Créditos: mediotejo.net

Entende que a comunidade se revê na Comissão e que esta a representa?

A situação mais clara é quando autarcas vão ou telefonam à Comissão de Utentes a dizer que querem reunir connosco porque têm um problema e querem resolver. Quando uma administração pede a opinião à Comissão de Utentes, ou telefonam antes a informar o que se vai passar, por exemplo, durante a covid-19. Depois os contactos que temos com a população aquando dos abaixo-assinados, basta dizer que somos da Comissão de Utentes da Saúde e temos as portas abertas. Não conheço hostilidade à Comissão de Utentes.

Portanto, as administrações e direções das entidades públicas de Saúde lidam bem com a Comissão?

Somos parceiros porque atuamos na base do bom senso e da compreensão das situações. As Comissões de Utentes têm de fazer pedagogia, é na prevenção que se começa a tratar do Serviço Nacional de Saúde. A melhor coisa que podemos fazer em matéria de Saúde é prevenir-nos e, perante qualquer sintoma, podermos debelar logo no principio para evitar que haja problemas.

As filiações partidárias (sejam elas quais forem) dos seus membros influi no trabalho reivindicativo? Já percebi que a estratégia adotada passa pelo diálogo com a tutela e responsáveis da Saúde, seja local, regional ou nacional. Portanto, não é de confrontação agressiva mas aposta no diálogo construtivo?

Da nossa parte não tem havido confrontação agressiva nem nenhuma agressividade porque se temos uma situação dessa natureza estamos a dar razão a um conjunto de utentes que acha que tem razão e parte até para violência verbal e física para com os próprios profissionais de Saúde. Pertencemos todos a uma comunidade se o nosso objetivo é o mesmo só temos de lamentar algumas coisas mas dentro da maior urbanidade. A questão das influências partidárias nas estruturas de utentes por este país todo grassa, aliás nem se sabe quando as Comissões começaram, quem é que as compõe, quais são os seus motivos e ficam a dever muito à transparência. Aqui no Médio Tejo colocamos a questão ao contrário: não são os partidos que nos dizem o que devemos defender, a Comissão de Utentes está à frente do conjunto dos partidos em matéria de estudo e de conhecimento da realidade aqui. Daí que os deputados tenham reuniões connosco. Ia haver um debate na Assembleia da República e um deputado na véspera veio reunir com a Comissão para saber realmente o que se passava para além das informações oficiais. Os partidos têm essa necessidade mas interessam-se um bocadinho pela espuma dos dias. No tempo da pandemia havia informações de que não se conseguia contratar profissionais, as pessoas fugiam, havia quem assinasse e não se apresentasse para trabalhar, enfermeiros, assistentes operacionais e até médicos. Andamos às vezes com causas que não são bem causas, são epifenómenos.

O ativismo gera inimizades? As pessoas não gostam de ser incomodadas mesmo quando estão em causa temas e questões de afirmam defender?

Em alguns casos dor de cotovelo. Noutros casos, da minha parte às vezes falo alto, e a alguns até digo nas reuniões: quero falar contigo mas não é aqui. Há casos que não se percebem. Muitas vezes é a minha paixão e a de outros a falar, e outras vezes direi: ao menos não estorvem! Alguns ainda hoje falam disso por termos pedido a recondução do Conselho de Administração do CHMT e hoje estamos satisfeitos por tê-lo feito. E vaticinámos: quando estes saírem vêm uma administração de cariz partidário. O ativismo vai continuar, haja saúde!

Alguma vez teve de se exaltar perante algum assunto sem solução aparente?

Sim. Às vezes dentro das estruturas de utentes tenho de falar alto quando acho que as pessoas têm ideias e iniciativas encomendadas.

A Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo (CUSMT). Foto: mediotejo.net

Portanto, a luta vale a pena?

Sim. É apaixonante. Em matéria de utentes temos o nosso amigo Emídio, um velho militante da LOC, que esteve pelo menos 12 anos na comissão executiva da CGTP, portanto um homem muito batido nestas coisas do ativismo e há uma frase que ele diz que gosto muito: quando eu for ministro nomeio-te secretário de Estado. Não tenho dúvidas que fazemos muita coisa, conseguimos estar em três ou quatro sítios ao mesmo tempo. Mas também não tenho dúvidas que se deixar de fazer não sei quem é que vai fazer a seguir. É uma realidade. Mas já sou suficientemente velho para ver clubes a acabar. Temos um projeto agora, com muitas oposições, mas já temos umas centenas de aderentes. A nossa ideia seria passarmos a associação legal com o objetivo de poder ter apoios para alguns projetos que seriam importantes. O trabalho de cidadania que fazemos é incrível!

Exemplo de um projeto em mente.

Essencialmente a chamada literacia em matéria de organização de cuidados de Saúde. Há um conjunto de questões que as pessoas não sabem e que lhes facilitava muito a vida. Um deles é o SNS 24 e não é do conhecimento dos utentes, que nos telefonam a perguntar qual é o número de telefone da linha de Saúde 24, que é o 800 24 24 24. Gostamos de fazer o nosso balanço daquilo que podemos influenciar, que podemos reivindicar e é viável. A nossa presença nos conselhos de comunidade, nos chamados órgãos consultivos, ficam uns furos acima da mediania, inclusive dos próprios presidentes de Câmara.

Por falar em Saúde, ouvi dizer que coleciona pacotes de açúcar… O que é que gosta de fazer?

Atualmente não coleciono, atualmente só junto, porque não tenho tempo para ordenar aquilo tudo mas devo ter perto de 70 mil pacotes. Mas não comi o açúcar todo! Cheguei a juntar açúcar para dar a uma amiga, a Maria José Soares que já faleceu, para fazer bolos. Deixei de ver televisão, ler não consigo, mas tenho muitas saudades dos roteiros que fazíamos pelas coletividades de Torres Novas a declamar poesia. Tenho muitas obras completas de poetas, o meu preferido é António Gedeão, o meu poema é ‘Pedra Filosofal’. Agora passo mais tempo em torno das questões das Comissões de Utentes, a todos os níveis, inclusive a nível nacional, solicitam-me intervenções sobre algumas questões. Gosto muito e dá-me prazer cada documento que faço, às vezes sai mesmo bem.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *