Há caminhos que começam muito antes de quem os percorre. O de Leonor Lopes tem raízes em Mouriscas, no concelho de Abrantes, onde nasceu o avô paterno, Humberto Pires Lopes, antigo professor e ex-presidente da Câmara Municipal de Abrantes. O pai, Rui Lopes, seguiu a Medicina e entrou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 45 anos antes da filha.
Leonor, diagnosticada como sobredotada ainda em criança, escreve agora o capítulo seguinte desta história familiar, entrando na mesma faculdade, aos 15 anos, para estudar Medicina, com uma média de entrada de 19,63 valores.
Não há, porém, na voz de Leonor, a sensação de estar a cumprir um destino traçado por outros. Há, antes, a certeza de que este é um caminho escolhido por si.
Aos 15 anos, a jovem não esconde o nervosismo. Mas também não parece deixar que a idade transforme a entrada na universidade numa aventura maior do que aquela que é para qualquer outro estudante.
A sobredotação identificada cedo e uma vontade constante de aprender ajudaram-na a chegar aqui, mas é a capacidade de trabalho que a família mais destaca.
“Sinto alguma ansiedade. Há sempre, não é? Mas eu acho que isso é mais característico de ir para a faculdade, não obrigatoriamente de entrar aos 15 anos, mas obviamente que adiciona sempre um pouco mais”, conta ao mediotejo.net.
A entrada na universidade poderia, por si só, ser motivo suficiente para transformar a idade na personagem principal desta história. Leonor, contudo, parece não lhe conceder esse protagonismo.
“Ir para a faculdade é uma mudança muito grande, é uma nova etapa da vida. Há algum nervosismo, mas também muita agitação”, acrescenta.
A diferença de idade para os restantes estudantes também não lhe parece particularmente assustadora. Ao longo do percurso escolar, Leonor habituou-se a viver entre colegas mais velhos.
“Honestamente não, vivi a minha vida toda com colegas três anos mais velhos que eu, não é agora que fará grande diferença.”
A sobredotação foi identificada cedo, mas, quando olha para trás, Leonor não fala apenas de facilidade em aprender. Fala sobretudo de uma inquietação constante: a necessidade de procurar mais.
“Foi sempre o querer saber mais, querer ter mais desafio, sentir que não estava no sítio certo”, explica.
E acrescenta: “Procurava sempre mais e fartava-me daquilo que já tinha, daquilo que me davam, das matérias que dava. Queria sempre procurar uma matéria mais difícil, mais alguma coisa.”
Essa procura, garante, nunca foi uma imposição familiar. “Não, eu é que queria mesmo chegar mais além.”
Os pais, explica, nunca a forçaram a procurar esse estímulo. “Sempre foi uma coisa que eu quis fazer, queria saber mais e sentia que não estava bem no sítio onde estava.”

Agora, o caminho leva-a até à Medicina – e até à mesma universidade onde o pai fez o seu percurso. A coincidência poderia facilmente ser lida como herança. Leonor prefere outra palavra: escolha.
“A medicina foi completamente uma escolha minha, porque gosto do curso e não por herança familiar”, afirma a caloira.
A intenção, depois do curso, é permanecer pela zona do Porto e exercer aí a profissão. “Sim, é esse o meu objetivo.”
Para Rui Lopes, a idade nunca foi motivo de preocupação. A família já se habituou à “pequena diferença cronológica” que acompanhou o percurso escolar da filha.
“Absolutamente nenhuma [preocupação]. Já estamos habituados a esta pequena diferença cronológica.”
Há orgulho, naturalmente. Mas o pai recusa também a ideia de que a entrada de Leonor na universidade seja um acontecimento que deva apagar os restantes milhares de jovens que fazem o mesmo caminho.
“É um sentimento de ter atingido os seus objetivos, mas obviamente que é sempre muito feliz para os pais.”
E explica: “É gratificante, digamos assim, a filha ter atingido os objetivos a que se propunha. Essa é a nossa função enquanto pais, é dar-lhe o futuro que ela pretende.”
Para Rui Lopes, a diferença está apenas no calendário. “Não foi só ela que entrou na universidade, não se esqueçam. Foram 60 mil jovens”, destaca.
“No caso da Leonor, entrou mais cedo, é a única diferença que existe. É uma pequena diferença cronológica, digamos assim.”
O pai acredita que a filha está preparada para o que aí vem, até porque a convivência com colegas mais velhos não é uma novidade. “Ela já lida com jovens dos seus 17, 18 anos há muito tempo.”
E, perante a pergunta sobre aquilo que gostaria que Leonor levasse consigo para esta nova fase, a resposta é simples: “Que faça o que sempre fez. Seja aplicada e tenha futuro.”
Uma história familiar com raízes em Mouriscas e um novo capítulo na medicina
Talvez seja precisamente essa capacidade de trabalhar para aquilo que pretende que mais impressione o avô.
Humberto Pires Lopes, natural de Mouriscas, no concelho abrantino, olha para a entrada da neta na universidade com satisfação, mas também com a consciência de que os 15 anos não são um detalhe irrelevante.
“O sentimento do avô é de satisfação porque a minha neta atingiu os objetivos a que se propôs há muitos anos”, conta ao nosso jornal.
A sobredotação, para o avô, explica apenas uma parte da equação. “O facto de ela ser considerada sobredotada e estar com 15 anos a entrar na universidade, não quer dizer que ela não tenha objetivos e não trabalhe.”

É precisamente aí que coloca a maior admiração pela neta. “Aquilo que eu mais admiro na Leonor é realmente a capacidade de trabalho que ela tem, a definição de objetivos de vida e o modo como os vai atingindo.”
Há, reconhece, alguma preocupação. Afinal, “é realmente muito nova para entrar na faculdade”. Mas há também um padrão que se repete: Leonor já viveu antes em ambientes onde era mais nova do que os colegas e, até agora, conseguiu ultrapassar cada etapa.
“Ela tem superado tudo até agora, tem vivido sempre na escola com colegas mais velhos, portanto penso que irá superar bem agora esta nova situação de entrar na universidade.”
Na família, o gosto pelo conhecimento parece atravessar gerações. Dois avós professores (Humberto e Miquelina), um pai médico. Mas também aqui o avô evita procurar uma explicação simples. “Há realmente qualquer coisa nela que faz com que aprenda muito facilmente e que tenha boa memória e compreensão.”

Depois, volta ao mesmo ponto: o trabalho. “Ela é muito trabalhadora, define objetivos e faz tudo para atingir esses objetivos.”
Humberto Pires Lopes nasceu em 1940, no lugar de Casal da Milha, em Mouriscas, onde fez os primeiros anos de escolaridade antes de seguir para Coimbra, onde se licenciou em Ciências Matemáticas. Regressou mais tarde à terra natal para dar aulas e construiu grande parte do seu percurso profissional ligado ao ensino, tendo sido professor no então Liceu de Abrantes, atual Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes.
A ligação à vida pública acompanhou esse percurso: foi presidente da Junta de Freguesia de Mouriscas, vereador e, entre 1989 e 1994, presidente da Câmara Municipal de Abrantes, pelo PSD. Durante esse mandato, viu concretizar-se um dos projetos que mais diretamente ligava a sua atividade política à terra onde nasceu: o abastecimento de água a Mouriscas.
