Aos 71 anos, Henrique Rosa Santos continua a entrar dentro das quatro linhas com a mesma postura que sempre o distinguiu, marcada pela experiência e pelo conhecimento das regras do jogo. Natural de Alferrarede-Velha (concelho de Abrantes), onde nasceu a 8 de dezembro de 1954, é hoje uma das figuras mais emblemáticas da arbitragem no distrito de Santarém e uma referência incontornável no futebol do Inatel.
Aposentado há sete anos, depois de uma vida profissional como empregado de escritório, Henrique Santos construiu em paralelo um percurso ímpar no desporto. Começou como jogador nos Dragões de Alferrarede ainda adolescente, trabalhou na MDF, mas foi de apito na mão que encontrou a sua verdadeira vocação.
Desde 1978 que percorre campos de norte a sul do país, primeiro nas competições distritais e nacionais da Federação Portuguesa de Futebol, mais tarde como observador e formador de árbitros, e há quase três décadas no Inatel, onde é atualmente o árbitro mais antigo e o mais credenciado em atividade.

Pai de uma filha e avô de um neto, é homem de causas e de serviço à comunidade, tendo sido também presidente do Centro Cívico de Alferrarede-Velha, deixando obra feita e um forte envolvimento associativo, sempre ligado ao futebol.
Ao longo de 47 anos de arbitragem, viveu jogos decisivos, momentos de tensão, histórias marcantes e reconciliações improváveis, sempre com a mesma ideia bem presente: cumprir a lei do jogo com rigor, humanidade e respeito.

Conhecido por jogadores, dirigentes e adeptos, Henrique Santos é daqueles árbitros que atravessam gerações. Já apitou gerações de jogadores que hoje ainda entram em campo. Mantém o nervosismo antes do apito inicial, amenizado pela experiência e um ritual que não abandona: chegar ao campo de casaco e gravata, como sinal de respeito pela função.
Motivado pelo “bicho” da arbitragem, como lhe chama, continua ativo, apesar do peso dos anos, sem pensar ainda na despedida definitiva. Orgulha-se do caminho feito, das amizades conquistadas e do nome limpo que deixa por onde passa. Mais do que os jogos apitados, Henrique Santos construiu uma carreira feita de dedicação, memória e exemplo, num futebol que mudou muito, mas onde certos valores permanecem intocáveis.

Para quem não o conhece, quem é Henrique Santos?
O Henrique Santos é uma pessoa natural de Alferrarede-Velha, que iniciou os seus estudos e a certa altura conseguiu emprego no Tramagal, na antiga Metalúrgica Duarte Ferreira. Lá trabalhei, depois mudei-me para cá e continuei como empregado de escritório. Depois disso, iniciei também a atividade futebolística ali nos Dragões de Alferrarede e a seguir a isso veio o que me tem ocupado há algumas décadas, que é ser árbitro de futebol. Nesse entretanto e ainda em Alferrarede-Velha, fui presidente do Centro Cívico, um promotor das grandes obras que lá estão e que estão visíveis. No último mandato, em 2013, se não estou em erro, tínhamos uma equipa de futebol, onde andámos a disputar o campeonato do Inatel e até com boa equipa. Agora, o que continua é ir arbitrando uns joguitos, dependendo das nomeações.
Que memórias guarda da sua infância?
Da minha infância, guardo memórias que… pronto, pertencia a uma família pobre, como quase todas eram naquela altura. Vivíamos com dificuldade, fui estudar para a Escola Industrial e Comercial de Abrantes (EICA), com muita dificuldade dos meus pais. Consegui tirar o Curso de Comercial, mas foi difícil… era difícil na altura.

Na sua juventude, que importância tinha o futebol na vida local? O futebol sempre esteve presente na sua vida ou surgiu mais tarde?
O futebol nasceu porque, na altura, havia alguns jogadores dos Dragões de Alferrarede, que eram de Alferrarede-Velha e tinham um certo nome, uma certa vontade que o pessoal mais pequeno começasse a integrar o futebol juvenil e depois calhou. Estava na idade e então, ao estar na idade fomos… não fui só eu, fomos mais de Alferrarede-Velha lá prestar provas. Uns ficaram, outros não e assim continuou.
Que idade tinha?
Tinha 15 anos.
Quem o influenciou a gostar de futebol? Algum familiar?
Não, na família não tinha ninguém ligado ao futebol, foi mais a vivência com o pessoal mais velho, que naquela altura jogava lá e isso influenciou a nossa ida para lá. Também não tínhamos mais nada em Alferrarede-Velha.

E jogou até que idade?
Eu joguei até aos 20 anos. Fui juvenil, fui júnior e depois andei nos séniores. Depois nos séniores não tinha cabidela, porque era mais fraco que os outros e então acabei por acabei por abandonar o futebol como jogador. Mais tarde, passado dois ou três anos, influenciado por um cunhado, o Santos Ruivo, fui tirar o curso de árbitro. Tínhamos aulas no Rossio ao Sul do Tejo, íamos lá todas as sextas-feiras ter aulas. Ao fim de dois meses fomos fazer exame a Santarém, ao Conselho de Arbitragem e aí começou a era da arbitragem.
Depois o meu cunhado, o Santos Ruivo, foi promovido à segunda divisão nacional e eu fui para fiscal de linha dele. Entretanto, ele subiu à primeira divisão nacional e eu formei equipa. Ao formar a equipa, subi também à terceira divisão nacional, subi à segunda e aí andei até um dia em que tive de abandonar por circunstâncias… uma delas o limite de idade. Tive uma paragem e mais tarde, fui ainda observador de árbitros do Conselho de Arbitragem de Santarém e depois ingressei no Inatel, porque tinha muita gente conhecida e incentivaram-me a ir, onde ando nesta altura ainda.
Teve algum mentor ou alguém que o marcou neste percurso?
Sim, um deles, o principal, foi o meu cunhado, o Santos Ruivo, que me deu as primeiras linhas para seguir o meu sonho, que era chegar à primeira categoria nacional, o que não consegui, mas pronto, lutei por isso. Nesse entretanto e nessa andança toda, ainda formei alguns árbitros. Dei, se não estou em erro, três cursos de arbitragem, porque naquela altura não era como agora. Nós tínhamos que ter aulas semanalmente, agora não. Íamos para a arbitragem com 20 e poucos anos, agora não. Há uns anos para cá, já começou a ir malta mais nova, 15 ou 16 anos já andam aí nos campos, o que por um lado é bom, mas por outro não tão bom. E pronto, eu dei estes cursos, ainda há alguns árbitros a quem dei o curso que ainda andam aí a apitar. Assim vai indo a vida, vai-se apitando consoante vão caindo as nomeações e vai-se fazendo.

Para além de árbitro de futebol, foi também árbitro de outras modalidades?
Sim, fui árbitro de hóquei em patins, na altura em que o meu cunhado era também árbitro de hóquei em patins. Fui árbitro de futebol de 5, que depois passou a futebol de salão e mais tarde futsal.
Há quantos anos está no Inatel?
Na Inatel estou quase há 30 anos. Eu sou o árbitro mais antigo no Inatel de Santarém e sou hoje, a nível nacional no Inatel, o árbitro mais credenciado. Até aqui havia dois que tinham andado na primeira divisão nacional e eles já não estão no ativo. Portanto eu sou, acho que o único que andei na segunda divisão nacional. Nesta altura, sou o mais credenciado do Inatel a nível nacional.
O que é que distingue o futebol do Inatel das restantes competições?
O futebol do Inatel, pelo que eu tenho sabido, no início, era um futebol para trabalhadores, o que hoje não será assim também. Porquê? Porque os jogadores, os intervenientes, não são aqueles trabalhadores que antigamente apareciam, que andavam a trabalhar durante o dia e depois ao fim de semana iam jogar futebol e esses jogadores jogavam de borla. Nós sabemos que agora, no Inatel, já há equipas que treinam durante a semana, o que antes não acontecia porque eram trabalhadores, já têm um valor de subsídio para poderem jogar nessas equipas, o que antigamente não era possível e isto alterou muito. Está muito alterado, penso que para melhor. As competições agora do Inatel já mexem um bocadinho até com as outras competições das associações e da Federação.
Antigamente qualquer pessoa ia jogar para o Inatel e não treinava. Agora não, hoje já não é qualquer um, são escolhidos a dedo, já treinam, têm subsídio para jogar, têm condições para jogar que antigamente não havia… porque agora os campos quase todos são relvados e antigamente eram pelados, com dimensões mínimas e poucas condições. Felizmente, hoje as coisas já mudaram e para melhor.

Ao longo dos anos, é isso o que mais mudou no futebol amador?
Quando eu comecei, portanto, há 20 e tal anos ainda apanhei campos de futebol pelados. Hoje em dia ainda aparece um ou outro, mas é já uma percentagem mínima. Antigamente uma grande parte dos campos não tinham condições, até os próprios balneários, era tudo nos mínimos. Agora não, já se encontram campos quase todos relvados, com relva sintética e já com as respetivas dimensões para praticar futebol e as equipas já têm outro nível.
Atualmente não é qualquer pessoa que vai para diretor de um clube, já tem que ter umas determinadas condições para se poder candidatar à direção desses clubes e antes não era assim. Antigamente juntavam-se 3 ou 4 pessoas, formavam uma equipa e iam testar no campeonato do Inatel e agora não. E depois outra coisa, as equipas agora já pagam e de que maneira para jogarem no Inatel, para terem uma equipa a representar a sua terra.
E ao nível da arbitragem e do papel também do árbitro? Há alguma mudança significativa que tenha vindo a notar desde o início da sua carreira?
Sim. Agora ainda há indivíduos que andam a arbitrar e que não têm o curso de árbitro. Antigamente, há 20 anos, o Inatel era beneficiado porque uma grande parte dos árbitros que andavam lá a arbitrar eram aqueles que atingiam o limite de idade, que foi o meu caso também, na Associação de Futebol de Santarém e como gostavam de andar na arbitragem, para onde é que iam? Para o Inatel, porque não tem limite de idade. E então o Inatel beneficiou muito com esses árbitros que vieram. Há meia dúzia de anos para cá, isso começou a mudar, porquê? Porque esses indivíduos, que vinham da Associação de Santarém deixaram de vir, porque houve uma remodelação na idade e no pessoal que ia para árbitro da associação. Agora nota-se um bocado a diferença.
No entanto, o nível de arbitragem está muito superior. Nota-se que as pessoas que andam a arbitrar, o nível já não é como era há 20 e tal anos atrás. Há um nível superior, já há mais consciência, mais sabedoria. Nota-se aqui em Santarém que está mais evoluído. Também os próprios clubes têm jogadores com um nível superior. Já jogam mais futebol, porque treinam e antigamente não, já se apresentam com vestimenta como deve ser. Antigamente era assim um bocadinho mais à balda. Nota-se uma melhoria muito, muito considerável.

Sente que o respeito pelos árbitros mudou ao longo dos anos?
O respeito também aumentou, para melhor. Há mais consideração pelas pessoas e eu digo isto porque eu, aqui em Santarém, principalmente, sou conhecido por toda a gente. Eu vou a um campo qualquer do distrito de Santarém e toda a gente, até os próprios jogadores, que eu também já ando lá quase há 30 anos, todos me conhecem, todos me vêm cumprimentar, todos me vêm abraçar e isso nota-se que há melhoria. Até no tratamento dos próprios diretores, que já têm um nível superior, vêm falar com as equipas de arbitragem já com um modo diferente. Há uma atenção especial.
Há alguma história, algum momento que o tenha marcado particularmente?
Há duas pelo menos, uma já falei em tempos e falo dela muita vez… mas há outra que sucedeu há meia dúzia de anos, em que eu tinha acabado de arbitrar um jogo junto a Coruche e no final do jogo um jogador com quase 50 anos, que estava a jogar, vem ter comigo e pergunta-me assim “então você não me conhece?” e eu fiquei um bocado atrapalhado. “Assim à priori, não estou a ver”. E ele disse-me “então eu joguei no Amora, eu joguei no Atlético, eu joguei em Setúbal, você apitou-me uma série de vezes”. Isto na altura em que eu era árbitro do quadro nacional da Federação. “Sinceramente, depois destes anos todos, não consigo lá chegar” e ele disse-me “eu fui treinador também”. Até tirou uma fotografia comigo e veio para o jornal com essa situação, essa foi uma das que me marcou.
A primeira que me marcou foi na minha estreia na segunda divisão nacional, fui arbitrar o Torreense – Mangualde. Quem é que jogava lá a defesa central do Torreense? O João Lourenço, mais conhecido por João Brasa, que jogou aqui em Alferrarede e é daí que nos conhecíamos e éramos amigos. Acontece que, a certa altura do jogo, eu sou obrigado a exibir o cartão amarelo, numa jogada onde ele interviu e eu exibi o cartão amarelo. O jogo correu bem, não houve problema nenhum e no que é que isso veio a dar?
Veio a dar que o João Lourenço ficou chateado comigo e andou mais de meia dúzia de anos sem me falar, ele e a mulher. Onde é que eu vim a descobrir que eles estavam zangados comigo? No ano a seguir, vou passar férias a Monte Gordo, onde nos encontrámos lá com outras pessoas amigas e na mesma mesa, ele e a mulher não me cumprimentaram, fizeram de conta que não me conheciam. E andámos nisto mais meia dúzia de anos.

Aquilo passou e depois de alguns anos, fui arbitrar o Elvas – Torreense. Quem é que era o treinador do Torreense? Era o Mário Wilson, que já faleceu e o treinador-adjunto? João Lourenço e eu pensei “olha, está aqui o meu amigo que me deixou de falar por causa do cartão amarelo”.
Fizemos o jogo, eu era muito amigo do Mário Wilson, que foi treinador do Benfica e estava a treinar naquela altura o Torreense. Quando acabou o jogo, o Mário Wilson veio logo ao centro do campo ter comigo, dá-me um abraço e o João Lourenço vinha atrás dele. E eu quando o vi vir atrás dele disse: “O que é que vai sair daqui agora?”. Ele veio a seguir ao Mário Wilson, abraçou-me e disse “vamos pôr uma pedra em cima do assunto”. E eu disse “por mim… eu não tenho pedra nenhuma, tu é que tens”.
Ao que ele me diz “esquece isso, faz de conta que não sucedeu e vamos continuar amigos, como éramos antes”. E pronto, a partir daí já nos encontrámos aqui uma série de vezes e somos amigos. Naquela altura marcou-me porque não era normal e nunca me esqueço dessa história.

Já viveu momentos difíceis dentro ou fora do campo? Como lidou com eles?
Tive alguns, felizmente não foram muitos. Tive um em Arcos de Valdevez, em que eu era árbitro da terceira divisão ainda e esse jogo é que me deu a promoção à segunda divisão… na altura veio até nos jornais, porque era um jogo decisivo para as duas equipas. A equipa de Arcos de Valdevez tinha que ganhar e a equipa do Valongo, o empate servia para não descer para a terceira divisão. Eu fui fazer o jogo porque o árbitro que estava nomeado adoeceu e aquilo correu bem, tinha lá um observador que viu tudo e deu-me nota máxima, soube depois porque vi no jornal. Foi um jogo quentinho, onde houve uns aquecimentos no final do jogo. Connosco não foi muito, mas com a força da ordem, a GNR, houve lá um aquecimento entre eles, mas pronto, correu tudo bem, não houve problema nenhum, mas foi uma das que me marcou. Depois vim a saber que aquele jogo tinha tido nota que influenciou a minha subida à segunda divisão.
O que é mais difícil, atualmente, para um árbitro?
Nós aqui no Inatel notamos um bocadinho, não é muito, mas nota-se que os jogadores utilizam já uma linguagem que, quando eu comecei como árbitro, não existia. Os palavrões que eles mandam e que dizem à frente de toda a gente, que chamam uns aos outros e que chamam também aos árbitros, antigamente não existia. Mas é uma parte que se consegue ultrapassar. Os árbitros dentro do campo têm um poder diferente do que têm fora do campo, como pessoa, como cidadão. Dentro do campo, os árbitros tentam que a lei seja cumprida, onde está incluída a parte verbal, dos palavrões e alguns não podem ser admitidos. Para isso, o árbitro por vezes atua.


Como se sente ao entrar em campo sabendo que já apitou jogos de pais – e até avós – de alguns dos jogadores que hoje arbitra?
Sinto-me contente por esse motivo, porque isso é um sinal que as pessoas, pelo lado bom, não se esquecem das situações. Por outro lado, sinto que ao falarem-me nessas coisas, eu já estou com alguma extensão na idade. É uma coisa que se nota. E depois também me sinto um bocado vaidoso, porque se as pessoas me conhecem e vêm ter comigo, falando desse assunto, é porque as coisas correram bem e isso para mim também me enche um bocado de vaidade, não é?
Ao fim de tantos anos, ainda sente aquele nervosismo antes do apito inicial ou a experiência traz mais tranquilidade?
Há sempre nervosismo. Claro que agora com os anos as coisas alteram-se. A experiência dá mais à vontade para se entrar em campo, mais à vontade para falar com os jogadores, mais à vontade para haver uma atuação diferente do que era antigamente, quando se começou. É isso, a experiência dá um pouco mais de à vontade dentro das quatro linhas.
A preparação física é fundamental na arbitragem. Como se mantém em forma para estar sempre próximo dos lances?
Agora é um bocado mais difícil, porque a idade não perdoa. Antigamente, nós treinávamos durante a semana, duas vezes por semana, inclusivamente íamos a Abrantes fazer sauna. Treinávamos e depois íamos fazer sauna todas as semanas e isso com um inconveniente, é que a sauna era paga e éramos nós que tínhamos que pagar cada sessão. Agora, já com esta idade, os jogos também são diferentes, não têm aquela velocidade que antigamente tinham, o que para nós é mais fácil. É claro que agora eu já não treino como treinava antigamente, vou dando umas caminhadas, umas corridas durante a semana, mas já não é aquela fixação. Porque antigamente havia subidas e descidas de divisão e nós tínhamos que mostrar….
O observador punha lá a preparação física, como é que estava, se estava bem preparado, se estava bem posicionado. Havia aquelas circunstâncias todas que eles tinham que escrever e eram pontos que nós tínhamos que arrecadar. Agora, como isso não acontece no Inatel, há um bocadinho de desleixo de muita gente. Eu também já não treino como treinava antigamente, mas ainda vou fazendo umas caminhadas, umas corridas, para estar mais ou menos a par dos jogos que vão aparecendo.

Tem alguma estratégia especial em campo para melhor posicionamento e gestão do esforço?
Relativamente a essa parte, nós temos uma maneira de atuar que é fazer uma diagonal, porque temos os auxiliares e os fiscais de linha, que agora são árbitros assistentes, um em cada em cada parte do campo e nós temos que jogar com a nossa posição, sem estorvar os jogadores que trazem a bola, fazer a diagonal e estar o mais perto possível da jogada, para poder melhor observar e assim não haver falhas de má visão. Há mais possibilidade de não errar estando perto dos lances.

Qual é que é a importância dos árbitros assistentes no ajuizar dos lances?
É tal e qual como a do árbitro. Somos três e os três têm que ser um. Agora temos uma coisa que antigamente não havia há uns 10 ou 15 anos, apareceram as bandeirolas que eles usavam com bip, o árbitro traz um aparelho no braço e eles carregam no botão quando há qualquer coisa e dá sinal ao árbitro. Eu tenho umas que custaram 400 euros. Tenho aqui e nem utilizo já. Porquê? Porque agora há outra coisa, que foi a melhor invenção que fizeram, que é os auriculares. Nós estamos em conversa permanente durante o jogo e isso ajuda e de que maneira. O fiscal de linha e eu continuo a chamar fiscal de linha, quase que nem precisa de mexer a bandeirola, porque ele ao falar para mim, está-me a dizer tudo. Assim conseguimos conjugar melhor as atitudes, tirar faltas ou não tirar, dar a lei da vantagem ou não dar, há uma vantagem muito grande com os auriculares, que é meio caminho andado.
Uma boa equipa de arbitragem faz a diferença no jogo?
Sem dúvida nenhuma.
Ser árbitro moldou a sua forma de estar na vida?
Na vida diária muda sempre, não é? Porque quem se mete nestas andanças do desporto, a família é sempre a mais prejudicada. E isto porquê? Porque o árbitro para ser árbitro, não é o caso agora no Inatel, mas para se ser árbitro do Quadro Nacional, por exemplo, tenho que estar um bocado fora da família, ao fim de semana não tenho hipótese. Nós agora aqui no INATEL temos sempre jogo ao sábado e ao domingo. Portanto, com a família, ao fim de semana, não há volta a dar, exceto quando é mais para o verão que é quando os campeonatos acabam. A partir de maio até setembro/outubro, são os meses em que nós nos podemos dedicar com mais atenção à família. Porque até aí, ao fim de semana principalmente, é complicado. Normalmente temos dois jogos, um ao sábado e outro ao domingo.
Como conciliou a arbitragem com a vida pessoal e profissional? A família sempre apoiou?
Sim, desde sempre. A família que tive e que tenho agora, sempre apoiou, desde o primeiro minuto. Ainda hoje, nem digo 5 estrelas, é 10 estrelas, sempre foi 10 estrelas.

Atualmente onde é que apita com mais frequência? É na zona de Abrantes ou ainda percorre o país?
Felizmente, isso foi uma luta que eu iniciei também no Inatel quando fui para lá. Nessa altura os árbitros de Santarém só arbitravam os jogos de Santarém, exceto quando era o nacional, em que o que fosse escolhido é que ia para fora do distrito. Há uns anos para cá e eu também lutei por isso, com e-mails escritos para quem de direito, eles resolveram alterar a situação. Agora arbitramos aqui em Santarém, mas vamos a outros distritos. Por exemplo, eu amanhã vou ao distrito de Leiria, como fui há dias também, já fui a Odemira, já fui a Braga, a Beja, portanto agora já todos os árbitros percorrem distritos diferentes. Para alguns é mais complicado, por causa das distâncias, há outros que gostam, há outros que não gostam tanto.
Eu prefiro ir para fora do distrito de Santarém, pela razão de que falei há bocado. Eu sou conhecido por toda a gente e quanto menos conhecimento tiver aqui… Porquê? Porque se se apita uma falta contra a equipa de um vizinho, há sempre chatice. Assim, fora, não se conhece ninguém. Eu já não posso dizer isso porque vou para Braga e ainda lá há gente me conhece. Ainda tenho amigos em Braga, por exemplo, em Odemira, onde fui há 2 anos e fui encontrar uma pessoa que viveu aqui no Pego durante 6 anos. Tem uma filha que agora deve ter 18 anos, que nasceu aqui no hospital de Abrantes. Quando lá chegamos e eles viram que éramos daqui de Abrantes foi… era família e essas coisas também caem bem, ir fora do distrito e aparecer pessoas assim. Mas pronto, eu mim prefiro este sistema e aqui no nosso concelho pior ainda, porque o concelho de Abrantes é dos concelhos que tem mais equipas em Santarém e é onde há mais árbitros. Portanto, nós estamos aqui presos à partida, mas felizmente eles começaram a alargar isso.
O que o motiva a continuar em funções depois de tantos anos?
É o bicho. Isto é como um indivíduo que tem o vício de fumar, tem dificuldade em deixar de fumar. Porquê? Porque está cá metido e aqui é a mesma coisa. Eu ando na arbitragem desde 21/06/1978, data em que eu comecei, portanto, vão 47 anos. Já estive para desistir algumas vezes, mas depois as coisas conjugam-se, chega a altura e não sou capaz. Felizmente, tem corrido tudo bem, não tem havido problema de maior e ainda vou fazer mais uma época ou duas pelo menos.

Ia perguntar isso mesmo. Quais as pretensões para o futuro, continuar durante mais duas épocas?
Não está prevista a desistência neste momento, mas mais uma época ou duas, pelo menos faço de certeza, só se aparecer alguma circunstância que faça com que eu tenha que abandonar. Mas à partida, sinto-me bem. Quando eu sentir que ando com os pés já muito pesados, então só tenho uma coisa a fazer, que é abandonar.
O que mais o orgulha nesta caminhada?
Orgulho-me porque fui um dos árbitros no concelho de Abrantes mais credenciados. Fui árbitro de segunda categoria nacional. Não é divisão, é segunda categoria nacional, porque divisão é os clubes, os hábitos designa-se categoria. Estou entre os cinco ou seis, aqui do concelho de Abrantes, porque tivemos cá árbitros de primeira categoria também e sinto orgulho nesse aspeto. Sinto orgulho também quando passo pelas pessoas e me dizem adeus com satisfação, porque eu felizmente tenho amigos em todo o lado e toda a gente fala comigo, toda a gente me conhece e isso para mim dá-me muita satisfação.
Que mensagem é que gostaria de deixar aos jogadores, dirigentes, adeptos?
A mensagem é que cada um cumpra, na sua profissão, no seu desporto, com tudo o que está estabelecido para que não haja problemas e toda a gente se dê bem, que é isso que interessa.
Que conselhos deixa aos jovens que queiram seguir por esta via da arbitragem?
Os que pensarem nisso, em seguir com o desporto, alguns iniciam como jogadores, que agora já começam a jogar futebol aos 7 anos. O meu neto tem 8 anos e já joga no CADE, no Entroncamento… Ele amanhã, com o decorrer do tempo, poderá ter intenções de ir para árbitro. Não é fácil, ser árbitro não é fácil, mas claro, é tudo uma questão de ter força de vontade, ter dedicação… Dedicação e gosto, são as duas coisas principais. Também há outra coisa, que é ter tempo, porque o ser árbitro ocupa muito tempo.
Esta malta mais nova agora, segue estudos que antigamente não tínhamos. Quem é que ia para a universidade antigamente? Ninguém… lá aparecia um ou outro que ia, o resto tinha que acabar o curso e quando acabavam a quarta classe iam trabalhar. Os que os pais não tinham suporte para os pôr na Escola Industrial, que era para onde ia o pessoal, iam trabalhar. Os que iam para a Escola Industrial, acabavam o curso e iam trabalhar. Agora não, agora tiram o 12º ano e a maior parte vai para a universidade, porque já há outras condições, felizmente, para suportar essas coisas.
Agora, o ir para a arbitragem é, como digo, a pessoa tem que ter gosto pelo desporto e depois encaixar na parte da arbitragem, estudar, adaptar-se e ir lutando para chegar mais além. É só isso. Eles agora têm tudo de bom que antigamente não tínhamos. Agora pagam-lhes tudo, já há árbitros profissionais e antigamente não havia. Dão-lhes equipamentos, antigamente tínhamos que os comprar… Pronto, têm outras condições para melhor, felizmente.

Como é que é a sua rotina e a preparação antes de um jogo?
Antes do jogo nós fazemos uma apreciação às equipas que vamos arbitrar, porque tem que ser mesmo. Para quê? Há muita coisa que conta quando vamos para o campo de futebol e isso ensinaram-me quando eu tirei o curso. Foi uma das coisas que eu aprendi com o meu cunhado. O nosso instrutor, que nos deu o curso, dizia que o árbitro quando se dirige para um campo, para arbitrar um jogo, tem que começar a ganhar os pontos quando chega ao recinto desportivo. Isso quer dizer o quê? Tem que ir apresentável.
Hoje já há muitos que não passam cartão a isso e eu ainda sou dos poucos, se calhar o único em Santarém, que faço isso. Eu ainda hoje vou de casaco e gravata para um campo de futebol, que era o que antigamente nos diziam. Há muita gente que não vai, mas cada um vai como quer e eu vou assim sempre, até que eu seja árbitro. Porquê? O chegar ao campo, falar com os diretores que estão lá à nossa espera quando chegamos com o saco na mão, falar com os jogadores, saber mais ou menos como é que eles estão na disciplina, por exemplo, tudo conta. Tudo dá ao árbitro a indicação de como é que pode atuar ou se pode dirigir no campo com eles. Isso é tudo um estudo que os árbitros fazem todos. Todos fazem isso, saber se a equipa é muito indisciplinada, se não é, se tem jogadores que picam mais que outros, tudo isso é um estudo que qualquer árbitro faz.
De que forma é que gostaria de ser recordado no Inatel?
Isso depende de cada pessoa olhar para o Henrique Santos e pensar que foi um árbitro que andou no distrital, andou no nacional e depois foi para o Inatel. Que foi um árbitro que cumpriu sempre o seu dever, andou sempre de cabeça erguida. Não tem nada que lhe seja apontado do lado negativo, antes pelo contrário, tudo o que tem feito tem sido em prol da arbitragem.
E se pudesse resumir a sua vida numa frase, qual seria?
Excelente. Numa palavra, foi excelente. Não consegui os objetivos, que era chegar à primeira categoria nacional, mas lutei para isso. Tive três vezes para subir, só que antigamente era preciso ter um padrinho e eu estava aqui na província e nunca tive. Como não tinha, tive que ficar onde eles entenderam por bem, que era lá o meu lugar. Cheguei à segunda divisão e aí me mantive, onde muitos nunca conseguiram.
