Coligação Viva o Entroncamento questiona Câmara por gestão de litígios avaliados em 1,3 milhões Foto arquivo: Arlindo Homem

Em comunicado, a coligação PSD/CDS/Independentes, através do vereador Rui Madeira, refere estarem em causa “matérias de relevância jurídica, financeira e política”, apontando uma ação judicial instaurada pela empresa Nascente contra o município, superior a 850 mil euros, e uma proposta de acordo judicial de 450 mil euros com a empresa Listorres – Engenharia e Investimentos, S.A..

“Num processo desta dimensão, seria exigível rigor, transparência e informação completa aos órgãos municipais”, sustenta o Viva o Entroncamento, alegando que “foram omitidos documentos, ficaram explicações por dar e reuniões por realizar”.

Segundo a coligação, os termos do acordo pelo qual o município pretende pagar 450 mil euros à Listorres foram enviados ao Tribunal Administrativo e Fiscal de Leiria antes da discussão e votação pelos órgãos autárquicos.

A proposta acabaria por ser aprovada na reunião de Câmara de 27 de abril, com os votos favoráveis dos eleitos do Chega e do PS e os votos contra do Viva o Entroncamento.

Posteriormente, o processo seguiu para apreciação da Assembleia Municipal, mas o ponto foi retirado da ordem de trabalhos da sessão ordinária de 30 de abril, a requerimento das bancadas do PSD e CDS, numa decisão aprovada por unanimidade de todas as forças políticas presentes.

A oposição justificou essa posição com a alegada “falta de esclarecimentos, fundamentação e documentação necessária” relativos ao processo.

“O processo acabou, assim, por avançar sem que o órgão fiscalizador tivesse previamente analisado e discutido todos os elementos necessários”, lê-se no comunicado.

Coligação Viva o Entroncamento questiona Câmara por gestão de litígios

O Viva o Entroncamento aponta ainda “uma contradição” entre um parecer jurídico favorável ao acordo de 450 mil euros e a contestação anteriormente apresentada no processo judicial.

Segundo a coligação, nessa contestação o município defendia “a total improcedência da ação” e sustentava que deveria ser ressarcido em cerca de 45 mil euros por obras de urbanização executadas pela autarquia no loteamento em causa.

“O mais extraordinário é que essas posições, aparentemente antagónicas sobre o mesmo assunto, foram subscritas pelo mesmo advogado mandatário, em momentos diferentes do processo”, afirma a coligação.

No comunicado, Rui Madeira questiona ainda quem decidiu avançar com o acordo; quem contratou o mandatário do município;, quem participou nas reuniões relativas ao processo;, e porque motivo o executivo municipal “não foi devidamente informado e chamado a deliberar” antes da apresentação dos termos do acordo em tribunal.

“Estas perguntas são simples. Estranhamente, continuam sem resposta. O dinheiro é público. As responsabilidades são municipais”, refere o documento.

Em resposta enviada à Lusa, o presidente da Câmara do Entroncamento rejeitou irregularidades e justificou a proposta de acordo com o risco financeiro associado ao processo judicial movido pela Listorres, cujo valor inicial ascendia a 3.1 milhões de euros [3.111.885,13 euros].

Segundo Nelson Cunha, quando o atual executivo tomou posse este era “o processo com o valor de ação mais elevado contra o município”.

O autarca afirma que, de acordo com informação transmitida pelo mandatário do município, António Rebordão Montalvo, existia “forte probabilidade” de condenação da Câmara e disponibilidade da outra parte para alcançar um entendimento extrajudicial.

“O acordo permite encerrar definitivamente este litígio de anos”, sustenta o presidente da Câmara, referindo que o diferendo remonta a matérias urbanísticas com mais de duas décadas relacionadas com o loteamento urbano titulado pelo alvará n.º 5/79.

Nelson Cunha defende ainda que a solução negociada reduz significativamente a exposição financeira da autarquia, fixando um encargo total de 450 mil euros, repartido em três prestações anuais entre junho de 2027 e junho de 2029.

O presidente da Câmara do Entroncamento rejeitou irregularidades e justificou a proposta de acordo com o risco financeiro associado ao processo judicial

Segundo o presidente da Câmara, o valor acordado “não é um valor aleatório”, mas sim uma quantia considerada adequada pelo mandatário do município, que acompanha o processo desde 2017.

De acordo com a informação divulgada, o montante integra: 334.755,79 euros relativos a garantia bancária, 43.779,84 euros referentes a projeto de infraestruturas elétricas, e 65.008,07 euros relativos a dívidas de anteriores titulares do alvará.

O autarca sublinha que o acordo resultou de um processo negocial juridicamente admissível e enquadrado nas competências legais do presidente da Câmara.

Nelson Cunha reconhece, contudo, que a submissão do acordo ao tribunal pelo mandatário do município foi “prematura”.

Ainda assim, sustenta que o município nunca ficou juridicamente vinculado à transação, uma vez que o tribunal exigiu posteriormente uma procuração com poderes especiais, documento que nunca chegou a ser emitido.

“Decidiu-se não vincular, nesse momento, o município ao acordo em questão”, refere o presidente da Câmara.

Segundo Nelson Cunha, após a submissão antecipada do acordo pelo mandatário municipal, foi pedido ao tribunal um prazo adicional de 30 dias para permitir a aprovação do acordo em reunião de Câmara e a autorização da despesa plurianual pela Assembleia Municipal.

Mais tarde, já após a deliberação do executivo, o autarca pediu nova prorrogação de 10 dias para aguardar pela realização da Assembleia Municipal extraordinária.

Nelson Cunha afirma ainda que o estado do processo judicial já tinha sido comunicado à Assembleia Municipal em dezembro de 2025 e que foram entregues documentos relacionados com o processo aos líderes das bancadas representadas no executivo camarário.

“Estranha-se que só agora surjam dúvidas e suspeições”, refere.

A Assembleia Municipal do Entroncamento reúne em sessão extraordinária na sexta-feira, 22 de maio, tendo como ponto único da ordem de trabalhos a apreciação e eventual aprovação dos termos da transação judicial com a Listorres – Engenharia e Investimentos, S.A..

Caso a proposta seja aprovada, o acordo será novamente submetido ao Tribunal Administrativo e Fiscal de Leiria.

Se for rejeitada, o processo seguirá para julgamento, indicou Nelson Cunha.

c/LUSA

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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