Patinadoras do Clube Estrela Verde. Créditos: CEV

Carinhosamente são chamados de “estrelinhas” e percebe-se a razão ao vê-los deslizar. A agilidade dos atletas do Clube Estrela Verde, de Constância, que rolam graciosamente pelo Pavilhão Municipal da vila, fascina quem aprecia movimentos libertadores. Como se sabe a patinagem artística é um misto de ginástica e ballet conjugado com a destreza no uso dos patins. É a modalidade da elegância associada ao equilíbrio e à velocidade.

E se o Clube Estrela Verde é tido como uma referência no associativismo naquele concelho do Médio Tejo, contando atualmente com 10 anos de desporto federado, Daniela Lopes ensina a voar em cima de quatro rodas. É a atual treinadora da patinagem artística e única, embora nem sempre tenha sido assim.

O presidente do Clube, Victor Lopes, lembra que inicialmente o Estrela Verde contou com uma treinadora apologista de uma filosofia mais competitiva, colocando em segundo plano o prazer que os atletas retiram do desporto. Mas tendo assumido a presidência do Clube, assumiu também uma diferente filosofia e os resultados estão à vista e materializam-se em taças, troféus e galardões.

Para Daniela treinar os atletas, de um Clube às portas de completar meio século, “é juntar o útil ao agradável. Gosto muito de crianças e também gosto muito da patinagem”, afirma ao nosso jornal.

Daniela Lopes, treinadora de patinagem artística do Clube Estrela Verde, em Constância. Créditos: mediotejo.net

A jovem de 27 anos iniciou a sua carreira de treinadora aos 18, na época sem o curso que a habilitava para o ensino da modalidade mas com a experiência da prática. A formação realizou-a à posteriori. Como atleta “comecei esta modalidade um pouco tarde, com 12 anos, o ideal é começar com 4 ou 6 anos, no máximo até aos 8. Quando se começa mais velho é preciso muita força de vontade porque as quedas doem mais. São mais altos e ao cair magoam-se mais facilmente”, explica.

Daniela Lopes pratica, portanto, patinagem há 15 anos e, no Estrela Verde, “ajudava” a anterior treinadora, numa função de adjunta nos atletas de iniciação. Quando a então treinadora saiu, Daniela assumiu o cargo. Na realidade até assumiu cargos em dois clubes. Para além do clube de Constância também do Santa Cita, da Associação Cultural e Recreativa, no concelho vizinho de Tomar.

Questionada sobre a “maior dificuldade” da modalidade, se porventura passa pelo equilíbrio ou pela aquisição da técnica, a treinado não tem dúvidas: “É tudo! À medida que vão evoluindo complica-se. Enquanto que as meninas pequeninas fazem uma rotação no ar, há atletas a fazer duas e já tive uma atleta a saltar para três”, conta.

“À medida que vão crescendo, o risco acaba por ser maior porque ao evoluírem o treinador puxa mais por eles. Portanto, têm de ter equilíbrio, a parte técnica, e a parte artística, todo um conjunto”.

Dá conta que a patinagem artística em quatro rodas e no gelo têm diferenças. “Uma coisa é ter uma lamina e outra são quatro rodas”. Admite, no entanto, que a modalidade vai no sentido de “replicar um bocadinho o gelo” até porque as regras dos patins em rodas são as mesmas dos patins em gelo.

Lembra que Portugal conseguiu este ano “uma campeã do mundo, da Madeira, e olhar para ela e olhar para a patinagem no gelo, é idêntico. Estamos a tentar aproximar [as modalidades] cada vez mais, tanto que as nossas notas já são como as do gelo, antigamente não eram. Portanto, há uma constante evolução da modalidade, sendo mais exigente”.

O Clube Estrela Verde apostou na patinagem artística sobre rodas, uma modalidade que, apesar das boas práticas e da persistência de clubes e de encarregados de educação, continua a não ser muito divulgada no País, apesar de contar com alguns dos melhores atletas da Europa.

O treino tende a ser individual, essencialmente porque cada atleta “tem a sua personalidade. Tem de haver esse sensibilidade, conhecer os atletas, saber a maneira mais viável de lidar com eles para que atinjam os objetivos. E nos treinos ver a adaptação”, refere Daniela que indica como o exercício mais complicado “lidar com personalidades diferentes. Sem dúvida!”.

Porém, o trabalho de um treinador de patinagem artística não se resume aos treinos, havendo muito para fazer em casa. Para além da preparação dos treinos, Daniela arranja as músicas incluindo montagens com o cuidado necessário para que os cortes não sejam percetíveis, uma preparação que exige tempo e disponibilidade.

A patinagem artística divide-se em várias categorias de competição: patinagem livre, figuras obrigatórias e solo dance para a patinagem individual. Já os pares dividem-se em pares de dança e pares artísticos. E para a patinagem de grupo são três os estilos de coreografia: show, precisão e quartetos.

Na pré-competição “muitas vezes os esquemas são livres. Se elevarmos o nível da competição, a partir de um determinado escalão, neste caso de iniciados, têm dois programas; o curto e o longo. O primeiro é muito restrito, tem um salto obrigatório e depois tem o salto isolado, uma ligação de saltos e uma sequência de passos. No longo é mais abrangente, dependendo do escalão tem o máximo de saltos que se podem apresentar. Não podem repetir o mesmo salto mais do que um determinado número de vezes. Há um conjunto de regras para pôr em prática nas provas”, explica a treinadora.

Patinadores do Clube Estrela Verde, em treinos no Pavilhão Municipal, em Constância. Créditos: mediotejo.net

Como treinadora de um pequeno Clube em dimensão mas capaz de conquistar títulos desportivos, Daniela sente-se orgulhosa dos seus atletas. Nota uma relação com “o trabalho que desenvolvem. Dou a ajuda que posso, que consigo e sei, mas é muito importante a força de vontade de cada atleta e dos objetivos que define. É uma modalidade que exige disciplina, quer na parte técnica quer na parte do esquema coreográfico. É todo um conjunto”.

E mesmo com treinos intensivos e abundantes, nem sempre corre bem. O desempenho relaciona-o com “a pressão” que os atletas “metem em determinada prova em específico. Se falarmos de uma prova, um torneio, um campeonato nacional, a pressão que têm, apesar de não a colocar, os atletas levam sempre o peso de mostrar o que sabem fazer e por vezes não conseguem fazer o esquema”, diz.

O “insuficiente” apoio do Estado ao associativismo

Sediado num edifício no centro histórico da vila, o Clube Estrela Verde, existente desde 1975, foi um local muito frequentado pela comunidade, que à sede acorria para horas de convívio. No passado, o Clube teve várias atividades desportivas e culturais, como atletismo, futebol salão, pesca, banda musical, teatro e até grupo folclórico.

Quem sobe ao primeiro andar da sede do Clube, encontra um bar – apesar de desativado – numa sala de jogos, onde não faltam os matraquilhos, com televisor já de ecrã plano e os instrumentos musicais da banda do Estrela Verde expostos nas paredes, como relíquias de um passado talvez por recuperar, assim houvesse quem se voluntariasse para o associativismo. Hoje a oferta resume-se à patinagem artística, contando com 30 atletas federados, embora o número já tenha sido superior a 40, e a um pequeno grupo de ciclistas.

Foi Victor Lopes, presidente do Clube Estrela Verde, que decidiu implementar a modalidade quando assumiu a direção em 2013. A patinagem surgiu como uma possibilidade na sua cabeça e hoje a modalidade e o Clube tem provas dadas, sendo campeão distrital.

Victor Lopes, presidente da direção do Clube Estrela Verde, em Constância. Créditos: mediotejo.net

“O Pavilhão Municipal estava sem utilização à noite, não havia uma atividade para o desporto feminino federado – felizmente masculino, na época, havia no concelho. Tinha (e tenho) uma filha patinadora e achei por bem lançar o repto, ainda não como presidente, mas na anterior direção da qual fiz parte com vogal”, conta ao mediotejo.net.

Vítor Lopes está ligado ao Clube desde 2009, integrou uma comissão de gestão de agosto de 2009 a fevereiro de 2010. Nesse ano integrou uma direção, como vogal, sendo presidente António Mendes (atual presidente da Assembleia Municipal de Constância) e em 2013 candidatou-se pela primeira vez. Presentemente vai a meio do quarto mandato.

Relembra que o Clube Estrela Verde é, neste momento, o único clube com desporto federado. “O concelho tinha outros clubes federados como a Casa do Povo de Montalvo e a Associação Cultural e Desportiva Aldeiense, mas perdeu-se”, lamenta o presidente que gostaria de ver Constância “ainda mais forte noutras modalidades, no desporto, na cultura, como a Filarmónica Montalvense”, afirma.

Por isso, defende que o Estado deveria apoiar o associativismo de forma mais robusta. “Nós [coletividades e dirigentes associativos] estamos a substituir o Estado. É um direito que está na Constituição da República, e com o nosso esforço, somos amadores desde a primeira hora até à última que por aqui andamos. Os clubes deveriam ser apoiados. Se isto, por cada ano, desse um ano de antecipação para a reforma, se calhar havia mais interessados a vir para o associativismo”, graceja.

Patinadores do Clube Estrela Verde. Créditos: CEV

Grande defensor do trabalho em equipa, Victor Lopes recusa a distinção hierárquica. Assegura que na sua direção todos os elementos contam, tendo o mesmo valor na decisão. Afirma que sendo presidente da direção ou vogal, o trabalho seria o mesmo, ao contrário da gestão de antigos dirigentes, incluindo alguns que rejeitaram a patinagem, por não considerarem a modalidade de interesse para desenvolver.

Antes de 2011 “não houve essa aceitação. Quando tomei posse pela primeira vez, alguns colegas mostraram-se renitentes. Tomamos posse em março de 2013 e avanço com a patinagem em outubro de 2013, numa fase experimental até dezembro”, mas devido “à aceitação que entretanto conseguimos ter, em 2014 foi o primeiro ano em que nos federámos na Federação de Patinagem de Portugal”, explica. Em dezembro, o Clube completa 10 anos de desporto federado.

Patinagem promove “o bem estar físico e mental dos jovens”

A pouco e pouco, sem pressão, até porque segundo o presidente a patinagem pretende “o bem estar físico e mental dos jovens” designadamente “saberem estar em grupo e respeitar os outros. Mais um complemento da Educação da escola e de casa, com situações que os enriquecem e preparam para a vida”, a atividade foi crescendo e o Clube começou a ter resultados.

“Todos gostamos de ganhar. Mas sem grandes pressões” até porque, segundo diz, os títulos para o Clube “não são o ponto fulcral. Aqui é serem felizes. Mas se conseguirmos juntar jovens felizes ao Clube estar bem visto e os atletas ganharem, claro que nos satisfaz muito mais! E foi o que conseguimos fazer nestes anos todos”. Em 2017, o Clube atingiu pela primeira vez o pódio, a nível de competição oficial.

Com uma filosofia de grupo, o coletivo como prioritário em vez de um primeiro lugar para qualquer atleta individualmente, Victor admite que “preferimos ir a um pódio coletivo do que ter 3 ou 4 atletas que fiquem em primeiro lugar e o Clube em sexto ou sétimo”. Porém, “nunca ponho pressão em atleta nenhum”, reforça.

Por seu lado, Hélder Silva, vogal da direção do Clube, explica que “num grupo nunca se consegue ter os atletas de alta competição todos ao mesmo nível. A ordem de ideias é: o trabalho em conjunto, seja uns com muito nível e outros com menos nível, no total conseguimos aquilo que queremos. É o espírito de comunidade, o trabalho é em conjunto, o resultado final que queremos é neste caminho que vai e está a dar resultados. Desde 2017 o clube não sai do top três, tanto na pré-competição como na competição”.

Os atletas do Estrela Verde competem em três níveis: em iniciação, pré-competição e competição. Uma modalidade “muito técnica” que segundo o presidente merecia treino, não de uma hora diária, mas duas ou três horas por dia. E dá o exemplo de escolas no Norte do País, nas quais existem protocolos dos clubes com as escolas que têm pavilhões onde é possível praticar a modalidade. “Os treinadores são pagos pelos Municípios ou por entidades que estão presentes para trabalhar, por exemplo em feriados. Temos clubes no Norte com fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, preparadores físicos. Nós continuamos a bater-nos, com aquilo que temos”, refere.

Raparigas dominam na patinagem artística

A época oficial para a prática da patinagem artística tem início a 1 de janeiro de cada ano civil e
tem o seu termo a 31 de dezembro do mesmo ano, contrariamente a outras modalidades que iniciam em setembro e terminam em junho. A patinagem de rodas é semelhante à patinagem no gelo, mas nesta última valoriza-se mais a parte artística do que na primeira na qual a parte técnica tem uma maior relevância.

O Clube Estrela Verde conta com atletas dos 3 aos 27 anos na modalidade. Quando os jovens chegam à idade de seguir o ensino superior torna-se “difícil” a sua manutenção no Clube, na prática da patinagem. A treinadora Daniela Lopes manteve o pé em cada patim, ou seja, deu continuidade à modalidade ao mesmo tempo que estudava no ensino superior “porque tirou a licenciatura no Instituto Politécnico de Tomar, conseguindo conciliar os estudos com a patinagem”, explica Victor. Saindo do Médio Tejo, complica-se.

Entre os 30 atletas dominam claramente as raparigas, sendo atualmente dois os rapazes que praticam patinagem artística no Clube embora o primeiro grupo tenha contado com seis. “A patinagem artística é um desporto em 98% feminino. Há desportos em que já está muito equilibrado, no futebol ainda é mais masculino, ginástica é mais feminino. Aqui, quer queiramos quer não, a nossa cultura influencia e há 20 anos era quase impensável, havia um rapaz ou outro” não só em Constância mas sendo transversal ao País, dá conta o presidente.

Atualmente o Clube tem duas modalidades: a patinagem e o cicloturismo, agora com seis elementos, mas o atletismo já foi a modalidade rainha em cerca de 20 anos do Clube. Uma secção de pesca está a ser equacionada, à semelhança do que sucedeu no passado.

“O objetivo na patinagem é mantermos a qualidade que temos, mantermos o Clube entre os cinco melhores do distrito” de Santarém, avança Victor. “Manter a harmonia, que os atletas sejam felizes. E por inerência que Clube seja visível”.

Ciclistas do Clube Estrela Verde. Créditos: CEV

Clube conta com apoio municipal se apresentar o dobro em despesas

Mas nesta modalidade que atrai atletas desde tenra idade, e também adeptos, nem tudo é positivo para os pequenos clubes que defrontam dificuldades logísticas e financeiras. No entanto, com as contas do Clube em dia, Victor diz que o que precisam mais é de “compreensão. Deveria haver um bocadinho mais de respeito pelo trabalho de continuidade. A patinagem tem 10 anos e tem resultados que se mostram”, insiste.

Sendo certo que, desde as provas individuais às provas de grupos, os bons resultados dos patinadores portugueses surpreendem num desporto onde faltam apoios, designadamente financeiros.

Ao Clube, o Município disponibiliza o Pavilhão Municipal – os treinos acontecem de segunda a sexta, exceto à terça-feira – e apoia financeiramente com 5 mil euros anuais, pagos em duas tranches. “Dois mil e quinhentos euros para a iniciação e pré-competição e 2500 euros para a competição. Mas esse ‘bolo’ só vem se o Clube apresentar despesas no dobro desse valor, como inscrições em torneios, na Federação, em transportes, etc”, explica.

Para Hélder Silva, ligado ao associativismo também enquanto presidente da Banda Filarmónica da Carregueira, na Chamusca, defende que “um apoio anual não o é perante a apresentação de uma despesa, para ser cobrada, e estamos a falar de um desporto federado”, por isso considera que o Município deve “melhorar muito” a vertente do apoio financeiro ao associativismo.

“O Clube para receber 5 mil euros tem de apresentar uma despesa de 10 mil euros?”, questiona, em tom critico. Para o vogal dos órgãos sociais do Clube “faz sentido” o Município apoiar financeiramente as associações mas perante um plano de atividades apresentado, e no âmbito do seu cumprimento.

Desse modo, o Estrela Verde consegue financiar-se através de uma “quota suplementar” dos sócios, uma espécie de mensalidade e em eventos realizados pelo clube. Até porque são várias as despesas, como por exemplo os fatos de treino entregues aos atletas, custam cerca de 100 euros cada um, também polos e calções – sendo os fatos de exibição comprados pelos próprios, tal como os patins – ou as deslocações dos jovens às provas.

De notar que cada par de patins, para o escalão de competição, custa acima de 500 euros, alguns atletas patinam mesmo com mil euros nos pés, não sendo dos mais caros, segundo Victor Lopes. Já um fato de exibição ronda os 150 euros, sendo que cada atleta têm no mínimo dois, devido aos diferentes programas – curto e longo – a partir de determinados níveis, não podendo repetir o fato.

Cada atleta “não pode ter apenas dois fatos porque são muitos justos e havendo, por azar, um que descosa ou rasgue, já não pode ser usado. O atleta tem de ter outro alternativo. Ou seja, cada atleta do Clube tem no mínimo, em fatos de exibição, 500 euros. Mais os patins, falamos em muitos milhares de euros. Se, em média, cada atleta gastar mil euros em fatos e patins, são 30 mil euros, já não contando com o fato do Clube. A patinagem não é o futebol ou outra modalidade qualquer”, diz.

Rollart abriu um mundo de dificuldades e exigências

Trata-se de um Clube de um concelho com pouca população, com 3.798 residentes segundo o último censos, e por isso “é muito difícil mantê-lo no top três estes anos todos, praticamente com a prata da casa e com pessoas de outros concelhos que, felizmente, veem o nosso trabalho e vêm ao nosso encontro”.

Os “miúdos” ou os “estrelinhas”, como carinhosamente Víctor trata os atletas, chegam até ao Clube e ficam porque “gostam”. A diferença passa por começarem de imediato a trabalhar para que “se entusiasmem, vão evoluindo, e sejam levados a competição”.

São “ciclos” e esta é uma fase de novas entradas, mas o futuro próximo não passa pelo campeonato nacional, embora a ambição exista mas “infelizmente a estrutura, logisticamente e a nível de infraestruturas, não acompanha a ambição”, sublinha Hélder.

Além disso, há cinco anos que a patinagem artística sobre rodas está a sofrer alterações. Na realidade, com a introdução de novos regulamentos, novas regras técnicas e com a operacionalização de um novo sistema de avaliação das competições, o Rollart, abriu-se um mundo de dificuldades e exigências aos agentes desportivos da patinagem artística, do interior do País onde estão os pequenos clubes, de acordo com Victor Lopes.

“Antigamente os sete melhores atletas de cada distrito iam ao campeonato nacional. Agora com o sistema Rollart é por ranking, ou seja, estamos sujeitos a ter um campeão distrital e não conseguir ir ao campeonato nacional porque atletas que ficam 7º ou 10º em clubes maiores tem um ranking maior do que os nossos atletas. Quer dizer: não temos direito à vida, só somos bons para pagar para à Federação”, critica.

O presidente defende que “no mínimo, os três pódios de cada escalão, de todos os distritos, tivessem acesso direto ao campeonato nacional”. Por ranking apenas o apuramento “do quarto ao sétimo lugar”, e dessa forma “os nossos atletas tinham hipótese de ir ao campeonato nacional”. Como o Clube já compareceu, tendo-se sagrado campeã nacional Débora Lourenço, que se encontra entre os 30 melhores atletas do País.

“Estrelinhas” sobem ao pódio

Catarina Antunes, de Santa Margarida da Coutada, é uma das patinadoras do Estrela Verde. Com 13 anos, pratica patinagem há dois, afirma sentir-se bem e motivada pela treinadora que “ajuda muito a gostarmos de estar aqui”. Reconhece as dificuldades da modalidade mas relativamente “às quedas, com o tempo vamo-nos habituando. É uma coisa tão normal de acontecer, há a probabilidade de cair. Ao início, o mais difícil, foi o equilíbrio mas depois os saltos. Os peões são os mais fáceis”, opina.

Em competição há lugar ao nervosismo, que nem sempre acontece; “depende”, informa. Contudo, “é entusiasmante”. O estimulo é tal que Catarina pretende continuar em patins pelo menos até entrar para a faculdade. Os planos futuros já ocupam espaço na sua cabeça: “Mesmo na faculdade se conseguir vir aos treinos de sexta-feira vou gostar de vir. É uma modalidade que gosto muito. Já não me consigo imaginar noutra” que não seja a patinagem artística.

Margarida Lopes chega a Constância, vinda de Torres Novas, há quatro anos. Essencialmente por ser “um sítio bom para a patinagem. Este Clube sempre me inspirou e sempre gostei de ver as atletas a patinar, a Daniela a treinar. Então foi uma escolha”.

Margarida Lopes, patinadora do Clube Estrela Verde, em Constância. Créditos. mediotejo.net

Aquando desta entrevista, Margarida de 16 anos, estava a poucos dias de participar no Torneio Nacional no Algarve, por isso manifestou um sentimento de ansiedade mas também de felicidade, apesar de não ser propriamente uma estreia numa competição nacional, até porque pratica patinagem há 7 anos.

Para a patinadora, a maior dificuldade desta modalidade não se prende com a aprendizagem inicial. “Aprender a patinar não é assim tão difícil. É mais os movimentos, a força e o equilíbrio”.

Quanto ao futuro, Margarida gosta tanto dos patins, do frenesim da velocidade, que até coloca como possibilidade ser patinadora profissional.

Recorda-se que o Clube Estrela Verde marcou presença, de 10 a 12 de novembro, no Torneio Nacional que se realizou em Tavira. Conseguindo 14º lugar (apenas com duas atletas) por equipas em 59 participantes. Individualmente conseguiu nos Juvenis um terceiro lugar com Margarida Lopes, e nos Juniores um sexto lugar com Débora Lourenço.

Recentemente o Clube, na competição da Taça do Ribatejo, sagrou-se vice-campeão com uma pontuação de 120,69 pontos.

Em outubro último, sagrou-se pela segunda vez Campeão Distrital do APR (Associação de Patinagem do Ribatejo). Nas sete edições em que participou, o Estrela Verde foi 4 vezes campeão, 2 vezes vice-campeão e obteve uma vez o 4° lugar.

Um Clube nascido de dois movimentos populares

Quanto à história do Estrela Verde, tem origem em dois movimentos populares de carácter associativo que surgiram na vila de Constância entre a Revolução de Abril de 1974 e março do ano seguinte. Um deles constituído por Acácio Horta da Luz, Pedro Nogueira e José Augusto Pinheiro e um outro constituído por Rui e Cesaltina Jofre. Os dois movimentos acabam por fundir-se criando o Clube.

Antes da sua criação, o edifício que ainda hoje é a sede da coletividade, acolheu a Legião Portuguesa, instalada nos anos 1950 no primeiro andar. Mas anteriormente acolheu uma escola; Jacinto da Silva Falcão mandou construir o edifício para Escola de Educação de Meninas, em 1875.

Um edifício que recentemente recebeu obras de melhoramento. Graças à aprovação de uma candidatura no âmbito da TAGUS – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior, que o Estrela Verde conseguiu avançar com parte das obras necessárias, como a pintura do edifício, remodelação das escadas, do patamar do primeiro andar e da porta da entrada.

Em 2020, o Clube viu aprovada a referida candidatura ao “Renovação de Aldeias”, ao abrigo do Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) 2020. Num investimento de 13.500,00 euros comparticipado a 80% pelo PDR, foi possível levar a cabo obras de remodelação no edifício sede do clube, nomeadamente nas escadas, na porta principal e em termos de pintura.

Os restantes 20% foram “suportados pelos capitais próprios do Clube”, designadamente por “receitas das quotas dos sócios e alguns apoios/subsídios da Câmara Municipal de Constância através de candidaturas no âmbito do Programa Municipal de Apoio ao Associativismo”.

A direção do Clube Estrela Verde realça a importância desta empreitada, referindo que o edifício “estava a necessitar de ‘uma cara nova’ ”, tendo em vista a “preservação, conservação e valorização do património imobiliário do clube”, construído, como referido, em 1875.

Patinadores e treinadora do Clube Estrela Verde. Créditos: CEV

Em 10 anos de competição da patinagem artística o Clube Estrela Verde conseguiu os seguintes resultados:

Lugares da competição nos Campeonatos Distritais
2017 – 2° lugar
2018 – 2º lugar
2019 – 1° lugar
2020 (interrupção devido à pandemia de covid-19)
2021 – 2º lugar
2022 – 3° lugar
2023 – 3° lugar

Lugares da competição da Taça do Ribatejo
2017 – 2 ° lugar
2018 – 1 lugar
2019 – 4° lugar
2020 (interrupção devido à pandemia de covid-19)
2021 3° lugar
2022 – (interrupção)
2023 – 2°lugar

Campeonatos Nacionais
2015 (Valado dos Frades)
Juniores- Daniela Lopes

2016 (Braga)
Beatriz Oliveira
Débora Lourenço
Leonor Freitas

2017 (Tomar)
Benjamins – David Lourenço (2º lugar vice-campeão)
Íris Dionísio
Beatriz Calado
Débora Lourenço
Beatriz Oliveira
Leonor Freitas

2018 (Faro)
Infantis – David Lourenço (2º lugar vice-campeão)
Beatriz Calado
Íris Dionísio
Beatriz Oliveira
Débora Lourenço
Leonor Freitas
Ana Fernandes

2019 (Guimarães)
David Lourenço
Beatriz Calado
Beatriz Oliveira
Débora Lourenço
Leonor Freitas
Ana Fernandes

2021
Torneio Nacional
David Lourenço
Juvenis – Débora Lourenço (1º lugar – campeã do torneio nacional)
Ana Fernandes

2022
Campeonato Nacional
Débora Lourenço

2023
Torneio Nacional
Clara Serafim
Beatriz Oliveira
Leonor Freitas

Torneio Nacional em Tavira (2023)
Juvenis
3º lugar – Margarida Lopes
Juniores
6º lugar – Débora Lourenço

Obteve o 14º lugar por equipas em 59 participantes.

A titulo de curiosidade, se quiser experimentar este desporto, vai poder levar os seus filhos a aventurarem-se a deslizar sobre rodas, sem precisar de investir nos patins. O Clube Estrela Verde oferece essa possibilidade durante um mês.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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