“Dizer que fiquei extremamente satisfeito? Não. Mas também não me arrependo do que fiz. E… que mais? Não vou pedir desculpa, porque durante toda a minha vida também ninguém me pediu sinceramente desculpas.” Esta é uma das afirmações que Cláudio Valente gravou pouco antes de morrer – segundo as autoridades dos EUA, por “uma bala auto-infligida”, e que consta das transcrições de quatro vídeos gravados nas suas últimas horas de vida, e divulgadas ontem pela procuradoria-geral de Massachusetts.
Estas gravações foram descobertas pela polícia no armazém onde Cláudio foi encontrado morto a 19 de dezembro, depois de vários dias em fuga, na sequência do tiroteio que realizou na Universidade de Brown e do assassinato do físico Nuno Loureiro, que dirigia um laboratório do MIT, em Boston.
Os vídeos, que em seguida transcrevemos na íntegra, foram gravados em português, num tom confessional, sem ter aparentemente um destinatário específico. O mais longo tem seis minutos, os restantes entre 1 e 2 minutos. Neles, assume a autoria dos crimes mas não esclarece cabalmente as suas motivações.
Contudo, Cláudio Valente revelou que ia enviar três emails nessa noite – e talvez aí possa ter sido mais explícito. Mas não são conhecidos os destinatários, nem sequer se ele chegou realmente a enviá-los. As autoridades norte-americanas garantem que a investigação continua.
Em Portugal, entretanto, os pais foram ouvidos pela PSP do Entroncamento, no âmbito das diligências solicitadas pela polícia dos EUA à Polícia Judiciária. Segundo foi possível apurar pelo nosso jornal, o pai foi convocado para prestar declarações na esquadra da PSP esta quarta-feira, 7 de janeiro.
Recorde-se que a morte de Cláudio Valente, e a suspeita de que seria ele o assassino em fuga desde 13 de dezembro, foi tornada pública pela imprensa norte-americana no dia 21 de dezembro, e que as autoridades portuguesas foram avisadas no dia anterior ou, pelo menos, com algumas horas de antecedência. Contudo, a família não recebeu qualquer contacto e, tal como o mediotejo.net noticiou, foi pela televisão que os pais souberam que o filho estava morto.
O nosso jornal questionou a PJ sobre este facto, solicitando também a data em que os pais de Cláudio Valente teriam sido (posteriormente) contactados, bem como mais informações sobre o teor das diligências pedidas pelos EUA e se tinha sido possível satisfazê-las. Contudo, apenas recebemos esta resposta:
“A propósito das notícias que deram conta do envolvimento de um cidadão português em investigações por parte das autoridades dos Estados Unidos da América, aos factos relacionados com o homicídio do físico Nuno Loureiro e de estudantes da Universidade de Brown, a Polícia Judiciária informa que foi contactada a 21 de dezembro e que se encontra a prestar colaboração e apoio às autoridades daquele país, desde o momento inicial em que o suspeito se tornou, para aquelas, alvo de interesse. A Polícia Judiciária permanece em contacto e a prestar toda o suporte necessária às investigações em curso.”
Depois de muitos anos sem terem notícias do seu filho único, que cortou relações com todos os familiares e amigos, os pais estão muito abalados e têm procurado isolar-se do resto do mundo. Não abrem a porta de casa e raramente atendem o telefone, mesmo aos mais próximos.
O lamento da mãe ao longo de toda a vida adulta de Cláudio foi sempre o mesmo: ele tinha “problemas”, mas “nunca quis procurar ajuda”.
O casal já tinha perdido o filho há muitos anos, de alguma forma. Desde os tempos em que ele foi o melhor aluno de Física do Instituto Superior Técnico, terminando o curso em 1995 com notas superiores às de Nuno Loureiro (que viria a matar no mês passado), a mãe chegava a passar horas escondida só para conseguir vê-lo uns minutos à distância. Depois de 2001, e da (má) experiência com o doutoramento na Universidade de Brown, nos EUA, a situação só piorou.
A última vez que a família o viu foi no funeral de um primo de 22 anos, a 20 de agosto de 2013, no Entroncamento. Pouco depois ele despediu-se do Sapo (onde trabalhou como programador pelo menos entre 2006 e 2013), vendeu a casa que os pais lhe tinham comprado nos Olivais e desapareceu, sem deixar rasto.
Os pais nunca souberam se ele estava em Portugal ou no estrangeiro, se estaria vivo ou morto. Até à trágica manhã de 21 de dezembro, quando ligaram a televisão e viram a cara do seu filho enquadrada por um rodapé com a palavra “assassino”.
Mas um filho é sempre um filho, e eles querem sepultar o seu. A época de Natal e de Ano Novo atrasou todos os procedimentos, mas é esperado que dentro de dias as autoridades norte-americanas libertem o corpo e ele possa ser transladado para Portugal. Talvez então (…talvez), o coração desta mãe consiga encontrar por fim alguma paz.
As últimas palavras de Cláudio Valente
Transcrições fornecidas em inglês pela Procuradoria Geral do Estado de Massachusetts

Ok… [suspiro] como podem ver, o meu olho está meio lixado. Foi o cartucho de uma bala que fez ricochete. Não sei se isso vai afetar o sucesso daquilo que eu queria fazer… Uhm… [pausa] Acabou. Foram seis meses, pá. Seis meses não, seis semestres… já tinha planeado isto há muito mais tempo. Parece que começo a ver um pouco melhor do olho, mas muito pouco, quase nada. Mas é chegada a hora das conclusões finais. Chegou a hora das conclusões finais… Uhm… foi tudo um bocado incompetente, mas pelo menos alguma coisa foi feita. O único objetivo era… partir mais ou menos nos meus próprios termos e… e já passou da hora. E pelo menos ir-me [pausa]… de forma a que não fosse… não fosse eu quem mais sofresse com isto tudo. Não, isso não pode acontecer. Por isso, se não gostam, azar. Azar o vosso. Também houve muita merda de que não gostei e que tive de aturar.
Então, o que aconteceu agora… Estou num armazém em Salem, já cá estou há uns três anos, acho eu. Ainda tenho dinheiro. Teria dinheiro para mais uns bons anos se estivesse em Portugal ou num sítio mais barato. Ainda assim, duraria bastante tempo, mas não me importo. Estou aqui… estou aqui sem me importar com nada há muito tempo.
Dizer que fiquei extremamente satisfeito? Não. Mas também não me arrependo do que fiz. Honestamente, o meu único arrependimento é esta coisa no olho… [ri-se].
Mas foi muito difícil, pá. Eu tenho mesmo muita, demasiada inércia. Mas como quase fui abordado por um tipo lá naquele dia… não foi quase, fui mesmo abordado, e ele sabia a minha… a minha matrícula. Sinceramente, nunca pensei que demorassem tanto tempo a encontrar-me. Mas vejam, basicamente, fiz mais um…não tenho a certeza, foi feito a uma distância relativamente curta e [pausa]… rapidamente… e não sei exatamente quando fui atingido no olho, não sei exatamente… espero que pelo menos o primeiro tenha acertado. Não sei. Não me importo. Acabou. Agora é a minha hora de partir, nos meus próprios termos [suspiro]…
E… que mais? Não vou pedir desculpa, porque durante toda a minha vida também ninguém me pediu sinceramente desculpas. Nas poucas vezes em que me pareceu que algo tinha acontecido, depois tive acesso às pessoas em particular… e as conversas que tivemos em privado mostraram que era tudo falso… Por isso de mim não levam nada. Não gostava de nenhum de vocês. Vi esta merda toda desde o início, ainda mal tinha memórias conscientes, aos três anos de idade. Aos cinco anos, já tinha a certeza. Com algumas exceções e… esperava que fosse negociável, em termos de competência, moralidade. É por isso que eu era um tipo porreiro em todos os sentidos; nem sempre, mas quase sempre e… e não. Não é… não existe… não existe qualquer tipo… é completamente inegociável. Então vão-se foder, que se danem. Três e-mails devem ser enviados hoje, esta noite, as pessoas vão recebê-los, basicamente. Não vou dizer mais nada.
E a questão é que, com esta situação do olho, até pensei em fazer a filmagem com óculos, e depois, no último momento, pensei: não, porque os óculos embaciam, é ao perto, [interrupção de áudio].
Eu fui estúpido. Se o tivesse feito, não o teria feito… mas também não tenho o mínimo interesse em ficar aqui. É isso. [interrupção de áudio]. Eu também não tenho interesse em ser famoso. Não me interessa o que pensam de mim ou como me julgam. A grande maioria das coisas que serão ditas, já as consigo imaginar. Aliás, já estava a ler… hum, gosto particularmente das merdas do Trump, de ele me ter chamado de animal, o que é verdade. Eu sou um animal, e ele também é.
Não tenho ódio pela América, não tenho ódio nenhum. Esta foi uma questão de… de oportunidade. Gostava muito de vos agradecer pela única oportunidade que me deram aqui, que foi esta, e… e olhem, é isto. Não tenho mais nada a dizer. Terminamos. Não pensei que seria exatamente nestes termos, nem planeava vir aqui, mas este é um lugar isolado, espero ficar aqui pelo menos umas boas horas sem… sem ser encontrado. Mesmo que o carro idiota esteja lá fora, e obviamente haja um registo da minha entrada, e haja câmaras e tudo mais, mas provavelmente serão umas boas horas, por isso, quanto mais tempo ficar aqui, melhor.
Vamos ver se tenho coragem para fazer isto a mim mesmo agora, porque foi muito difícil fazer isto a todas estas pessoas, pá. Foi muito difícil, mesmo. Invejo aqueles que nascem com esse dom, por natureza ou não, ou por causa de… Invejo aqueles que não têm qualquer dificuldade em fazê-lo, e essas pessoas existem. É isso que eu realmente invejo. O resto não me diz nada. Vamos ver se tenho coragem. São 10 da noite, e pronto.
***
Quando disse que não tenho ódio pela América, também não tenho amor por ela. Na verdade, acho que vir para aqui, das duas vezes que vim, foi um erro enorme. Mas dizer que vocês são todos extraordinariamente maus seria… nem bons nem maus. São a mesma coisa. Vocês são macacos como os outros. Mas estava a ler a gravação que fiz… não a ler, a ver. E eu disse que não tinha ódio, mas também não tenho amor. É a mesma coisa com Portugal e com a maioria dos sítios por onde passei. Não me dizem nada. Para onde quer que um gajo vá… é assim que as coisas são.
Vamos ver como isto vai funcionar agora. Se realmente tiver coragem para o fazer. Nas duas ocasiões precisei de um catalisador – em ambas. No primeiro caso, foi o facto de ter sido confrontado, e no segundo, também fui, digamos, um bocadinho… Então…
Eu obviamente preferia fazer qualquer outra coisa e não isto. Porque é difícil. E porque não quero falhar, certo? Estou a pensar se devo usar uma arma ou se devo utilizar as duas.
Já sei que vão dizer que sou doente mental, ou uma merda qualquer do género. Isso é tudo uma treta. São desculpas esfarrapadas. Tu és [pausa]… isso são tudo desculpas para f**** aqueles com quem não te importas. Eu sou… eu sou são. [As luzes apagam-se] Ei, as luzes estão a começar a apagar-se. O meu olho parece que está a começar a… ah, é porque está escuro. [fecha o olho direito duas vezes] Hum… pois, está uma merda.
Eu sou são, e sempre fui, mais ou menos. Não-não-não, ninguém é perfeito, mas…[suspiros] Na minha… a minha visão sobre tudo isto… é que… eu acho que o mundo não pode ser redimido. Resumindo, é isto. Nem sei se vou deixar isto aqui [as gravações]. Mas mesmo que apague, está num cartão SD, vai ser um pouco difícil. Gostava de saber se vão publicar isto, talvez preferisse que não o fizessem.
Não me importo minimamente com ser famoso, ter um legado, e coisas assim, manifestos e essas merdas. Não tenho paciência nenhuma para isso. Embora tivesse muito para dizer e escrever, não quero saber. Não vou dar-vos isso.
***
Só mais uma cena. Parece que alguém disse que eu gritei Allah Akbar, ou uma merda qualquer do género. Não me lembro de ter dito nada. Mas se eu disse alguma coisa, deve ter sido uma espécie de… uma exclamação [de surpresa], porque eu pensei que… eu nunca quis fazer isto num auditório. Eu queria fazê-lo numa sala normal. E tive muitas oportunidades,
sobretudo durante este semestre.
Tive muitas oportunidades, mas acagaçei-me sempre, e já expliquei porque é que o fiz desta vez. Então, correu tudo mal. Acho que só do lado de fora é que acabou por correr melhor, mas quando entrei no auditório, basicamente só vi um tipo lá em baixo, se é que cheguei a vê-lo inicialmente… E eu pensei… caramba… foi isso, devo ter feito uma exclamação do tipo “Oh não!”, ou algo do género, para expressar que estava vazio… isto é, se é que eu disse algo do género.
Eu pensei que as pessoas tinham ido todas embora. Mas eram meio burros. Há uma saída de emergência… [ri-se] no canto inferior direito. Eles… todas aquelas pessoas que estavam escondidas debaixo das mesas, ou onde quer que fosse, podiam ter saído perfeitamente por ali. Eu pensava que eles tinham saído… que era isso que tinha acontecido quando eu estava lá fora… pensei que todos tivessem saído por ali. Mas depois percebi que não. Que estavam todos escondidos debaixo das cadeiras e… era difícil de ver, mas… pronto. Agora sim, deve ser tudo.
