Inauguração do Cine-Teatro de Mação. Foto: mediotejo.net

O espaço emana uma luz e acolhimento diferente, mais amplo, mais aberto. Com um anfiteatro e sala de cinema portentosos, com novos equipamentos e tecnologia avançada, num estilo contemporâneo em linha com outros equipamentos culturais que foram surgindo na região. Mas este espaço tem a seu favor as linhas da história – Mação renovou um edifício dos anos 50, carregado de memórias, numa cronologia que se funde com o filme de vida da própria vila e do concelho. Com a sua inauguração é dado agora um importante passo em prol da dinâmica cultural, com um espaço digno para receber não só a comunidade maçaense, como a de toda a região, com uma sala de espetáculos que, por si só, é merecedora de visita.

O também recentemente renovado Largo dos Combatentes oferece o enquadramento perfeito para este novo espaço central e de convívio em Mação, ali junto à Câmara Municipal e à antiga Escola Primária (atual sede do Instituto Terra e Memória) que, altaneira, vigia toda a zona inferior da praça.

As crianças usufruíam do parque infantil ali ao lado, e o largo foi enchendo de gente até ao arranque da cerimónia, numa solarenga tarde em que celebrava de cravo em punho os ideais de Abril de 74. O dia marcava também o regresso da emblemática esplanada do Cine-Bar, ponto de encontro entre amigos, familiares e conterrâneos a qualquer altura do dia e da semana. Risos, conversas cruzadas, sorrisos, e numa altura em que a obrigatoriedade do uso de máscara deixou de se verificar em contexto generalizado, muitos encontros e reencontros de rosto descoberto que ganharam outro fulgor.

A meio da fachada, as portas duplas envidraçadas à espera da chegada da comitiva que presidiria à cerimónia oficial da inauguração das obras de requalificação há muito aguardadas.

As portas abriram pelas mãos da vereadora Margarida Lopes, com o pelouro da Cultura, e entrando Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação, juntamente com a Ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, e Luís Filipe, em representação da CCDR Centro, hora de descerrar a placa no átrio do edifício histórico.

Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação, com a Ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, e Luís Filipe, em representação da CCDR Centro. Foto: mediotejo.net

Seguindo para uma pequena porta à direita, e subindo escadas, tempo para inaugurar o pequeno espaço de memória com recolha de objetos, equipamentos e acessórios antigos, onde se incluem bilhetes antigos das primeiras sessões de cinema, o antigo projetor de cinema e as antigas cadeiras trazidas por Elvino Pereira após o fecho do Cinema Monumental.

No amplo Salão Nobre, com janelas altas com vista para o Largo, ganha-se um espaço de exposição, onde os cravos foram figura central na receção, rodeados pelos trabalhos dos alunos que ilustraram a Revolução dos Cravos a lápis e marcador.

Passando ao balcão superior, com vista para o amplo anfiteatro, onde o vermelho das cadeiras destacava com o teto escuro de onde sobressai em jeito de constelação o pontilhado de fibras óticas.

Na frente, a toda a largura, uma mega tela inicial para cinema, que descobre uma segunda tela de projeção geral no fundo do palco.

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Ali estava instalada a mesa que conduzia a cerimónia da terceira inauguração que este cine-teatro vive, depois de ter sido inaugurado nos anos 50 e de ter sofrido obras de requalificação nos anos 80.

Momento em que houve lugar a visualização de um pequeno vídeo de recolha documental e de testemunhos de pessoas que tiveram ligação a este edifício, e que dali trazem memórias de outros tempos, proporcionando uma viagem aos presentes e relembrando os cartazes, as iniciativas, as pessoas que pisaram aquele palco e que ali fizeram arte, uns de forma mais profissional, outros mais amadores. Foi lembrado Agostinho Carreira, homem que deu vida ao palco e que, pela forma emocionada e carinhosa como o público acolheu as imagens de uma atuação teatral sua, percebe-se que seria dono de uma arte como só ele sabia fazer.

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E se houve lugar a projeção de vídeo na tela onde se seguirão muitas horas de sessões de cinema pela frente, também a sala e o palco contaram com um momento teatral a condizer com o dia alegre e onde reinava a boa disposição, com as “Velhas Surdas”, trajadas de forma típica, a representarem muito bem o seu papel de coscuvilheiras e a sacarem gargalhadas às entidades oficiais e a toda a plateia, intrometendo-se pelo meio da cerimónia e interagindo de forma caricata.

O dia foi de grandes emoções e o presidente da Câmara Municipal de Mação não escondia o orgulho e satisfação por este feito. Vasco Estrela disse em declarações à comunicação social que este equipamento cultural agora devolvido à comunidade veio preencher “uma lacuna e necessidade do concelho”.

Agora inauguradas as obras de requalificação, resta corresponder ao desafio que se impõe: “dar vida ao espaço, dinamizar a cultura, ajudar para que outros a dinamizem, e ter uma oferta cultural diversificada na certeza de que, só assim é que o investimento tenha a justificação pretendida”, disse.

Vasco Estrela, presidente da Câmara de Mação. Foto: mediotejo.net
Discurso oficial de Vasco Estrela, presidente da CM Mação, durante a cerimónia.

A dinâmica e aproveitamento do novo espaço dependerá não só da autarquia, segundo Vasco Estrela, mas também dos agentes culturais do concelho, dos quais espera um esforço correspondido.

“É um edifício histórico, emblemático, e que ficou com história dentro, num pequeno espaço de memória no primeiro andar juntamente com o Salão Nobre, onde algumas pessoas poderão recordar muitas das vivências que tiveram neste edifício dos anos 50”, sublinhou, lembrando que o cine-teatro diz muito a milhares de maçaenses por diversas razões que se prendem com diferentes épocas e fases da vida social e cultural da vila.

“O concelho fica claramente a ganhar, bem como a região, que dispõe de mais um equipamento cultural para bem de todos e para ser usufruído por todos”, mencionou.

Dia 1 de maio, ali acontecerá o primeiro concerto, com a comemoração dos 160 anos da Sociedade Filarmónica União Maçaense, abrindo a programação da aclamada sala de espetáculos e cultura. Já dia 14 de maio, será exibido o primeiro filme em sessão de cinema, “Salgueiro Maia – O Implicado”, cujos bilhetes serão até lá colocados à venda.

O edil maçaense tem esperança que haja adesão da comunidade à programação cultural do Cine-Teatro Municipal, nomeadamente por atualmente se estar a dar “um clique” com a retoma da vivência cultural e convívio após os últimos anos de pandemia de covid-19 que privaram certos modos e estilos de vida coletiva, de socialização.

Foto: mediotejo.net

“Temos o espaço, temos o país a abrir. Há aqui condições para que realmente se possa fazer boa cultura como se fazia no passado, agora com melhores condições. Dependerá evidentemente da vontade, do impulso, do apelo que cada um de nós possa vir a sentir para que isso aconteça. Da parte da CM Mação haverá empenho, por um lado para dinamizar uma oferta cultural diversificada, por outro lado, apoiar os agentes culturais do concelho a promoverem cultura, como sempre temos feito”, aludiu.

Referindo-se também ao espaço exterior, com o recém-requalificado Largo dos Combatentes adjacente à fachada do Cine-Teatro, Vasco Estrela reconheceu que se trata de “um espaço com enorme dignidade, no centro da vila, junto à CM Mação, e junto à antiga Escola Primária”, acrescentando ter “orgulho” por ter contribuído de forma decisiva para que esta “nova centralidade da vila seja uma realidade”, com o novo Largo, o Cine-Bar e a sua esplanada, e a reabertura do cine-teatro.

“Penso que estão criadas condições para que se viva um bocadinho melhor no concelho de Mação, mais que não seja neste sentido da nossa autoestima e no sentido de termos equipamentos e espaços com dignidade e com condições para que as pessoas se sintam bem”, terminou.

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Também na sessão esteve Luís Filipe, vogal executivo do Programa Centro2020, em representação da CCDR Centro. Com ligações a Mação, falou sobre o “ponto central” e a relevância que assume o Cine-Teatro de Mação e a esplanada do Cine-Bar, lugar privilegiado de convívio.

O responsável deixou ainda algumas reflexões para o futuro, que “obriga a novos desafios”, de onde sobressai “o desafio constante de servir bem as pessoas”, o que implica definir prioridades e projetos, seja do setor público, seja do setor privado, sendo que um deve acompanhar o outro.

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Luís Filipe, vogal executivo do Programa Centro2020, em representação da CCDR Centro

Também na sessão esteve presente Ana Abrunhosa, Ministra da Coesão Territorial. Visivelmente bem-disposta, como é seu apanágio, envolveu-se de forma empática com a comunidade e autarcas locais, recordando uma das últimas visitas ao concelho, em que chovia muito, e onde gabou uma boina usada pelo vice-presidente da autarquia, António Louro. Neste dia, recebeu como presente uma boina idêntica que orgulhosamente envergou e usando como metáfora este episódio no arranque da sessão, disse ser também uma “ministra de palavra”, que iria cumprir com o compromisso de ajudar Mação nos seus projetos futuros, mesmo reconhecendo que talvez não possa dizer que ‘sim’ a todas as solicitações, mas que estará disponível para a autarquia.

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Ana Abrunhosa disse que esta tarde em que se celebrava o 48º aniversário da revolução do 25 de Abril em Mação com a reabertura do cine-teatro representava “um exemplo de um dia e de iniciativas que ajudam a fazer coesão territorial e a tornar a democracia melhor”.

Discurso oficial da Ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa.

Por outro lado, sustentou que o 25 de Abril “não estará completo sem o “D” de Desenvolvimento” – (dos três ‘Ds’ de Abril: Desenvolver, Democratizar e Descolonizar) – e lembrando que as assimetrias são “um grande risco para o desenvolvimento harmonioso do país”.

Para a governante “desenvolver o Interior é um desígnio do atual Governo e representa uma responsabilidade coletiva, que se faz com os autarcas, com as Comunidades Intermunicipais, e que se faz olhando para os territórios, preservando a sua cultura, os seus espaços de memória, como é o caso do Cine-Teatro de Mação, valorizando o seu património natural”, entre outros.

Reconhecendo que se vive um “momento único de desafios e incertezas mas também um momento único de disponibilidade de fundos europeus, e portanto temos mesmo que nos sentar todos e decidir o que é prioritário para estes territórios e avançar, arregaçar as mangas”, começou por frisar.

Ana Abrunhosa não se fez rogada e teceu duras críticas à forma como o país foi conduzido ao longo das últimas décadas, situação que trouxe problemas maiores, em especial ao Interior do país, e que cujas soluções não são imediatas para reverter um ciclo de desertificação e envelhecimento.

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“A única maneira que temos de valorizar os territórios do interior é olhar para os problemas de forma diferente do que temos feito. Termos políticas nacionais iguais para todo o território provou que é uma política errada. Tivemos décadas e décadas de políticas erradas que só acentuaram a desertificação do Interior. E a desertificação em todas as dimensões: populacional, de atividade económica e que trouxe depois os incêndios e a catástrofes que hoje assistimos com as alterações climáticas. Mação viveu isso, infelizmente, não há muito tempo”, vincou.

Para a ministra “a única forma que temos é contrariar, olhando para o Interior de forma diferente e se for preciso usar os fundos europeus de forma diferente no Interior em relação ao Litoral, temos que o fazer. Se for necessário criar políticas e apoios só para o Interior, é isso que temos que fazer”, defendeu.

A governante defendeu ainda a tomada de políticas diferenciadas para os territórios do interior do país, reconhecendo, ainda assim, que mesmo que tal aconteça com urgência, “nunca conseguiremos contrariar décadas e décadas de má política que prejudicaram o nosso Interior e o nosso país”.

A governante que encabeça o Ministério da Coesão Territorial na segunda legislatura consecutiva, crê que o Conselho de Ministros e o Primeiro Ministro estão sensíveis a estas matérias, que tem tentado trazer a discussão e apresentado novas formas de fazer política pública no território.

Foto: mediotejo.net

Quanto ao ‘D’ de Desenvolvimento, afirma que será sempre um processo “inacabado”, uma vez que “continuamos a ter um país assimétrico, e enquanto o tivermos, significa que o local onde vivemos e crescemos não representa igualdade de oportunidades e está sempre por cumprir”.

Referiu também que isso gera insatisfação e atrai movimentos populistas, porque se faz “má política pública e porque governamos mal; temos que começar a governar bem para estes territórios (…) que a geografia não seja fator de discriminação”, afirmou, indicando que no Interior é necessário valorizar a atividade económica existente, valorizar a agricultura, a floresta, o setor agroalimentar, e tornar estes territórios mais atrativos para outras atividades económicas” para que o território não corra o risco de ficar refém de uma só indústria. “Temos excelentes exemplos de que é possível atrair atividades baseadas no conhecimento e na tecnologia”, indicou.

“Não vamos conseguir recuperar a população que tínhamos em todo o Interior, mas da maneira que estamos, então, vamos ter problemas gravíssimos”, assumiu, com preocupação.

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O projeto de requalificação do Cine-Teatro Municipal – cujas obras arrancaram em outubro de 2020 – manteve a traça do edifício. Representou um investimento global de cerca de 850 mil euros, incluindo o recheio do equipamento cultural, tendo a Câmara Municipal contado com um apoio na ordem dos 300 mil euros no âmbito do PARU – Plano de Ação de Regeneração Urbana.

A intervenção no interior englobou trabalhos ao nível da modernização dos equipamentos, de som e projeção, do telhado e climatização, cadeiras, camarins e palco, entre outros, a par de um aumento da plateia e da volumetria para receber uma caixa de palco adequada, assim como em tetos, paredes e pavimentos, e outros trabalhos relacionados com a rede de abastecimento de água, esgotos, segurança contra incêndios, instalação de equipamentos elétricos, climatização e rede estruturada de telecomunicações e informática.

A sala passa a contar com 235 lugares. O rés-do-chão tem o auditório, ‘foyer’ com um espaço de apoio aos utilizadores, um balcão de atendimento, espaço de bar (também de apoio à esplanada) e sanitários.

Já no primeiro piso, o Salão Nobre é um espaço para exposições, pequenos colóquios ou ações de formação. Neste piso foi ainda preparado um Espaço de Memória do cineteatro, com alguns elementos antigos, uma resenha histórica do espaço e do próprio teatro em Mação.

O Cine-Teatro de Mação foi inaugurado nos anos 50 e intervencionado na década de 80 do século passado. Depois de mais de uma década sem cinema, estão de volta as sessões regulares com a promessa de que o cartaz oferecerá filmes para miúdos e graúdos e todos os gostos.

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Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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