Praça 5 de outubro, Torres Novas. Foto: DR

A 8 de Julho comemoram-se 40 anos da elevação de Torres Novas a Cidade. Uns dirão que pouco significa ou que significa que o resto do concelho é menosprezado em função da cidade, outros ainda consideram que é o momento de elogios de momentos históricos e de afirmação do que fomos.

No tempo em que vivemos será benéfico repensar o papel das cidades. É, aliás um debate que não é novo e que tem convocado muita gente em várias partes do Mundo – especialistas, académicos, eleitos/as, grupos de cidadãos, representantes das populações. Não cabe aqui esmiuçar estas experiências, cada uma com facetas próprias, experiências mais ou menos positivas, mas existe um traço comum – facilitar a informação, promover o debate e a participação.

Também não vou falar aqui das duas experiências participativas em Torres Novas – o Orçamento Participativo e o debate público em torno das obras do PEDU*. Orgulho-me de ter estado na origem destes dois processos, mas afasto-me do caminho que o primeiro seguiu adulterando os princípios com que foi criado, e da forma abrupta e inconsequente com que se terminou o segundo.

Creio que 40 anos é tempo suficiente para amadurecer as opções para uma cidade de futuro e com futuro. E, quis o destino, que este aniversário com número redondo aconteça em vésperas de eleições autárquicas. Por isso, creio eu, seria deveras interessante promover uma reflexão coletiva e um debate sobre como vemos uma cidade com a dimensão de Torres Novas, num concelho polinucleado, com uma vila e com 10 freguesias. Só concebo a cidade como âncora para o desenvolvimento de todo o concelho, o contrário, uma cidade centralista (que o é) e fechada é fixarmo-nos no passado.

Como estruturar a mobilidade? Como descentralizar a cultura e o desporto? Como descentralizar os serviços públicos? Como defender o território e as populações das alterações climáticas?

Mais importante que os discursos de ocasião e a distribuição de medalhas é sabermos para onde vamos. Torres Novas tem muita coisa a seu favor, assim saibamos encontrar um caminho. Tem de se acabar com a prática de fazer projetos para obras não porque sejam precisas, mas porque há dinheiro para gastar. A mania da grandeza, que faz com que por vezes nem sequer se aproveite o dinheiro disponível (veja-se os casos das obras do Convento do Carmo e a execução do PEDU) tem de dar lugar à sensatez e à boa governação.

Se pararmos para pensar, se tivermos uma visão global e, mais importante de tudo, se as pessoas forem o centro das políticas, estou certa de que conseguiremos fazer uma cidade bonita, acolhedora, integradora, solidária, sem exclusões, respeitadora do meio ambiente e dos animais que habitam este território, com tolerância zero à violência contra as mulheres, ao racismo, à homofobia, à corrupção.

Se formos por aqui, aprofundando o que de bom se tem feito, corrigindo o que está mal e estimulando novas e criativas soluções, daqui a 10 anos ou até menos, Torres Novas poderá ser exemplo na qualidade de vida, na cidadania e na governação democrática.

*PEDU – Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano, que apenas concretizou até hoje o jardim Almonda e iniciaram-se agora as obras junto ao Teatro Virgínia.

Helena Pinto vive na Meia Via, no concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Feministas em Movimento. Escreve quinzenalmente no mediotejo.net

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