Há coisas, situações, circunstâncias, pessoas que nos despertam sentimentos, emoções, pensamentos diversos, plurais, às vezes contraditórios ou incompatíveis.
Podemos ser despertos e estimulados a desenvolver, aprofundar, estruturar sentimentos que nos ligam – ou desligam – a pessoas, grupos, clubes, partidos e a viver com amor e paixão mas também com revolta, raiva e ódio.
Já nos demos conta que vivemos hoje numa sociedade onde todas essas coisas são – e parece estarem a tornar-se – cada vez mais fluidas e voláteis. Liquidas, disse já um sociólogo.
Tudo parece ter ciclos de vida cada vez mais curtos, muitos dos bens hoje queremos a achamos essenciais são mesmo programados para a obsolescência cada vez mais rápida e para serem substituídos por outros, “mais evoluídos” , em ciclos de vida e de morte já anunciada.
Esta lógica da produção e do hiper-consumo de bens materias faz já o seu caminho para o domínio das emoções e dos sentimentos.
Entrámos também já na era das emoções e sentimentos com morte anunciada e assumidamente programados para ciclos curtos e tendencialmente cada vez mais curtos. Vivemos o império do fugaz, do quase imediato, do usa e deita fora generalizado.
O que queremos, sentimos, amamos entra nessa lógica da caducidade e as nossas relações também.
Há um tempo vi uma reportagem sobre a vida em Tóquio. Tóquio para mim é uma referência; acredito que o modo como a vida se vai tornando por lá se irá generalizando …
A reportagem assentava numa constatação: homens e mulheres não sabiam relacionar-se. Logo uma campanha pública, da cidade e do governo: ensinar como estabelecer e desenvolver relações …
E depois jovens e adultos de ambos os sexos a confessar coisas sobre o modo como viam, percebiam e viviam essas relações e confessada e assumidamente a opção pela solidão. Nós agora somos “herbívoros”, preferimos a tranquilidade. Raparigas? Hmmm, já viu o trabalho? Sexo? Mas já viu o trabalho que dá? Não. A felicidade está na solidão.
Em resumo de modo talvez bruto: as coisas e as emoções e os sentimentos e as relações vivem-se cada vez mais com o mesmo registo com que se usam e consomem objetos: usa e deita fora. As pessoas ao fim de algum tempo, cada vez menos, em ciclos cada vez mais curtos, querem livrar-se do smart-phone e ter o último a saír e esperam ansiosamente pela saída já anunciada desde a saída do último.
As pessoas já não suportam o que têm e querem ter o que está a caminho já anunciado.
As pessoas já não são capazes de suportar as pessoas e desfazem relações como quem muda de um gadget qualquer.
As pessoas estão a tornar-se objetos de consumo em ritmos de obsolescência cada vez mais curtos. Desumanização.
Acho que temos que começar a valorizar outras coisas: o que nos desperta e estimula para a humanidade.
Procurar coisas, situações, circunstâncias, pessoas que nos despertam, estimulam e ensinam de novo a humanidade. A sermos humanos. A tornar-mo-nos no que sempre fomos: pessoas humanas.
