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Mais uma baforada, mais um suspiro. Longe iam os tempos da iluminação a gás e da luz da vela. Longe os dias de Brighton e de Mrs. Everest, a sua ama e confidente, a mais querida e íntima amiga dos seus primeiros vinte anos de vida. Longe ainda a memória, a sua prodigiosa memória que o levaria a recitar os 1.200 versos de Lays of Ancient Rome, de Macaulay, naquela escola de Harrow.

Agora, ali estava, pendurado no inseparável charuto que o acompanhava desde Sandhurst, apoiado na bengala que o amparava, mas que havia sido também, assim como que um gigante dedo em riste, quando a sua fúria de líder tal o exigia. E lembrava-se de Cuba, onde chegara com vinte anos apenas. Ou de Nova Iorque, por onde passara fugazmente, respirando os ares do país onde nascera Jennie, sua bela mãe. E da Índia. Sim, da Índia, onde estivera com o seu famoso regimento, o 4º de Hussardos de Cavalaria e onde sentiu ou pressentiu o impulso da política.

Olha de novo o charuto, talvez o seu melhor companheiro. E sorri. Sorri ao recordar os jornais da época que lhe disputavam a coragem. O “The Morning Post” fê-lo o jornalista mais bem pago do seu tempo, pelas suas crónicas de guerra naquela África do Sul, onde os súbditos de Sua Majestade e os Boer aspiravam a hegemonia. O sorriso alarga-se quando se recorda de ter sido procurado “vivo ou morto”, com a cabeça posta a prémio por vinte e cinco libras. Bons tempos esses, em que à farda se juntava a escrita. E ainda lhe pagavam por isso.

Suspira de novo. A sua memória recua agora aos vinte e cinco anos, quando regressa a Londres e mergulha definitivamente na política. Primeiro no Parlamento, empolgando, envolvendo, seguindo o instinto que não o Partido. Depois no Governo, assumindo riscos e decisões, reformando e não se conformando, nem sempre de acordo com os cânones reais, mas sempre alinhado com os da sua consciência. A dos mais fracos, desfavorecidos, desprotegidos.

E, com um brilhozinho nos olhos, relembra a sua participação nas duas Grandes Guerras. Na primeira, ainda com a irreverência a marcar-lhe o ímpeto. Na segunda, já com a sabedoria que o tornaram o líder certo em tempo de guerra. Em ambas, como alguém escreveu um dia, com a coragem, audácia e génio, que o viriam a imortalizar.

Pamela Plowden, uma das suas paixões, descrevia-o assim: “Quando se conhece Winston percebem-se imediatamente os seus defeitos, mas passa-se o resto da vida a descobrir as suas qualidades”.

Winston Churchill foi tudo o que poderia ter sido. Soldado e Primeiro Lorde do Almirantado. Parlamentar, ministro e o primeiro entre eles. Jornalista e escritor. Nobel da Literatura. Amante das artes e pintor, que da pintura dizia “não conhecer nada que tanto ocupe o espírito sem esgotar o corpo”. Amante dos prazeres da vida: “sou um homem de gostos simples que se satisfaz facilmente com o que há de melhor.”

Que mais poderia aspirar alguém que viveu mais de noventa anos, conheceu povos, gentes e lugares por todo o lado, que foi vencedor e vencido, magnânimo na vitória e digno na derrota?

Talvez Pamela tivesse razão. Quanto mais tento descobrir Churchill, mais me apercebo da sua dimensão e autenticidade. Que o levou a entender a semelhança entre o poder e o charuto: ambos viciantes, podendo qualquer um apagar-se, ao mais pequeno descuido.

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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