Chega destaca “mudança irreversível” seis meses após tomar posse na Câmara do Entroncamento. Foto: CME

“A Câmara deixou de ser espetadora e passou a ser agente de mudança”, afirmou à Lusa Nelson Cunha, presidente da Câmara do Entroncamento desde outubro de 2025, defendendo que o executivo encontrou “desorganização, processos sem decisão e uma máquina que não estava orientada para resultados”.

Segundo o autarca deste município do Médio Tejo, o único governado pelo Chega, a situação obrigou à introdução de “método, maior responsabilização interna e foco na execução”, sustentando que “o rumo está definido”.

“Seis meses não chegam para materializar tudo, mas chegam para provar que há uma diferença de liderança”, afirmou.

Entre as principais medidas destes primeiros seis meses, Nelson Cunha destaca o lançamento de um sistema de videovigilância no âmbito de um protocolo celebrado com a PSP, que prevê a futura instalação de 55 câmaras, o reforço do controlo interno dos processos administrativos e a revisão dos apoios sociais municipais.

“Na segurança demos um passo estrutural com a videovigilância. Na transparência introduzimos maior controlo interno e responsabilização. E na justiça social fomos claros: quem precisa tem apoio, quem cumpre é respeitado, quem abusa acabou”, declarou.

No domínio da transparência, o presidente da autarquia indicou que foi atualizada a estratégia de prevenção de riscos de corrupção e infrações conexas, com reforço dos mecanismos de controlo e mitigação de risco, estando em curso medidas para melhorar os indicadores de transparência municipal.

Está também a decorrer a revisão dos procedimentos de contratação pública, com regras “mais claras e exigentes”, e uma aposta na contratação com empresas locais, para dinamização da economia do concelho.

Na área social, referiu a atualização e o cruzamento das bases de dados dos apoios municipais, para garantir “informação mais rigorosa, atual e fiável” sobre os beneficiários.

“Este processo permite identificar com maior precisão quem realmente necessita de apoio, evitando duplicações, incoerências ou situações indevidas”, disse.

A eleição de Nelson Cunha representou um marco político, ao tornar-se o primeiro autarca do Chega a tomar posse na presidência de uma câmara municipal em Portugal continental, com 37,34% dos votos e três vereadores, sem maioria absoluta.

O executivo governa em minoria, face aos dois vereadores da coligação Viva o Entroncamento (PSD/CDS-PP/Independentes), com 30,55%, e aos dois do PS, com 22,14%, cenário que, segundo o autarca, tem exigido diálogo e negociação permanentes.

“O interesse do concelho tem de estar acima de qualquer cálculo político. Quando assim é, o diálogo é possível”, afirmou, referindo que a generalidade das propostas tem sido aprovada por unanimidade.

Segundo Nelson Cunha, têm existido consensos com a oposição em matérias como a criação da Polícia Municipal, a instalação de videovigilância, o reforço dos guardas-noturnos e medidas ligadas à limpeza urbana e à segurança.

Chega destaca “mudança irreversível” seis meses após tomar posse na Câmara do Entroncamento. Foto: CME

O orçamento municipal para 2026, aprovado com a abstenção dos vereadores do PS e da coligação Viva o Entroncamento, é o primeiro “totalmente alinhado com a visão estratégica do novo executivo”.

“O orçamento municipal para 2026 coloca no centro a segurança, a qualidade dos serviços públicos, educação, habitação, saúde, desenvolvimento económico, sustentabilidade ambiental e modernização administrativa”, afirmou.

Questionado sobre críticas de excessiva politização, rejeitou essa leitura: “há uma diferença entre fazer política e resolver problemas. Nós estamos focados em resolver problemas”, disse.

O presidente da Câmara afastou também qualquer influência da direção nacional do Chega nas decisões locais, garantindo “autonomia total” na governação municipal.

“Não há pressão da direção nacional. Existe confiança no trabalho desenvolvido e respeito pela autonomia local”, assegurou, acrescentando que a relação com o líder do partido, André Ventura, é “institucional, assente no respeito e na confiança”.

Nelson Cunha foi eleito presidente da Câmara Municipal do Entroncamento pelo Chega. Créditos: DR

Até ao final do mandato, em 2029, aponta como prioridades a valorização do Entroncamento enquanto cidade estratégica, através da requalificação da estação ferroviária, da melhoria das acessibilidades e da criação de condições para atrair investimento e fixar população.

“Queremos uma Câmara moderna, mas sobretudo uma Câmara que não falha”, concluiu.

Os vereadores da oposição no Entroncamento apresentam leituras distintas dos primeiros seis meses de governação do executivo liderado pelo Chega, mas convergem na crítica à ausência de uma estratégia global estruturada para o concelho.

Pelo PSD, Rui Madeira, da coligação Viva o Entroncamento, considera que não existe rutura face ao anterior ciclo socialista, defendendo que a ação do executivo “não introduziu nada de novo” e se limita a dar continuidade a políticas já existentes.

O vereador social-democrata aponta sobretudo a ausência de uma visão estratégica e de um plano de desenvolvimento municipal, criticando uma “gestão centrada no dia a dia”.

Entre os principais reparos, refere fragilidades na preparação dos processos em reunião de Câmara, com sucessivas alterações ou retirada de propostas, e atrasos em medidas estruturantes como a Polícia Municipal e estudos de mobilidade e tráfego.

Rui Madeira, vereador do coligação Viva o Entroncamento. Foto: mediotejo.net

Na habitação social e na educação, Madeira defendeu a necessidade de revisão de regulamentos e de definição de novas prioridades, com “planos estratégicos”.

Já o PS, através de Ricardo Antunes, reconhece alguma continuidade na gestão corrente e sublinha a estabilidade de vários serviços, apontando como aspeto positivo a valorização dos trabalhadores municipais e a incorporação de algumas propostas apresentadas pelo PS, partido que governou o município até 2025, na atividade do executivo.

Ainda assim, critica a ausência de um plano estratégico estruturado para o concelho, em áreas como mobilidade, segurança e desenvolvimento urbano, defendendo que o executivo se tem centrado sobretudo na gestão operacional.

Ricardo Antunes, vereador do PS. Foto: RA

O vereador socialista questiona ainda o grau de concretização de medidas anunciadas, como a Polícia Municipal, apontando falta de definição do modelo de implementação.

O executivo municipal do Entroncamento é constituído por três eleitos do Chega, dois da coligação Viva o Entroncamento e dois do PS, detendo o Chega 10 assentos na Assembleia Municipal, a coligação sete, e o PS cinco, sendo este órgão presidido por um elemento indicado pela coligação, depois de rejeitada a proposta do Chega, com aprovação do PS.

c/Lusa

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