Não se pode dizer que por cá não se passa nada. Por trás do pano, há sempre alguém que nos bastidores, sem dar nas vistas, pincelada aqui, murmúrio acolá, vai construindo puzzles de arte e engenho, talento e paixão, empenho e mil desempenhos.

As pessoas, sempre as pessoas. Quais abelhas nas suas colmeias de vida. Labutando nas associações, instituições ou empresas. É o esforço de muitos alimentando o ego de poucos.

Numa semana em que o Cine Clube de Torres Novas assinala o seu 58º aniversário com uma assinalável Exposição Comemorativa na Biblioteca Municipal de Torres Novas  recordando essa inimitável figura que foi Charlie Chaplin, vem-me à memória “O Grande Ditador” de ontem e olho com desdém os pequenos ditadores de hoje.

Olho para todos aqueles que de tão pequeninos serem, não têm sequer a mínima dimensão para o poder que exercem. Para os que nunca perceberão a diferença entre liderar e chefiar. Para os que nunca entenderão que as empresas se fazem com as pessoas e não contra elas. Que não poderá haver Empresas Grandes com práticas pequeninas. Mesmo que constem de todas as listas das “maiores e melhores”.

Este país está pejado de “pequenos ditadores”. Na justiça e fora dela. No Estado e fora dele. Nas empresas e fora delas. Por todo o lado. É um país de subserviências, de compadrios, de liberdade condicionada. Do sim senhor director, (injustamente) seja ele quem for, onde quer que ele esteja. E quem ousar resistir é liminarmente excluído. Deportado. Eliminado. Porque não faz parte da corte, porque ousa pensar ou porque apenas ousa ser igual a si próprio. Porque ser incómodo mas competente tem um custo. E os pequenos ditadores deste país preferem quem não incomode, mesmo que se acomode.

Não falo de mim. Falo de todos aqueles que não têm voz para se fazer ouvir. Que são alvo de julgamentos sumários dos tais pequenos ditadores. Sem direito a contraditório e com cumplicidades várias. E que, infelizmente, continuam a assistir ao ladrar dos cães e à triste caravana dos pequenos poderes.

Por tudo isto, não poderia ser mais oportuna a exposição do Cine-Clube, recordando Charlot e o seu testemunho. A mim, apetece-me desabafar o que escrevi um dia:

“não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer…”

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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