Foto: JGlo, Pixabay

Conta-se que um certo dia, Elísio de Moura entrou num chapeleiro para comprar um chapéu de côco. Quando o chapeleiro, de fita métrica em punho para lhe medir a cabeça, lhe estendeu quatro ou cinco exemplares para escolha, o médico, com a sua habitual bonomia, desconcertou-o com a resposta: “Qualquer medida me serve. É só para trazer na mão…”

E quando alguém lhe perguntava porque andava sempre de chapéu, mas com a cabeça descoberta, respondia invariavelmente: “ É necessário, meu amigo, harmonizar a higiene com a burocracia…”

Não sei o que diria hoje o eminente psiquiatra ao não menos eminente “PCP” (Professor Comentador Presidente) que, para além de usar a cabeça para pensar – honra lhe seja feita, enfia o barrete em tudo o que é sítio. Ele é vê-lo de belo chapéu Scout, qual velho Baden-Powell, cobrindo-lhe a mente brilhante no sol abrasador de agosto, esticando os três dedos de promessa cumprida, ante um bom mergulho nas águas límpidas do burgo, higienizando os espíritos mais turvos. Ou de boné tweed à inglesa, se a ocasião mais british o sugere. Ou ainda e porque não, com um cap à americana, descontraído qb, em qualquer court de ténis, qual passo de corte e costura. Ou mesmo, de touca higiénica na queijaria da ilha, que é o hábito que faz o monge e assim se dança em qualquer palco.

Confesso que pagaria para assistir a um debate a três. Entre o psiquiatra Elísio, de chapéu na mão, cabelos em pé e gravata às três pancadas, o “PCP” Marcelo com um inesperado chapéu, que poderia ser uma boina basca, uma mitra pastoral ou um barrete de forcado e o saudoso Vasco Santana, a quem devo e agradeço o título deste meu texto.

Imagino o princípio de conversa. O “PCP” opinava, gesticulava, argumentava. Vasco dormitava, espreguiçando-se, até ressonar. E o psiquiatra ouvia, ajeitando a gravata, amarrotando a aba do côco. No final, Elísio, suspirava de alívio. Vasco, ali espectador, percebia ser bem melhor continuar como actor e Marcelo, barrete enfiado, continuaria de férias, sozinho, mas sempre bem acompanhado.

Porque se chapéus ainda há muitos, talvez faltem cabeças que os usem…

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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