Câmara da Chamusca. Foto: mediotejo.net

Foi com emoção que a vice-presidente da Câmara da Chamusca fez uma intervenção na reunião de terça-feira, dia 19 de fevereiro, sobre a morte de Ana Maria Silva, assassinada pelo seu ex-companheiro no dia 17, à saída de uma danceteria na Golegã.

A vítima tinha uma oficina de cerâmica e olaria na rua principal da Chamusca, deixando milhares de peças com a sua assinatura, seja em painéis de azulejos – por exemplo nas paragens dos autocarros e em placas toponímicas -, troféus, loiças e outras objetos decorativos.

A morte de Ana Maria acontece poucos dias depois de o Município da Chamusca ter assinado um protocolo de colaboração com a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, tal como sublinhado pela autarca.

“Acordámos ontem com a brutal notícia do homicídio de Ana Maria Silva”, começou por dizer Cláudia Moreira, sem esconder a emoção. “À Ana reconhecemos o valor, o trabalho, a persistência de uma vida de luta e o empenho colocado em cada uma das suas peças, que fazem parte da casa de todos nós”, lembrou, sem deixar de referir as negras estatísticas da violência em contexto doméstico.

Cláudia Moreira, vice-presidente da Câmara da Chamusca. Foto: DR

“A Ana é mais uma morte que não pode deixar de nos envergonhar. 11ª  mulher assassinada em 2019. A 503ª mulher assassinada nos últimos 14 anos. Morrem à pancada, à facada, a tiro…é um murro no estômago que nos deve ferir gravemente a todos, é mais um dia de luto para os direitos humanos”, lamentou.

Para a vice-presidente, o caso da Ana faz relembrar que “os casos de violência contra mulheres são uma realidade próxima de todos nós e que temos todos a responsabilidade de lutar de forma ativa para acabar com esta brutalidade”.

Cláudia Moreira sublinha que “a violência doméstica tem várias formas – maus tratos físicos são violência doméstica; são-no também os maus tratos psíquicos, a ameaça, a coacção, as injúrias, a difamação, os crimes sexuais, a perturbação e a devassa da vida privada”.

Por isso, defende que não nos devemos cansar “de cultivar valores de cidadania, como o respeito pelo outro, nomeadamente nas questões de igualdade de género”.

“Sejamos intransigentes na procura de respostas que evitem que tragédias destas continuem a enfaixar de negro os títulos da comunicação social”, apelou.

A eleita recordou que o Município da Chamusca assinou, no dia 8 de fevereiro, um protocolo de colaboração com a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) para o atendimento presencial na Chamusca por parte de técnicos da equipa móvel de apoio à vítima da Lezíria do Tejo.

O atendimento é realizado por jurista ou psicólogo nas instalações do Centro de Inclusão Social, entre as 9h30 e as 12h30, todas as sextas feiras. Cláudia Moreira refere que este serviço torna “mais acessível a resposta às necessidades de apoio a vítimas que estejam silenciadas pelo medo e pela vergonha, mas também a outras situações emergentes”.

“A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima persegue uma missão determinante no apoio às Vítimas de Crime e a difusão destas respostas é um dever de todos, para que possamos evitar casos futuros, para que outras Anas não continuem a padecer nos nossos braços”, concluiu.

O presidente da Câmara, Paulo Queimado (PS), subscreveu as palavras da vice-presidente e lembrou a ligação próxima que Ana Maria tinha com o município por via da sua atividade criativa na área da cerâmica.

Também lamentando a morte da Ana Maria, a vereadora Gisela Matias (CDU) considerou estarmos a viver “tempos de retrocesso” e mostrou-se preocupada com a “cultura machista e retrógrada em que há a imposição da força”, um problema que, na sua opinião, abrange todas as camadas sociais.

José Gaio

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *