Uma procissão que se repete todos os anos (Foto: mediotejo.net)

Um dia por ano, o desertificado lugar de Tamazim, na fronteira entre as freguesias de Ulme (Chamusca) e Bemposta (Abrantes), volta a ter vida. A Festa do Tamazim, realizada no fim de semana de 26 e 27 de maio, não é uma vulgar festa de aldeia. Tem a particularidade de ser dividida em dois espaços separados por quatro ou cinco quilómetros, sendo que a primeira parte da festa decorre no lugar de Tamazim onde há décadas já ninguém mora.

A parte religiosa tem por base a devoção a Nª Srª da Luz, cuja imagem estava inicialmente na capela do Tamazim, imóvel datado de 1641. Com o fim da presença humana no lugar, por uma questão de segurança, os proprietários da imagem, a família Vaz Monteiro, delegou na filha do último morador a sua guarda, no lugar de Cascalheira, a cerca de dois quilómetros de Tamazim, tudo terrenos propriedade daquela família.

Todos os anos os proprietários cedem a capela de Tamazim para aí se fazer as celebrações religiosas e, na zona envolvente, o convívio do primeiro dia. Tudo começa a meio da manhã, com a saída da imagem e da procissão da Cascalheira (Chamusca) até Tamazim (Abrantes) através de uma estrada de terra e muitas pedras. Ao longo do percurso, acompanhado pelo padre, por freiras e cerca de uma centena de devotos, há orações e cânticos religiosos.

A meio da tarde acontece o percurso inverso e há quem o faça descalço, como promessa. “Há aqui expressões muito belas de devoção”, realça o padre Rúben Marques de Figueiredo, responsável pelas paróquias de Ulme, Parreira, Chouto e Vale de Cavalos, no concelho da Chamusca.

Ordenado padre a 16 de julho de 2017, está ali há pouco tempo e é a primeira vez que acompanha a festa de Tamazim, pouco sabendo da sua história. Sabe que é uma tradição de séculos, reveladora de uma forte devoção Mariana.

“Isto é como ir a Fátima neste espírito muito português de amor a Nossa Senhora, que não se esgota”, afirma o padre Rúben Figueiredo.

Além de jovens que fazem a procissão descalças, são visíveis dezenas de fitas junto a Nª Srª da Luz com mensagens de gratidão e de reconhecimento, por exemplo, de alunos que concluiram os seus cursos superiores.

Terminada a parte religiosa, toda a logística da festa é desmontada no Tamazim e transferida para o recinto de festas do Semideiro, o que significa muito trabalho para os elementos da comissão organizadora.

Vitor Agostinho, principal responsável da comissão que há 19 anos organiza a festa, diz que “é preciso gostar mesmo disto”. “Nada nos move mais do que manter a tradição e contribuir para alguns melhoramentos na aldeia”, sublinha.

O seu avô foi o último morador no Tamazim (era feitor) e é também em memória dele que faz questão de trabalhar para que a tradição não se perca.

“Todos os anos a festa começa do zero, sempre sem dinheiro, fazemos contratos com os artistas sem saber se vamos ter dinheiro para pagar. É um risco, mas tem corrido bem”, revela Vitor Agostinho.

Explica que cerca de metade das receitas angariadas vai para a igreja. Os lucros têm sido investidos por exemplo na construção da capela mortuária, em obras na igreja e agora para a criação do pólo do centro de dia de Ulme. Foi também a atual comissão, formalizada há poucos anos, que mandou restaurar a secular imagem de Nª Srª da Luz.

Antigamente, conta-nos Vitor Agostinho, a festa durava apenas um dia e decorria só no Tamazim. Contratava-se um tocador de gaita de foles ou de acordeão e ali se fazia a festa. Não havia mesas nem cadeiras, nem frango assado ou cerveja. Cada um trazia o seu farnel e, de toalha no chão, fazia-se o pic-nic.

As coisas mudaram com a desertificação do Tamazim e a retirada da imagem sagrada da capela. “Pelo menos uma vez por ano ela volta à casa dela”, refere José Agostinho para explicar a razão da procissão entre Cascalheira e Tamazim e vice-versa.

É um ritual que se repete todos os anos e que os moradores do Semideiro fazem questão de manter de forma fervorosa.

José Gaio

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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