“A CDU tem sido poder autárquico mas não enche as páginas dos jornais com casos de corrupção”, disse João Chaleira Damas, o candidato da Coligação Democrática Unitária à Câmara Municipal de Abrantes.
Ser autarca “é entender o que precisa o vizinho, e o vizinho do vizinho e levar essas necessidades à Freguesia, à Câmara e à Assembleia para que se resolvam os problemas. Ser autarca é gerir os meios públicos como se fossem os seus próprios meios e nunca se esquecer de prestar contas”.
As suas palavras foram escutadas por militantes e simpatizantes do PCP e do Partido Ecologista Os Verdes no tradicional Almoço Comemorativo da Revolução dos Cravos, no dia 25 de Abril, em Abrançalha de Baixo (Abrantes), na Associação de Moradores, uma instituição fundada em 1981 mas com uma sala dedicada a Raúl Campos, onde decorreu o evento, recentemente inaugurada, a 2 de março de 2025.
De cravo ao peito ou na mão, uma vez mais os comunistas celebraram a Revolução que, a partir de um levantamento militar, há 51 anos, teve a adesão e o apoio imediato do povo português, criando uma aliança do povo com o Movimento das Forças Armadas, terminando com a ditadura do Estado Novo e a Guerra no Ultramar.

Além de celebrar Abril, o almoço teve como objetivo apresentar os candidatos da CDU, como Graça Alves, que integra a lista à Assembleia da República pelo distrito de Santarém e é a primeira candidata à União de Freguesias de Abrantes e Alferrarede, Ana Paula Cruz, candidata à Assembleia Municipal de Abrantes, e João Caleira Damas, cabeça-de-lista à Câmara Municipal de Abrantes.
“Falar do 25 de Abril é fácil. Difícil é o resto. É o dia da liberdade, da alegria, da confraternização, da partilha de sonhos. Todos se sentiram libertos da perseguição, da prisão sem julgamento, da tortura, da emigração clandestina, da censura, do analfabetismo que grassava porque a escola quando existia ficava longe, dos partos em casa com parteira e sem médico. Hoje não são em casa são nas ambulâncias como todos nós percebemos nos últimos dias. Portanto há aqui um retrocesso que é preciso inverter e com urgência”, afirmou Chaleira Damas.
Sem deixar de fora o panorama internacional, as redes sociais e a desinformação através de “falsas notícias sempre presentes nos telemóveis”, o candidato da CDU afirmou a preocupação com “as ameaças recentes” mas disse estarem os comunistas “preparados para as enfrentar e vencer”.
Fazendo uma comparação com a censura do Estado Novo e agora “tudo”, considera que poderá ter um efeito mais perverso, uma realidade “para a qual temos de estar alertados”.

Antes de Abril, afirmou, “havia poucos médicos, enfermeiros e hospitais. Hoje temos o Serviço Nacional de Saúde que visto por dentro é diferente e muito melhor do que nos relatam todos os dias”.
A Segurança Social, que trouxe as reformas e cuidados na velhice, e o direito à reunião, também foram referidos por Chaleira Damas como direitos conquistados com a democracia. Falando da atualidade alertou para outra realidade: contrariamente ao passado “hoje os capitalistas financeiros escondem-se por trás dos meios proporcionados pelas novas tecnologias, é um problema sério, novo e preocupante, não lhes conhecemos o rosto”.
Lembrou que antes do 25 de Abril os jovens “tinham a vida adiada até aos 24 ou 25 anos porque a guerra se lhes impunha”. Por isso apelou para que “cuidemos do que Abril prometia e foi implementado, cuidemos do que Abril prometia e continua adiado e hoje está em retrocesso. Cuidemos de nos organizar, se não nas empresas, porque trabalhamos em casa, que seja nas associações de moradores como esta, nas associações de bairro ou nas que venham a surgir”, não permitindo que “tudo isto funcione sem a nossa intervenção. É evidente que os partidos políticos têm a primeira palavra nesta matéria. Cuidemos nós da democracia que os militares em 1974 fizeram o que tinham a fazer”, disse.
Sobre as eleições autárquicas, que terão lugar no final de setembro, início de outubro, João Chaleira Damas garantiu que “a CDU vai trabalhar para eleger representantes em todos os órgãos a que se vai candidatar” e deu conta que “os programas estão a ser elaborados, abertos aos contributos e sugestões de todos”.
Referiu que a força política “irá trabalhar para tirar a maioria absoluta ao Partido Socialista” sabendo que nas últimas eleições autárquicas mais de 21 mil eleitores “não votaram no Partido Socialista, o qual teve apenas 9620 votos, e mesmo assim o PS tem a maioria absoluta”.
“Ou seja, 70% dos eleitores votaram noutros partidos que não o Partido Socialista, votaram em branco, anularam o voto, abstiveram-se, a maioria absteve-se. Temos de conquistar a confiança desses milhares de eleitores, são esses que podem fazer a diferença”, declarou.

Chaleira Damas disse também que a CDU “tem acompanhado a gestão do PS no concelho de Abrantes e a maioria absoluta, nove mil votos, não é o mesmo que ter poder absoluto”, tendo afirmado que “o PS confunde maioria absoluta com poder absoluto”.
O candidatos comunista lamentou igualmente a falta de oportunidade de discutir com os líderes de outros partidos. “As televisões falam ao nível nacional, mas ao nível local há uma falha e essa falha é prejudicial à democracia. Quem tem o poder tem formas de chegar à população”.
João Chaleira Damas, engenheiro mecânico aposentado, tem 74 anos, é natural de Pucariça, Rio de Moinhos (Abrantes), e foi Chefe de Divisão nos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Setúbal, tendo exercido funções enquanto vereador da CDU na Câmara de Setúbal e de eleito na Assembleia Municipal de Setúbal. Vai agora tentar integrar o executivo de Abrantes, algo que não acontece com a CDU desde 2017.
O candidato comunista considera que o atual presidente da Câmara Municipal, Manuel Jorge Valamatos, tem um comportamento “antidemocrático” do estilo “quero, posso e mando”. No seu discursos também não esqueceu “os elevados custos da água, do saneamento, dos resíduos, do IMI e das taxas é também uma característica de Abrantes, que tem uma situação financeira boa” mas à custa dos munícipes que têm de suportar bens essenciais a preços muito elevados, considerou. Apontou ainda a falta de saneamento básico e o número reduzido de transportes coletivos entre freguesias.

Lembrou os presentes no almoço do 25 de Abril que “a CDU é experiente na gestão autárquicas, sabe o que pode fazer, pode fazer mais e pode fazer melhor. Tem provas dadas em concelhos de pequena dimensão como Barrancos, de média e de grande dimensão, como Setúbal, como Almada, como Évora. Só a coligação de esforços entre partidos, entre PS e PSD é que conseguem afastar a CDU. Tem provas dadas com muito trabalho, competência e total honestidade”.
Já Ana Paula Cruz, candidata à Assembleia Municipal, lembrou que “foi a coragem dos militares de Abril, com o apoio inabalável do povo português, que abriu caminho à construção de uma sociedade nova — mais justa, mais livre, mais democrática”.
Recordou que “com Abril, conquistámos o direito ao trabalho- com direitos, ao salário mínimo, à greve, à organização sindical, à saúde, à educação, à habitação, à segurança social. Foi criado o Serviço Nacional de Saúde, universal, geral e tendencialmente gratuito. Foi o 25 de Abril que trouxe a liberdade e a democracia política, mas também apontou o caminho para uma transformação social e económica profunda. E no seio desta nova ordem democrática emergiu uma das suas mais belas expressões: o Poder Local Democrático”.

Uma proximidade que deve ” responder aos problemas concretos, tem sido posta à prova. Com o processo de transferência de competências, muitas autarquias têm sido confrontadas com novas responsabilidades — especialmente em áreas como a educação, a saúde ou a ação social — sem os recursos adequados para as exercer com dignidade e eficácia. A descentralização, para ser verdadeira, não pode ser apenas uma transferência de encargos. Tem de ser acompanhada de financiamento adequado, meios técnicos e humanos, e respeito pela autonomia do poder local”, defendeu.
Destaque também para o que igualmente não esqueceu “a reposição de algumas freguesias que foram indevidamente extintas no passado, ainda há muito a fazer. E é aqui que precisamos de um esforço conjunto, de uma ação política firme. É urgente e necessário passar a uma descentralização no correto sentido, isto é, um instrumento de fortalecimento do Estado democrático e da autonomia das populações”. Defendeu ainda a regionalização, “não podemos continuar a adiar esta reforma estrutural que é essencial para a criação de um país mais equilibrado, mais justo, mais solidário e mais democrático”.

E Abril foi assim celebrando “com alegria, com convicção e com compromisso. Celebramos o passado mas também o presente e o futuro. Apresentamos com a força de palavra, que fala verdade e não vira a cara ao combate, não dizemos uma coisa antes das eleições e depois o seu contrário, temos a vantagem de não prometer agora o que antes rejeitámos. É esta clareza e coerência que, para lá das palavras, dá garantias de uma intervenção que não falha nem engana. A CDU é a força ligada aos problemas concretos da vida das pessoas”, disse, por seu lado, Graça Alves.
No Almoço Comemorativo do 25 de Abril foi ainda apresentado José Pratas como primeiro candidato à União de Freguesias de Rossio ao Sul do Tejo e São Miguel do Rio Torto. A CDU já havia anunciado os candidatos às freguesias de Alvega/Concavada, Mouriscas, Pego e Tramagal.

Carlos Bento é o cabeça de lista à Junta de Freguesia de Mouriscas e Paulo Jacinto é o candidato à presidência da União de Freguesias (UF) de Alvega e Concavada. A CDU avança com João Damas a Tramagal e Patrícia Amaro à freguesia do Pego.
