O caso “Casa Pia” voltou à comunicação social após a saída da prisão de Carlos Cruz. Uma vez mais clama por inocência e afirma ter sido mal julgado. Posto isto, ouvem-se vozes de defesa e outras de desacreditação do “senhor televisão”.
Não vou obviamente tecer comentários sobre se Carlos Cruz e os outros, são ou não culpados. A justiça encarrega-se disso. Quero no entanto esclarecer alguns mitos sobre o abuso sexual para evitar especulações e dissuadir algumas pessoas que acham que este processo é “falso” ou se tratou simplesmente de uma cabala contra alguém.
Mito 1: As crianças não mentem.
A verdade: As crianças mentem. Por vezes são obrigadas ou instrumentalizadas para o fazerem, outras vezes fazem-no deliberadamente.
Mito2: Um homem que tem as mulheres que quer, não vai envolver-se com miúdos.
Verdade: Muitos pedófilos têm vidas normais, estão bem posicionados na sociedade, têm filhos e são consideradas pessoas íntegras/ idóneas.
Mito 3: Se a criança diz que não se lembra como era a casa onde foi abusada, é porque está a mentir.
Verdade: Uma situação de abuso é uma situação traumática. Estranho seria se a criança se lembrasse de todos os pormenores. Mais, muitas vezes são criadas as chamadas “memórias falsas” que resultam do facto de alguém ter sugestionado que determinada situação aconteceu e contaminou aquela memória. A criança chega a acreditar que vivenciou mesmo essa situação. Mas isto pode ser desmontado com uma perícia/ avaliação psicológica.
Mito 4: As crianças sabiam muito bem o que estavam a fazer.
Verdade: As crianças muitas vezes são abusadas e não entendem o que lhes está a acontecer. Por vezes acabam por ter comportamentos sexualizados e de procurar parceiros, sem entenderem o que estão a fazer. Cabe ao adulto travar estas situações e proteger estas crianças. São crianças. Se as orientamos a atravessar a estrada ou a calçar sapatos, temos de as proteger destas situações.
A nossa legislação condena este tipo de práticas. Uma criança até pode procurar um adulto para práticas sexuais, pode “deixar” que aconteça ou mesmo gostar, mas isso não torna legítimo ou legal o acontecimento. Acresce que neste caso em concreto, as crianças estavam à guarda do Estado. Falhámos todos nós com estes adultos de hoje.
