Desde o dia da mãe que a minha colega de trabalho me cobra o imperdoável, ameaçando de enxovalhamento em praça pública, pois não dediquei uma carta de amor à minha mãe, no dia delas. Rio-me. Que há tempo.
Mas esta semana percebi que, se calhar, não se pode adiar, não podemos deixar para amanhã, não há tempo a perder. Cada dia é mesmo único e especial. Porque esta semana perdemos uma das mães do bairro. E nós fomos criadas assim, na casa umas das outras, um pouco por todas, bebendo das influências de cada uma. Porque cada mãe é especial à sua maneira.
Esta semana voltei muito lá atrás, aqueles dias de miúdas, aqueles tempos únicos. Éramos mesmo umas miúdas sortudas.
Termos tido a sorte de ser criadas aqui, na área do bairro, nos quintais, nos jardins, na estrada, nas casas umas das outras, nas subidas ao cabeço da cruz.
Termos tido a sorte de ser criadas por estas mães, todas tão diferentes e cada uma com tanto para nos ensinar.
As mães do nosso bairro não deveriam ser muito diferentes das de outros bairros. Mas eram as nossas. Davam-nos lanche à vez, um dia em casa de cada uma. Riam-se connosco. E o mais importante, tinham em nós os maiores desejos e sonhos do mundo, a esperança de sermos mulheres fortes, donas de nós.
Aconselhavam-nos a estudar, a ter um bom trabalho, a lutar pelo que queríamos e, pelo caminho, a arranjar um bom homem para partilharmos a vida.
As mães do nosso bairro não deveriam ser muito diferentes das de outros bairros, queriam o melhor para cada uma de nós.
Foram estas mães, as nossas mães, que nos criaram, e aos nossos irmãos e irmãs. Que nos compravam roupas novas nos dias de festa, na Páscoa, no Natal e pela festa de verão. Que nos compravam livros, mochilas, alguns caprichos, e que nos davam os sapatos de salto alto que já não usavam, para brincarmos às mulherzinhas. E tanto que brincámos.
As mães do nosso bairro juntavam-se de manhã para beber a bica e comprar o pão no café do meu avô. E era ali, de manhã, que se encontravam umas com as outras, algumas só ao sábado, outras nos dias que podiam. E falavam de nós, dos filhos, dos maridos, dos sogros e dos pais. Da vida. Trocavam histórias e nós ouvíamos e aprendíamos com elas.
Foram estas nossas mães que se desdobraram em conselhos para a nossa vida, que nos acompanharam passo a passo, que nos escolheram os fatos da primeira comunhão. Que nos levaram à escola e à catequese.
Fomos crescendo e elas connosco. Com o coração na mão. E que corações bons tinham estas nossas mães.
Depois deixaram-nos ir fazer o nosso caminho, envolvidas em tudo o que nos ensinaram. Porque, já o disse, tinham em nós os maiores desejos e sonhos do mundo, a esperança de sermos mulheres fortes, donas de nós.
E assim foi.
Tal como nos aconselharam, fomos estudando, arranjámos um bom trabalho, lutamos pelo que queremos e, pelo caminho, arranjámos um bom homem para partilharmos a vida.
E demos-lhes netos.
Que nos ajudaram a criar. Como só elas poderiam fazer. Como só elas sabem. Porque sem elas não seria a mesma coisa. Que mães fantásticas estas, as nossas.
Que nos esforçamos todos os dias por ser, por estar à altura, por praticar agora toda a herança disto de se ser mãe que nos deixaram.
Esta semana perdemos uma das mães do bairro. Que tinha um sorriso especial e brilhava quando o fazia, porque tinha sempre um ar claro e iluminado. Que nos dava os conselhos mais arrojados. A mãe que nos levava à escola num maravilhoso mini vermelho. Que tinha sempre roupas fantásticas para brincarmos às mulherzinhas.
E quando mandei uma mensagem à minha amiga Susana a lamentar, como lamento, muitíssimo, a partida da sua mãe, ela respondeu-me que aproveite a minha, todos os dias. Ela assim fez. Eu assim faço.
E quando nos fomos despedir da mãe da minha amiga, de uma das mães do bairro, senti uma paz imensa como cada vez que me abria a porta, com aquele ar iluminado que tinha, e dizia: “Olha a minha amiguinha”.
Voltei lá, a todas as vezes em que aquela porta se abriu, a todas as viagens no mini vermelho, a todos os lanches, ao cheiro do pão naquela cozinha, porque há coisas que ficam em nós para sempre. Até a quando víamos os vídeos da Madona às escondidas porque tinham um não sei quê de desagradável, que não era para a nossa idade. Voltei àquele sofá junto à lareira onde por vezes só nos sentávamos a conversar e a mãe da Susana nos acompanhava com aquele sentido de humor bom que tinha. E tanto que nos riamos.
As mães do bairro, as mães de cada uma de nós foram tudo o que poderíamos desejar. Boas mulheres, boas mães, excelentes avós. Esta carta de amor, de amor profundo às mães é, acima de tudo, um agradecimento à minha, à da Susana, às outras, às melhores do mundo! As que tivemos a sorte de ter! Com um beijinho eterno “à minha amiguinha”!
