Gosto mais de frio do que de calor. Gosto do outono. Gosto de dias de chuva. Gosto muito de domingos de chuva, em casa. E pronto, a crónica deste domingo de chuva resume-se a isto. Boa semana! Não, não é só isto. Todos temos as nossas diferenças e preferências. E uma explicação para cada gosto pessoal.
Os domingos sempre foram dias mágicos para mim. Os melhores da minha infância. Quando era miúda e tínhamos o café do meu avô, onde a minha mãe trabalhava de segunda a sábado, o domingo era o dia de folga. Era nosso, da família. Era o único dia dos quatro. Quando saíamos, se fazia sol. E quando estávamos, simplesmente em casa, se chovia.
Assim, perfeito. Sem deveres, afazeres, nem rotinas. Minto. Havia uma rotina. Ao domingo, o banho era demorado. De manhã, antes da missa.
Ao domingo era a minha mãe que nos lavava o cabelo, com cuidados especiais. Tínhamos, a minha irmã e eu, uns cabelos longos, muito longos. O meu chegou a medir oitenta centímetros o que é, entenda-se, metade do meu tamanho. Era cabelo com uma pessoa dentro.
O meu cabelo era preto e escorrido, o da minha irmã era castanho e encaracolado, tão encaracolado que fazia canudos perfeitos, sem necessidade de artifícios. Aquele cabelo e um vestido de seda branco com folho na saia e manga em balão valeu-lhe ser a menina das alianças de quase todas as primas da minha mãe.
Mas dizia eu que ao domingo a minha mãe é que nos lavava o cabelo num cuidado demorado e especial que envolvia espremer sumo de limão para lhe dar brilho. Creio que também usou ovos, ou clara de ovo, mas o limão era a sua arma secreta para nos dar brilho ao cabelo. E depois íamos à missa, sempre ao meio-dia, em Mação. Anos, muitos anos mais tarde, outro dia ainda aconteceu, ainda me dizem algumas senhoras da vila que se lembram quando entrávamos na Igreja e se viam aqueles cabelos tão compridos e brilhantes.
Depois vinham as tardes de domingo. As tardes de domingo de chuva. Eram tardes de cinema. Quando só tínhamos dois, depois três e depois quatro canais na televisão não havia muita escolha mas as tardes, felizmente, eram de cinema. As tardes eram de sofá e manta. Nos domingos em que o meu pai ia à caça e ficávamos só as três nem se pensava em jantar. Comíamos torradas e bebíamos chá. A minha mãe bebia café, que nunca foi pessoa de chá.
Assim, perfeito. Sem deveres, afazeres, nem rotinas.
Mais tarde os meus pais fizeram a lareira e os domingos de chuva passaram a ser, também, tempo de ler à lareira. E cheiravam sempre a fumo, os meus pobres livros. Mas tanto que viajei e sonhei naqueles domingos de chuva, à lareira.
O jantar também mudou e, por vezes, passava por se assar um chouriço na lareira. Um dos meus sabores preferidos do mundo. Sabor a domingo ao fim de tarde.
Os domingos de chuva da minha infância são uma das melhores recordações que guardo. O domingo era dia de família, sofá, manta e cinema.
Mais tarde o domingo era dia de partir, de semana fora. Era dia de comboio. E passou a ter outro sentido. Igualmente bom.
Mas ainda hoje gosto tanto de domingos de chuva. Em casa. Em família. O nosso dia. Por vezes as melhores memórias são as mais simples. Digam-me se há alguma coisa melhor que passar um dia de chuva em casa.
Assim, perfeito. Sem deveres, afazeres, nem rotinas.
Boa semana!
