Estava a olhar para a caixa de chá que comprei há dias e que se revelou uma verdadeira surpresa de sabor. Gosto de experimentar sabores novos e acontece que algumas caixas ficam pela primeira saqueta. Esta dizia hibisco, ulmeiro e folhas de freixo. O hibisco não é um dos meus sabores de eleição mas a caixa dizia também Detox e eu sou fraca perante estas promessas de saúde e vida eterna.

Acontece também que, apesar de ser uma gulosa convicta e de excelência, bebo chá e café sem açúcar. Manias. O chá por influência do meu pai e o café por influência de uma colega de casa nos tempos de faculdade. Posto isto, os sabores têm que me agradar mesmo, não há cá artifícios.

Mas dizia eu que este chá tem um sabor que se revelou uma boa surpresa e eu estava a olhar a caixa e a pensar que o chá me faz bem, nos faz bem, e que devia beber mais chá.

Nisto, assaltou-me a dúvida sobre a razão de ser da expressão “falta de chá”. Associava a expressão ao “ser parvinho”, sem noção, mas estava ligeiramente enganada.

Ao que parece é mais uma expressão que remete para o não ter educação ou maneiras.

Pois que, segundo reza a história, o chá, pela altura em que andávamos a desbravar mares e terras, foi uma descoberta que fizemos na China e terão sido os portugueses a introduzir o chá na Europa.

Na altura, século 16, só as classes mais altas, as famílias nobres, tinham acesso a este novo luxo, a este novo gosto.

Ferver uma planta em água era, assim, algo extremamente sofisticado.

A expressão “ter falta de chá”, ficou associada aos que não o tinham, das classes desfavorecidas, os não sofisticados, sem educação nem maneiras.

Volvidos cinco séculos a história é outra.

Essa coisa complexa e sofisticada de ferver plantas em água passou a ser generalizada, inventaram-se saquetas que tornam a coisa mais limpa e há até chá em pó. Prático, útil e acessível a todos.

São bons novos tempos.

Mas se o chá se tornou universal, a falta de chá também se generalizou. Temo ter más notícias mas o ser-se rude, ter falta de educação e de maneiras não é sinónimo de classes baixas, menos instruídas ou com menor capacidade financeira. Podia até dizer que muito pelo contrário, mas para tudo há um meio termo.

Vou ser sincera, às vezes salta-me a tampa (do chá) e fico-lhe com falta. Acontece-me quando me debato ou sou confrontada com outros a quem também lhes falta o dito cujo.

A falta de educação e de maneiras é mesmo uma prática generalizada. E calha a todos. Depende do dia e da hora.

Mas há os especialistas, claro. Isto da falta de maneiras associado a classe de pertença tem realmente que se lhe diga. O preconceito não é novo, aliás, de novo tem muito pouco.

Mas teimamos nele.

Especialmente quem acha que tem “um rei na barriga”, que é como quem diz, quem se dá muita importância. Depois há de tudo e para todos.

E aqui, parecendo que se muda o tema, estamos efetivamente na mesma página.

Há os que se acham mais do que os outros, e quando digo acham é porque o não são efetivamente. Muitas vezes disfarçam-se inseguranças e talvez traumas de infância e olham-se os outros de cima, como quem tem o coitado do rei na barriga e acha que os outros não sabem ferver plantas em água.

Se há coisa que já aprendi com a vida é quem quem mais se faz, menos o é. E quem o é, efetivamente, não precisa de o fazer notar.

Isto aplica-se a muitas coisas mas, já que o tema hoje é mesmo chá, ou a falta dele, é tudo muito simples.

Quem aponta o dedo e revira o olhos aos que supostamente têm falta de chá há muito que tem o bule vazio. E quem tem o bule cheio de plantas fervidas em água não precisa, realmente, de o demonstrar.

A nervoseira que para aí vai, pensam vocês. Não, nada disso. O tema foi andando. Como vamos todos nós. Uns dias melhor, outros pior. O truque, parece-me, é beber mais chá. Para não ter falta dele.

Vera Dias António

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.