Carnaval de Montalvo. Foto arquivo: mediotejo.net

A tradição de “um bom arraial popular” é o mote para a sátira do Carnaval de Montalvo, mas outros temas por certo não serão esquecidos dependendo da imaginação dos foliões, no entanto, uma coisa é certa: longe do samba e da inspiração brasileira, garante ao mediotejo.net Nuno Cristovão, presidente da Confraria Quintas do Tejo, entidade responsável pela organização do corso carnavalesco que irá desfilar pelas ruas de Montalvo nas tardes de domingo e terça-feira gorda.

“Fazemos reuniões com o objetivo de harmonizar os temas, para não haver grande choque ou temas repetidos. Identificamos qual é o tema da organização e tentamos organizar um compromisso entre todos, sem impor um tema”, começou por explicar.

Segundo Nuno Cristovão, o carro da organização desfilará à imagem daquilo que a JICA – Juventude Inovadora com Atitude fazia, “colocando um camião TIR no centro de Montalvo com um bailarico popular em cima, com um artista pimba e todos os 26 apeados vestidos de pimba chic… coisas populares: roupas, cor, cabeleiras. Há quem tente retratar personagens como João Baião, Carlos Malato, Tânia Ribas de Oliveira. Mas a ideia é a festa popular um pouco à imagem do Carnaval de Torres Vedras, a boa vida portuguesa”.

Nuno Cristóvão, presidente da Confraria Quintas do Tejo. Créditos: mediotejo.net

O responsável afasta um entrudo de inspiração brasileira, incluindo samba, embora anteriores edições tenham contado com bailarinas profissionais contratadas “para dar outra qualidade”, justifica, referindo que tal está colocado de parte por “esbarrar nos recursos financeiros, uma vez que o orçamento é sempre limitadíssimo. Normalmente não temos apoios, o que o Carnaval gerar é o que servirá para pagar o Carnaval. Os apoios que existem são mais burocráticos, designadamente a Câmara intercede junto da Sociedade Portuguesa de Autores para autorizar a música a passar, a Junta de Freguesia intercede junto da GNR e financia os gratificados dos agentes. Às vezes conseguimos um financiamento ou outro de uma empresa mas as empresas ou privados já ajudam de forma voluntária e não pedimos dinheiro quando sabemos que, se a coisa correr bem, ou seja se não chover, o evento é auto sustentável”.

Para entrar no recinto, ou melhor nas ruas por onde o Carnaval desfilará – cerca de 1 quilómetro a descer e o mesmo quilómetro a subir no regresso ao ponto de partida -, os visitantes não têm de pagar, o evento é gratuito mas a organização realiza um peditório durante o desfile. Contudo, o Carnaval faz-se com muitos apoios “à boa maneira carola”, assegura.

Uma equipa de 26 pessoas trabalha, nesta última semana, na decoração e criação das personagens e dos carros alegóricos que vão sair à rua durante o Carnaval de Montalvo, contudo, explicou, o número total de pessoas que ajudam a erguer o evento de dois dias ascende a 200 elementos que irão desfilar, embora “a população tenha aquele desabafo do costume: é uma pena que deixem acabar tudo. Sendo certo que cada vez há menos população envolvida”, lamenta.

Durante anos largas centenas de pessoas participaram nos festejos carnavalescos organizados pela JICA. Foto arquivo: mediotejo.net

Ressalva, todavia, ser notório que a população de Montalvo “gosta deste evento em particular, porque mete em Montalvo, numa tarde de sol, mais de mil pessoas”. Os desfiles de anos anteriores mostraram que as pessoas chegam de vários pontos do distrito de Santarém.

“Um evento que a população acarinha muito, sentimos isso, sim! Mas não se envolve tanto quanto podia, por exemplo, na Linhaceira sei que toda a população se envolve no Carnaval. Há carros daquele corso onde uma única pessoa gasta dois ou três mil euros do próprio bolso para o evento ter a qualidade que tem. Em Montalvo não acontece nada disso”, aponta.

A poucos dias do primeiro desfile de Carnaval (no domingo, 19), a azáfama toma conta das garagens e das casas de quem trabalha para pôr de pé o Carnaval de Montalvo: é preciso concluir colagens e pinturas nos oito carros alegóricos e dar os últimos retoques nos fatos de todas as personagens que vão colorir o evento.

“Cada grupo organiza-se, ou é de uma associação ou de um grupo privado. Daí a Quinta Dona Maria funcionar como base mas no fundo só serve para quem não tem sítio para trabalhar em casa. As pessoas preferem todas trabalhar no conforto da sua casa, da sua garagem”. Aguarda-se que no próximo sábado os carros alegóricos estejam agrupados e preparados para desfilar a partir da Quinta Dona Maria.

Carnaval em Montalvo, no desfile de 2019

O Carnaval de Montalvo conta também com um grupo extra concelhio, da Amoreira (Abrantes), “grandes amigos, sempre prontos para ajudar e para participar nestas coisas. E é um pouco assim; grupos independentes, cada grupo faz o seu carrinho. A Confraria, no âmbito da organização e no seguimento daquilo que já fazia com os elementos na altura da JICA, financia até determinado montante a conceção dos carros” no sentido de “motivar as pessoas a meterem-se nisto. Cada vez são menos”, lastima.

A Associação de Pais do Agrupamento de Escolas de Constância também foi convidada a participar no desfile tal como Os Quatro Cantos do Cisne – Associação para o Desenvolvimento Social e Comunitário, que vai trazer até ao corso 80 crianças.

O Carnaval de Montalvo está orçamentado em quatro mil euros, excluindo os mais de mil euros para o serviço de licenciamento para a comunicação pública de música gravada adquirida através PassMúsica e da Sociedade Portuguesa de Autores e dos cerca de 500 euros para a segurança e trânsito a cargo da Guarda Nacional Republicana.

Quando era a juvenil JICA – Juventude Inovadora com Atitude, a organizar o Carnaval em Montalvo. Foto: DR

O Carnaval de Montalvo nasceu teria Nuno Cristovão uns 10 anos (hoje tem 43). Considerando-se “um jovem” conta ainda preservar as memórias de ir fantasiado “de Zorro em cima de um trator”. Não obstante a vontade de brincar e a boa disposição, sem renovação dos elementos organizativos deu-se uma interrupção numa atividade que se tornou tradição em Montalvo.

O Carnaval regressou em 2004, com o próprio e “outra rapaziada de Montalvo, que tem muita mão de obra e gente com vontade de trabalhar”. Formaram a associação juvenil JICA cuja “missão” também passava por “preservar os costumes de Montalvo. O Carnaval foi a primeira atividade que agarrámos, desenvolvemos e fizemos explodir. Regulámos a atividade. Ainda hoje os moldes são os dessa altura, financiámos, organizávamos, mas também a JICA enquanto associação juvenil, terminou”, em 2019, por falta de listas candidatas à direção e de uma sede para poderem exercer as suas atividades.

A Confraria nasce com alguns elementos da JICA já seniores. A Confraria Quintas do Tejo é uma associação sem fins lucrativos que nasceu especificamente para restaurar a Quinta Dona Maria, local onde conversámos com Nuno Cristovão.

Atualmente abandonada, no início do século XX era uma das quintas mais prósperas do concelho. Possuía grandes propriedades na região, onde predominava o cultivo do olival, da vinha e dos cereais. Com uma agricultura tradicional, ocupava grande número de homens, mulheres e crianças de Montalvo.

A Quinta Dona Maria é hoje propriedade do município de Constância, que pretende transformar aquele espaço no futuro Museu Quintas do Tejo, com o intuito de preservar a memória das antigas atividades agrícolas, através dos utensílios, equipamentos e ferramentas outrora utilizados pelas populações e que são testemunhos vivos de um tempo e espaço únicos e de uma cultura identitária que tende a desaparecer.

Nuno Cristóvão, presidente da Confraria Quintas do Tejo na Quinta Dona Maria. Créditos: mediotejo.net

A Confraria apresentou um projeto ao Turismo de Portugal “na altura da covid-19 foi chumbado, não foi dado como viável mas eram tempos difíceis”, justifica Nuno. Entretanto “temos a expectativa de poder desenvolver alguma coisa por este imóvel que bem merece e está no centro de Montalvo”, explica, acrescentando que a ideia passa por “restaurar todos os casarios que estão caídos. A Câmara já fez algum trabalho mas os recursos financeiros são sempre limitados, de forma a fazer um museu etnográfico com as atividades que se desenvolviam aqui na época”, como o azeite, o vinho, gado e cereais.

“Temos como ideia também preservar os costumes locais no que diz respeito à gastronomia de Montalvo” como as migas com bacalhau, migas com entrecosto assado, borrego, vinca recordando que “a Dona Maria oferecia na Páscoa um almoço de borrego a toda a população e vestia as crianças. E queremos preservar a boa gastronomia de Montalvo à boa maneira dos confrades, sentar as pessoas à mesa e fazer uns saraus”, esclarece.

Nuno Cristovão justifica o empenho com “o bichinho associativo que é muito difícil morrer”, até porque cresceu no meio, sendo os pais também eles dirigentes associativos. O próprio abraçou o associativismo aos 16 anos, integrando os órgãos sociais da Casa do Povo de Montalvo, formou conjuntamente com outros jovens a JICA em 2004 e recentemente a Confraria.

“Há sempre aquele bichinho de querer fazer alguma coisa pela população”, insiste. Como retribuição “é o carinho e o reconhecimento da população”, por isso nota que as pessoas não se envolvem tanto quanto poderiam mas “acabam por reconhecer e agradecer por mantermos as coisas em funcionamento. É o nosso prémio”, mesmo quando as coisas correm mal, ou seja “ter prejuízo. Aconteceu-nos uma vez ao outra, nomeadamente quando o Carnaval só conseguiu sair num dia em vez de dois. Na altura foi a JICA que assegurou o pagamento, porque tinha fundo de maneio de outras atividades, o que não é o caso desta Confraria”. Resumindo: confiam que o evento se auto sustente e no São Pedro para que não chova.

Carnaval em Montalvo, no desfile de 2019

Lembra que em 2021 não houve desfile. “A Câmara tentou responsabilizar uma associação que à última hora, sem informar ninguém, decidiu não o fazer”. Para o Carnaval de 2023, a Confraria, “em setembro do ano passado, propôs à Junta de Freguesia a organização do evento sendo que outras associações também ajudam, como a Banda vai levar um grupo interessantíssimo de bombos e assim é feito o corso”.

Quanto a “surpresas”, normalmente nascem “da disposição dos participantes”. O que acontece ano após ano passa por “um carro mais impactante ou um grupo de pessoas que chama mais a atenção, pela boa disposição e que acaba por convidar os visitantes, por exemplo, para um pezinho de dança”.

“As surpresas que temos é pelo improviso”, embora reconheça que as pessoas de Montalvo “são desinibidas” e muitas delas “jovens”. Só do ano em que Nuno Cristovão nasceu (1979) contam-se 26, numa freguesia de rondará uns 1400 habitantes (embora nem todos recenseados mas que trabalham nas empresas da região, designadamente na Zona Industrial de Montalvo, neste momento completamente preenchida).

Nuno Cristóvão, presidente da Confraria Quintas do Tejo. Créditos: mediotejo.net

Os desfiles arrancam às 15h00 (domingo e terça-feira). A principal rua de Montalvo estará fechada ao trânsito até ao Sobreiro, desde a Quinta Dona Maria até ao largo onde será o grande centro do Carnaval e onde as pessoas ficam para dançar, findo o corso. Por lá, os foliões poderão encontrar roulottes de farturas e de bebidas. Quem quiser juntar-se ao corso “é sempre bem vindo”, garante a organização.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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