O músico Carlos Dâmaso foi proprietário do restaurante Remédio d'Alma em Constância. Créditos: Ricardo Escada

Mas a vida pode ser madrasta e nem sempre corre como desejamos. Com a perda de Maria João, o seu grande amor, a solidão é hoje uma constante. Fomos conversar com o músico, também avô do campeão de golf Kiko Matos Coelho, e perceber o percurso de vida do homem dos sete instrumentos que acompanhou Pedro Barroso nos palcos e tocou com tantos outros músicos portugueses. Foi o mentor do grupo de música tradicional portuguesa ‘Cantaril’ e ainda compõe para o grupo de teatro de Tomar, ‘Fatias de Cá’.

Sendo músico, cabe na máxima popular “o homem dos sete instrumentos” ou toca algum em particular? Além da flauta, do bandolim, piano, da gaita de foles, guitarra portuguesa…

Toda a gente diz que sou o homem dos sete instrumentos mas não sou de nenhum… tenho um bocado de habilidade. Se me disserem: agora vais fazer um concerto de piano, claro que não! Não tenho bases para isso, mas acompanhar a cantar… Toquei durante 15 anos, com a minha mulher – que tocava piano e bandolim, este último ensinei-lhe, e cantava extraordinariamente bem – toquei durante nove anos, fiz casamentos e batizados, etc. É uma escola. Chegava ao final de março e tinha concertos agendados até ao fim do ano. Conheci o responsável pelo projeto ‘Música nas Aldeias’ e andávamos pelo País a tocar de aldeia em aldeia. Sou mais habilidoso do que estudioso e portanto pego num instrumento qualquer, vejo a afinação e toco qualquer coisa.

O músico Carlos Dâmaso foi proprietário do restaurante Remédio d’Alma em Constância. Créditos: Ricardo Escada

Porquê a música? Também compõe?

Sim, também componho. A primeira vez que me dediquei à música tinha uns 15 anos. Andava no liceu em Castelo Branco e adorava fados de Coimbra. O meu avô ofereceu-me uma guitarra portuguesa – ainda a tenho –, acabei por ensinar guitarra a um amigo e formámos um grupo de cinco, o grupo de fados do liceu. Corríamos tudo, muitas vezes o Orfeão ia tocar a Évora, Beja, onde fosse e nós também íamos e tocávamos no fim da atuação do Orfeão. O filho do reitor era o viola e o reitor coimbrão, tinha tirado o curso em Coimbra. Completamente austero, um homem do regime fascista, mas toda a vivência que teve em Coimbra transportou-a para o liceu em Castelo Branco. Quando o reitor fazia uma festa em sua casa, o grupo também ia. Jantávamos, tudo sentadinho à mesa com muito respeitinho e quando acabava o jantar dizia: “rapazes, vamos tocar uns fados?”. Ele cantava o fado ‘Igreja de Santa Cruz’ e depois ia para a cama. Era quando ficávamos bem, a divertir-nos até às 3 ou 4 da manhã. Foi o meu primeiro contacto com a música. Fazer ginástica não era comigo, nem desporto, nem futebol, nada! Só tocar. Eu passava horas inteiras a ouvir rádio e havia um posto na Emissora Nacional que na tarde de sábado passava fados de Coimbra durante uma hora, das 18h00 às 19h00. Impreterivelmente estava ali a ouvir e a tocar e depois arranjei uns colegas e todos os fins-de-semana fazíamos serenatas às cachopas.

Então o seu avô ofereceu-lhe uma guitarra portuguesa. E quem o ensinou? É autodidata?

Mais ou menos. Andei ali durante um ano… estiquei uma corda – a guitarra tem 12 cordas – e o que ouvia na rádio tocava tudo, com uma palheta. Depois a minha mãe descobriu um músico, perto de casa, que ensinava acordeão. Andei lá um mês, dia sim dia não, uma hora, ensinou-me a tocar um fado maior, um fado menor, ensinou-me a afinar a guitarra e “agora vai à tua vida”. Ensinou-me o que sabia! Mais tarde fiz quatro anos de Conservatório, em Lisboa, mas não de guitarra. Estudei canto, música e piano e ano e meio flauta transversal. Gostava mesmo de flauta transversal, o professor ao fim de um ano e meio adoeceu e nunca mais me preocupei em procurar outro professor porque gostava muito dele. Depois foi o contacto, conhecer outras pessoas e formar bandas.

Portanto prefere a flauta transversal…

E também gosto de gaita de foles. Tenho uma que vai ficar para o meu neto de 19 anos, comprei-a em Espanha. Caríssima! Mas na altura ganhava tanto dinheiro na música que não me importava com o preço. Tive um grupo de música tradicional portuguesa que era o ‘Cantaril’ e fomos tocar à Galiza, a Santiago de Compostela, a convite do músico Júlio Pereira, um festival onde tocavam músicos de várias partes do mundo. Tinha uma gaita de foles mas nada de especial e vi um tipo a tocar com uma gaita de foles que era algo extraordinário. Indicou-me o construtor, chamava-se Mourinho. Estive com a minha mulher e mais outro casal, sentados dois dias à porta do Mourinho, para o apanhar e encomendar-lhe uma gaita. Era comer e beber um café à vez, nunca deixámos a porta sozinha na esperança que chegasse, não podíamos! Estava no café, na casa de banho, entra o meu amigo a dar conta da chegada do homem. Era muito importante ter uma gaita de foles feita por ele porque gostei muito do som. Utilizava madeira granadilho, uma madeira preta exótica, e pele de cabra. Entrei para encomendar o instrumento e mostrou-me as gaitas que fazia em várias cores; vermelho, amarelo, azul. Não queria nada daquilo, quis preto, com as franjas em preto e as uniões, com os tubos, em cobre. Demorou três meses e custou quase três mil euros. Foi entregue no Porto onde o construtor ia buscar cortiça para fazer os instrumentos. Como estava a tocar com o Pedro Barroso, a minha mulher foi ao Porto buscar a gaita; construída tal como tinha pedido. E trouxe-me um recado do Mourinho: foi a gaita mais bonita que fez na vida e que só não a vendeu porque estava prometida para mim. E lá tenho a gaita.

O seu neto também é músico?

Não. O Francisco é um campeão, jogador de golf. Compete como Kiko Matos Coelho e está nos Estados Unidos. Foi estudar para o Arizona porque em Portugal não existe a Universidade de Desporto que ele ambicionava. Inscreveu-se nas duas melhores onde os candidatos só entram por convite; no Arizona e no Alasca. Foi convidado para as duas e escolheu a Arizona State University. Portanto, música zero mas faço questão que fique com a gaita de foles.

O músico Carlos Dâmaso foi proprietário do restaurante Remédio d’Alma em Constância. Créditos: Ricardo Escada

Fez parte da banda que acompanhou o cantor Pedro Barroso. Como foi essa vida pelo País fora a tocar e a cantar?

O Pedro Barroso convidou-me para tocar com ele, flauta. Mas tinha no grupo um músico muito bom, o Sérginho da Flauta. Era excelente, acompanhou Zeca Afonso, José Mário Branco, todos.! Mas o Pedro insistiu e justificava que o artista era ele. E como tocava vários instrumentos, ora levava a flauta, ora a guitarra portuguesa, ora o bandolim e certo dia disse-lhe: “olha pá, tens de me pagar à peça”. Comecei a tocar gaita de foles um bocado por causa do Pedro Barroso, disse-me que tinha um tema que precisava de gaita de foles e foi na altura que fui a Espanha. Comprei um livro, estudei um bocado, fui soprando e consegui tocar aquilo. Até cheguei a tocar com o produtor do Fausto e com o Júlio Pereira, não na sua banda, mas tocava quando a gente se encontrava. Num país pequeno como Portugal os músicos conhecem-se todos. Quando a ponte de Entre-os-Rios abateu, fomos tocar, com o Pedro Barroso, num concerto de solidariedade e estava lá o Júlio Pereira, o José Mário Branco. Um dos músicos que acompanhei foi o Manuel Freire.

Afinal é autodidata…

Sim… tenho algumas bases de música senão era impossível. Estudei piano dois anos, depois estudei canto… mas nunca fui muito apegado às coisas, ia experimentando. Às tantas no Conservatório um professor disse-me que precisava que me inscrevesse em oboé para ele ter horário completo, mesmo que nunca fosse às aulas não havia problema, então inscrevi-me mas nunca lá fui. Na verdade foi uma pena porque podia ter aprendido qualquer coisa.

Teve sempre uma vida ligada à música, tirando os anos que se dedicou ao restaurante ‘Remédio d’Alma’ em Constância…

Sim. Trabalhei oito anos numa empresa de música, a ‘Sassetti’, trabalhava no estúdio de corte/acetato. Na produção do disco em vinil, na primeira fase o áudio é transcrito para as estrias, os riscos, do acetato. Nos estúdios, os músicos gravavam uma fita que depois chegava ao estúdio onde eu trabalhava para, com uma agulha de diamante, riscar um acetato, um disco. Um disco de 20 minutos de cada lado demorava cerca de três horas a fazer. Foram oito anos de trabalho intensivo, trabalhava em média 40 ou 50 horas seguidas. O meu chefe dizia-me: “Vai para casa dormir, pá!” Chegava a casa, comia, deitava-me e, claro, não havia telemóveis e a minha mãe já sabia que me podiam chamar. Às vezes telefonavam para minha casa porque se partia uma planta, o negativo do disco – que servia para imprimir os discos em vinil. O primeiro disco dos The Smiths, que saiu em Portugal, fui eu que o fiz. A primeira banda cujo disco foi feito em Portugal e distribuído para toda a Europa. Durante seis meses aquela fábrica trabalhou dia e noite, com três turnos, para fazer os discos que eram encomendados. Foi um contrato com a ‘Vidisco’ para fazer os discos dos The Smiths, nem sabia que banda era. A partir daí choveram pedidos. Um dia o ‘Circulo de Leitores’ foi ter com o chefe para fazer uns discos. Fiz dezenas de discos de música clássica, que davam muito trabalho a fazer, tinha de estar sempre atento senão as estrias ficavam todas umas em cima das outras.

Tem saudades desses tempos?

Tenho bastantes. Em Lisboa aprendi muita coisa sem me preocupar muito. Quando estudava em Castelo Branco, uma vez fiz um exame de filosofia com a seguinte pergunta: diga quais os graus da consciência – cuja resposta é inconsciente, consciente e subconsciente -, e eu escrevi: grau 1, grau 2 e grau 3. E a professora disse-me: “gostei muito da tua prova! Olha, os graus não são 1, 2 e 3, mas tu tiveste quase três; tiveste zero”. E eu tive de resolver o problema, durante quase um ano não toquei quase nada e dediquei-me a estudar para completar o sétimo ano,. Mas não terminei em Castelo Branco, inscrevi-me do Liceu D. João de Castro, em Lisboa. Depois inscrevi-me na faculdade de Medicina – porque só havia duas coisas para mim; música e medicina. Fiz quatro anos mas cheguei à conclusão que afinal não era para mim, porque dificilmente conseguiria terminar o curso. Uma vez numa aula de anatomia, num anfiteatro com 250 alunos, quando se começou a falar no Serviço Nacional de Saúde, opinei e o professor olhou-me dos pés à cabeça e só disse: “outro!” E fui desistindo… não havia hipótese.

O músico Carlos Dâmaso foi proprietário do restaurante Remédio d’Alma em Constância. Créditos: Ricardo Escada

O que tem por base quando compõe, alguns sons tradicionais?

Vou compondo… não se pode chamar composição. De música tradicional tenho dois ou três discos gravados do grupo o ‘Cantaril’. Entretanto conheci o grupo de teatro ‘Fatias de Cá’ – pertenço ao Fatias de Cá desde sempre – e o Carlos Carvalheiro um dia perguntou-me se não tocava bandolim. A primeira peça que compus para eles foi ‘A Menina Inês Pereira’. E foi o princípio. A base da minha composição é a minha cabeça. A última vez que compus para o ‘Fatias de Cá’ foi para a peça ‘Relvas’ segundo Alves Redol. É música mais tradicional, mais viva, na qual também interpretei o papel de rei D. Carlos e gosto de interpretar embora tenha agora algumas dificuldades porque vejo mal, mas mesmo em Castelo Branco sempre entrei nas récitas do final de ano. Uma vez fiz de São José. Sempre fui um homem ligado às artes. Para criar música não me inspiro em nada, oiço uma conversa, por exemplo, e faço uma música. Consigo fazer uma música consoante as situações. Penso ser capaz de traçar o perfil de uma pessoa musicando-a, correndo o risco da pessoa ouvir e não se identificar. Agora continuo a compor mas muito menos.

O Carlos também teve as suas bandas de garagem, nos anos 60, 70 e 80 em Lisboa, durante o tempo da universidade e trabalho em Lisboa. Naquela época ganhava-se dinheiro na música?

Sim, ganhei muito dinheiro na música. Íamos tocar em bailaricos. Nos anos 1970 éramos quatro músicos e cinco indivíduos que ajudavam a desmontar as coisas, tratavam das luzes e fomos a primeira banda que apareceu na zona – e quase em Portugal – que usava uma coisa chamada strobe light, uma luz usada para produzir flashes regulares, dançávamos e parecíamos bonecos autênticos, e máquina de fumos, que usava gelo, e disparava baforadas de ‘fumo’. Ninguém tinha aquilo! Tocávamos Pink Floyd, Genesis e bandas do género enquanto outros tocavam “se queres ser minha amante”. A banda chamava-se Stelamaris, mas certa vez numa sociedades de recreio, aconteceu em Odrinhas, o palco era muito pequenino e estava lá uma placa com OGPMR – O Grupo que Põe as Mulheres na Rua. Porque as mães quando viam as filhas a dançar aquelas músicas de rock levavam as filhas para casa e ficávamos a tocar só para gajos. E também com o Pedro Barroso, sempre me pagou muito bem e, acabava de tocar, metade do que recebia era para despesas e outra metade para investir em instrumentos, por isso tenho imensos instrumentos. Recordo uma vez no Dramático de Cascais – nós íamos assistir aos concertos numa zona que funcionava tipo bastidores, onde se ouvia melhor e dava para ver o trabalho dos músicos -, logo a seguir ao 25 de Abril, veio cá a banda norte-americana ‘Cheap Trick’, a pior banda que já vi mas da qual tive mais inveja. O rapazinho tinha 14 guitarras, eu só tinha uma e depois tive duas. O vocalista era loiro vestido de fato cor-de-rosa, a gente nunca tinha visto ninguém assim. A malta vibrava quando cantavam o tema I Want You to Want Me, mas fez uma coisa que lhe ia custando a vida; numa distorção na guitarra que parecia um avião de um lado para o outro, a determinada altura gesticula a queda, tira a guitarra, deitou-a para o chão e põe-lhe o pé em cima. A guitarra estava pintada com a bandeira nacional. A segurança foi logo tirá-lo dali senão corria muito mal… foi uma cena nunca vista.

Na época antes do 25 de Abril não se podia cantar tudo, ou seja, todo o cuidado com o que se cantava era pouco, porque os ventos políticos assim o exigiam. Tinha essa consciência política?

Pois não. Por causa da política tenho uma história muito engraçada com o Francisco Fanhais, conheci-o ainda padre Fanhais. Mas antes em Castelo Branco, o padre João Farinha Alves, meu professor de Moral, tem agora 81 anos, propôs fazer um espetáculo onde eu cantava ensaiando o que eu quisesse, o chamado Chá Dançante para os alunos do 6º ano do liceu, e cantei Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira. Íamos na terceira música, entram os agentes da PIDE e acabaram com o espetáculo. Ninguém se manifestou, toda a gente se levantou e saiu. Eu e o padre João fomos levados ao Governo Civil, o governador civil era o mais novo que havia em Portugal, tinha 41 anos. Sinceramente cantava aquelas músicas porque gostava não por ter consciência política mas o João Farinha sim, tinha uma visão progressista da política. O Francisco Fanhais gravou o disco ‘Canções da Cidade Nova’ e foi cantar ao programa Zip Zip, da RTP. Em Castelo Branco formámos um grupo, também com o padre João Farinha, para criar um espetáculo semelhante chamado Zip Natal, inspirado no programa televisivo. Voltámos ao Governador Civil, o espetáculo era num domingo às 15h00, tínhamos a sala cheia, mas às 11h00 da manhã já estava cancelado, por causa do Francisco Fanhais, que estava no programa da festa. O governador civil temia que cantasse canções de intervenção, por isso queria saber quais as canções que o padre Fanhais ia cantar, demos a lista, prometemos que não sairia daquilo e esperou que não desiludíssemos. Houve ordem para o espetáculo, começamos o tal Zip Natal entrevistando pessoas de Castelo Branco, como o presidente da Câmara, o presidente da Junta etc, na segunda parte subiu ao palco o Francisco Fanhais. Subiu o pano, entrou e sentou-se no banco, a primeira coisa que disse foi: “deixa-me lá tirar os óculos que gosto de ver as pessoas sem ter nada entre elas”. Era o pronuncio de que algo se ia passar. O padre Fanhais cumpriu mas às tantas vejo o padre João Farinha a parar aqui e a parar além e além, andava a dizer às pessoas para pedirem ao Fanhais que cantasse ‘O General’, a canção mais política que pode haver. Mal canta aquilo entra logo na sala uma quantidade de agentes da PIDE e o espetáculo acabou. O Fanhais partiu e a organização lá foi novamente ao Governador Civil, os jovens foram dispensados mas ficou o padre João, mais de uma hora. Saiu a dizer que não havia problema algum, porém ao fim de meio ano a Santa Sé enviou-o para uma aldeia isolada. Uma forma de o calar.

E com o seu grupo ‘Cantaril’?

Com o ‘Cantaril’, era música tradicional, nunca houve problema, mas um dia num concerto na Galiza disseram-me que se cantássemos a Grândola Vila Morena os prédios vinham abaixo. Certo é que em todo o lado estavam colados cartazes que diziam “Galiza no es Espanha”, queriam a independência. Cantámos, um espetáculo de uma hora e tal, os espanhóis conheciam os temas, até sabiam a letra do O barco vai de saída do Fausto. Mas quando entrámos a primeira pessoa a falar fui eu, e disse “Olá Espanha boa noite”. Caramba, entraram logo uns tipos no palco à minha volta e já estava tudo a subir pelo palco acima, pensei: estou desgraçado! E numa tentativa de remediar a situação, afirmei: “perdon, no, porque Galiza no es Espanha”. Tudo para baixo. Na Galiza, nunca vi tanta gente a cantar a Grândola, mais de 7 mil pessoas.

Sendo beirão radicou-se com a sua mulher, Maria João Franco, de origem açoriana, em Constância. O que os trouxe até aqui?

A minha mulher era uma excelente cozinheira, uma mulher de muito bom gosto, exceto ter-me escolhido. Vivíamos em Lisboa, tínhamos 49 anos, e andámos há nove anos a tocar de Norte a Sul do País. Viemos a Constância ao bar ‘Trovador’, onde tocámos durante dois anos. Na altura não havia mulher nenhuma a cantar nos bares. Como disse trabalhei na ‘Sassetti’, depois trabalhei na editora discográfica ‘Discossete’, onde me chateei com a patroa porque não me pagava – a certa altura perguntou-me se eu não queria um sintetizador, respondi-lhe que não comia sintetizadores -, ficou-me a dever seis ou sete meses de salário. A minha mulher, Maria João Franco, trabalhava numa empresa que vendia snookers e bilhares, em Lisboa, mas quis vir viver para Constância. A proprietária da casa que quisemos comprar, era uma senhora que negociava antiguidades. Vivia na Estrela (Lisboa) e fomos a casa dela, que parecia um museu. Perguntou-me se era o irmão do presidente da Câmara de Abrantes que também estava interessado na casa. Disse-lhe que não, mas se a casa era para o irmão do presidente, não havia problema. Mas a Maria João falou com ela, às tantas perguntou-lhe se era das ilhas, e a senhora era da Madeira. Explicou-lhe que era dos Açores e a senhora perguntou logo quem era a família dela – tinha de haver família nisto. A Maria João disse-lhe que era filha do médico, o dr. Franco, a senhora ao saber quem era a mãe da Maria João disse logo que a casa era para ela. Foi assim que viemos para Constância. E abrimos o restaurante ‘Remédio d’Alma’, de portas abertas durante 15 anos. Conheci o Pedro Barroso no bar onde tocava, embora já o conhecesse da escola onde a minha primeira mulher era professora, devido a um espetáculo que lá fez.

Sei que tocava flauta e guitarra da terra (guitarra característica dos Açores), na Ilha de São Jorge, com o Pedro Barroso, mas não foi aí que conheceu a sua mulher, Maria João?

Não, foi em Lisboa. Estive durante dois anos e meio na Nestlé, a Maria João era casada com um administrador da Nestlé. Estavam a formar um grupo de música tradicional portuguesa, o baixista da minha banda estava a tomar conta daquele projeto mas através dele acabei por ficar responsável pela formação do grupo. Disseram-me, na altura, que se os 200 trabalhadores da fábrica quisessem pertencer ao grupo tinha de os aceitar, acabei com 35 pessoas que queriam aprender a tocar um instrumento. A Maria João como era mulher do administrador quis integrá-la no grupo, começou a aprender bandolim, cantava muito bem e apaixonámo-nos. Ela dizia que se apaixonou pelas minha mãos mas nunca percebi como uma mulher como ela pudesse gostar de mim.

O músico Carlos Dâmaso numa peça de teatro do grupo Fatias de Cá. Créditos: FdC

E como foi essa experiência de andarem juntos a cantar pelo País?

Muito engraçada. Ela além de cantar sabia tocar piano e bandolim. Nunca ensaiávamos em casa era sempre no carro, em viagem. Íamos o caminho todo a cantar. É muito difícil encontrar pessoas que casem bem as vozes mas nós casávamos muito bem. Cantávamos Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco, músicas dos anos 1960.

Como a Maria João era açoriana tem portanto um passado musical também ligado à música tradicional dos Açores?

Sim. Também. Cantávamos ‘Ponha Aqui o Seu Pezinho’, e eu fazia voz com pronuncia dos Açores. A Maria João não tinha muito sotaque, veio para o continente muito cedo, foi hospedeira cinco anos na TAP e perdeu um bocado o sotaque.

O músico Carlos Dâmaso foi proprietário do restaurante Remédio d’Alma em Constância. Créditos: Ricardo Escada

O amor, viajar, a música, comer são remédios para a alma. Foi por isso que abriu um restaurante em Constância?

Como disse, a minha mulher cozinhava muito bem. E no restaurante era praticamente a cozinha de casa. Cozinhávamos um bife com carne dos Açores, com pimenta dos Açores, uma especialidade. A primeira vez que a vi a fazer o bife corri para o extintor para apagar o fogo, mas a receita era mesmo assim; queimava a gordura e ficava apenas o molho. Aprendeu com a mãe e gostava muito de cozinhar. Tínhamos uma equipa mas a Maria João estava sempre lá a dar indicações. Foi ela quem escolheu o nome do restaurante, que podia receber até 52 pessoas, só mais tarde soubemos que havia uma música com a expressão ‘Remédio d’Alma’. Foi ela quem o decorou, também com instrumentos musicais e cornetas em bronze que eu trouxe de uma feira em França.

O ‘Remédio d’Alma’ era então gerido pela sua mulher, entretanto fechou. Com a morte de Maria João deixou de fazer sentido?

Quando a Maria João adoeceu, com cancro no pulmão, fechámos. Não podia apanhar calor. O restaurante podia continuar com outra equipa mas não se podia chamar ‘Remédio d’Alma’. Quando abrimos no ano 2000, uma sobrinha minha comprou-me um livro com capas de madeira e folhas de algodão e a Maria João achou engraçado para livro de honra. Só ao fim de cinco anos é que encontrei a primeira pessoa para abrir o livro de assinaturas; foi o ator Ruy de Carvalho. Era um homem muito emotivo e estranhou o livro das dedicatórias e assinaturas estar todo em branco. Expliquei-lhe que a primeira folha era para ele. Chorou.

Quais eram os pratos mais pedidos?

Além do bife era o bacalhau à Remédio d’Alma, uma posta de bacalhau coberto com broa e alho e batatas esmagadas. Uma senhora um dia exclamou: “ah! são batatas a murro” e eu respondi: “não minha senhora, a gente aqui não trata mal a comida”. Também o caril de camarão e a sopa de peixe, foi um pescador de Constância que ensinou a Maria João, e morcela dos Açores com ananás.

Portanto, o seu papel no restaurante era chefe de sala?

Não me chame chefe. Trabalhávamos uns com os outros. Eu servia as pessoas como qualquer outra pessoa servia. Mas era eu quem organizava, sim.

Que pessoas famosas recebeu no seu restaurante?

Passava por lá muita gente famosa: Xutos & Pontapés, Rao Kyao, maestro Vitorino de Almeida, João Pedro Pais, Batista Bastos, Paco Bandeira, o escritor José Saramago, Manuel Freire, Nuno Guerreiro dos ‘Ala dos Namorados’, Santos e Pecadores… e tantos outros.

O restaurante foi uma aposta na comida tradicional mas também na música. Foi a música que vos uniu?

Sim, foi a música que nos uniu. Um dia disse-me: gostava tanto de cantar nos bares onde vais. E eu respondi-lhe que aparecesse lá.

Mantém-se em Constância, onde tem um estúdio de música, não regressou nem às suas origens nem a Lisboa. A vila poema é hoje uma terra diferente?

Sim, já teve mais pessoas, Constância tinha outra dinâmica. As pessoas vinham cá até no inverno para ver as cheias do rio Zêzere. Às vezes andava mesmo aflito a servir as pessoas e com a água do rio cá em cima. Quando o restaurante encerrou, a Júlinha [Júlia Amorim] era a presidente da Câmara e veio ter comigo pedindo que não fechássemos porque iria causar um grande prejuízo a Constância, dizendo que as pessoas vinham ao restaurante e depois iam ver o rio. E eu disse: “não, vêm ver o rio e depois vão ao ‘Remédio d’Alma’”. Ela respondeu: “é exatamente ao contrário!”. Ou seja, o restaurante era conhecido em todo o País, figurava no ‘Boa Cama Boa Mesa’ desde o ano 2000. Todos os anos estava lá… mas isso de vir em livros é relativo. O restaurante foi uma muito boa experiência.

O músico Carlos Dâmaso foi proprietário do restaurante Remédio d’Alma em Constância. Créditos: Ricardo Escada

Que projetos ou planos ainda tem por concretizar? Ou qual desejo que gostasse de ver realizado, se tivesse uma lâmpada de Aladino?

O plano é só morrer e ser cremado. Um desejo é que duas ou três pessoas amigas que estão a sofrer que estivessem bem. O resto já não me interessa.

Qual a sua máxima de vida?

Não chatear ninguém e que ninguém me chateie.

Constância é portanto a sua casa?

Sim. Comecei a dar aqui aulas de música, agora já não dou aulas porque vejo mal, senão ainda ensinava. Fixei aqui a minha vida e é aqui que morro.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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2 Comments

  1. Senhor Carlos Dâmaso , ė sempre um prazer conhecê – lo mais um bocadinho. .Estou no sítio de sempre. Bem haja.

  2. Um grande homem cheio de mundos e sentimentos. É com enorme gosto que lhe chamo amigo, é com muita alegria que ouço estas e mais histórias.
    Somos ambos “adoptados” por Constância. Uma terra que tem sabor de “ninho” e nos encanta diariamente.

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