Bons Sons regressou em força a Cem Soldos com muita música e o (excelente) ambiente de sempre. Foto: Luís Ribeiro/mediotejo.net

É por entre as ruas e ruelas da aldeia de Cem Soldos que se vão descobrindo os recantos e encantos deste festival, onde se encontra em cada edifício uma tasca e em cada esquina um amigo. Chegados a Cem Soldos começamos a “dar uma volta” e logo percebemos que a festa se faz em todo o lado.

Foto: Rafael Ascensão/mediotejo.net

Passamos por uma pequena garagem e lá encontramos um grupo de músicos acompanhados por alguns curiosos observadores e dois franceses que, cheios de energia, acompanhavam as notas instrumentais com movimentos pulantes e um cântico francês. Isto ao fim da tarde. Mas, já noite dentro, novamente encontrámos esta dupla de terras francófonas… o cântico ainda era o mesmo, bem como a energia.

VIDEO/REPORTAGEM:

Mas continuando a ronda, também no interior de um café no largo de Cem Soldos encontramos um grupo de amigos, estes portugueses, que faziam a festa. Entre os batuques, iam improvisando a letra e celebrando a juventude e a amizade que notoriamente os caraterizava. Entretanto vemos aproximar-se uma das pessoas que estava a servir ao balcão e pensámos que dali sairia uma advertência. Na verdade, foi oferecido um sorriso e devolvido o telemóvel a um dos festivaleiros que ali o tinha posto a carregar.

Nem só com juventude se compõe este festival, o qual é para todos, homens, mulheres, velhos, novos e até patudos. Exemplo disso são as muitas famílias intergeracionais que vemos ao longo do recinto, bem como o caso de Nélson Aguiar, habitante do concelho de Torres Novas e presença assídua do festival, que nos apresentou o seu filho Manuel, de nove anos. E se nove anos tem o Manuel, em todos eles se pode gabar de ter ido ao Bons Sons (exceto os últimos dois devido à pandemia).

Motivo para esta presença infalível no festival é a de, na opinião de Nélson Aguiar, este ser diferente dos habituais e pelo seu ambiente da aldeia, do convívio, o acolhimento das pessoas e o trabalho do SCOCS (Sport Club Operário Cem Soldos), coletividade local que organiza a festa e que “trabalha muito em prol da aldeia, e isso cativa vir cá”, diz Nélson.

Foto: Rafael Ascensão/mediotejo.net

Miguel Atalaia, diretor do Bons Sons, reafirma-nos também numa breve entrevista que o acolhimento e a ideia de este ser um festival para todos é uma preocupação vincada por parte da organização.

“Nós tentamos criar sempre as melhores condições para acolher da melhor forma e acolher toda a gente de todas as idades, de todos os géneros e de todas as características, nós tentamos ser muito inclusivos e criar um ambiente ótimo para o convívio, para o usufruto do convívio e da cultura, é este espaço de criação assim coletivo que eu acho que faz sentido e os festivaleiros também vêm contribuir para isso”, disse o diretor artístico do evento. “Venham numa boa onde para curtir o festival, acho que é o mais importante”.

E foi mesmo para isso que os festivaleiros escolheram Cem Soldos para desfrutar a aldeia no fim de semana alargado, como é o exemplo de Rafaela, Laura e Joana, um grupo de amigas de Leiria que vem pela primeira vez ao festival. Mas vieram através de uma recomendação, tal como nos explicaram:

“O Bons Sons é um festival que tem boa música, o acampamento é fixe, e tem boas vibes”, disseram-lhes, pelo que se questionaram entre si, dando prontamente a resposta: ‘boas vibes? Bora? Bora!!’. E assim as encontramos na aldeia tomarense de Cem Soldos, a espalhar magia, garantindo que as recomendações tinham sido fidedignas, que o festival “é brutal”, e que a presença para o próximo ano é garantida.

Pelo meio destas rondas desfrutámos da música de Acácia Maior, Marta Ren, Rita Vian e Omiri, que se identifica como “um dos mais originais projetos de reinvenção da música de raiz portuguesa”, e que foi uma das grandes surpresas musicais para os festivaleiros, como foi notório pela vivência, comentários e reações de que fomos dando conta durante o concerto.

Aliás, um dos grupos com quem falámos foi mesmo isso que nos disseram, que Omiri foi “incrível”. A conversa com este grupo de amigos surgiu porque todos usavam um chapéu vermelho, cerca de 30 pessoas ou mais, que, mais ou menos espalhadas, íamos encontrando pelo recinto, sempre de chapéu vermelho na cabeça. Curiosos, metemos conversa e logo nos explicaram que são um “grupo de amigos de todo o lado”.

Foto: Rafael Ascensão/mediotejo.net

“Somos um acampamento muito grande e não nos conhecemos todos ou todos se conhecem a todos, e portanto a maneira que arranjámos para nos identificarmos e encontrarmos nos concertos foi termos todos o mesmo chapéu, uma tática já usada na pré-primária mas que resulta bastante bem”, explicaram, entre risos.

“Isto começou aqui no Bons Sons, e são amigos de amigos de amigos, inicialmente era malta da Gafanha da Nazaré, mas depois tinham amigos de Aveiro, de Faro, da Lousã, e na última edição já haviam oito etapas entre um amigo e outro”. O passo inicial para a criação do grupo ocorreu uma vez que as bebidas frescas o levam a fazer muitos amigos, confidenciou-nos a companheira, também de sorriso largo.

Foi no final do concerto de Marta Ren, que com a sua voz poderosa arrebatou os presentes, que conhecemos outro grupo de amigos, um trio. A Sofia, o Gonçalo e a Inês vivem a aldeia de Cem Soldos, mas das duas maneiras, uma vez que são habitantes desta localidade tomarense.

Para Inês, “sem dúvida que viver a aldeia nestes quatro dias é o melhor, mas a outra parte também faz parte para isto acontecer”, pelo que Sofia refere a “pacatez” durante o resto do ano, contrastante com estes quadro dias “completamente opostos”, onde a aldeia ganha outra vida.

“E é um orgulho muito grande trazer tantas pessoas de todos os sítios de Portugal para aqui e mostrar-lhes a nossa aldeia e o nosso festival e ver que as pessoas gostam todas”, diz Gonçalo.

É que a organização do festival é feita em conjunto com toda a aldeia. Existe um envolvimento da “totalidade” de Cem Soldos e das suas gentes, o que por vezes é difícil, como revela o trio, porque envolve também muito “espírito de sacrifício”, mas “estamos todos para o mesmo e queremos muito que esta aldeia se destaque e cresça. Afinal de contas gostamos que este festival aconteça e por isso é que continuamos todos os anos a trabalhar para que isto aconteça”.

Ana Catarina Gameiro, vencedora do passatempo que o nosso jornal lançou para oferecer bilhetes para o festival, com o namorado. Foto: Rafael Ascensão/mediotejo.net

Continuamos o caminho e vem ter connosco uma rapariga a agradecer-nos. Evidentemente desnorteados perguntamos porquê. “É que eu estou aqui graças a vocês, fui uma das vencedoras do vosso passatempo“, diz-nos, identificando-se como Ana Catarina Gameiro, que, de mão dada com o namorado, nos agradece uma vez mais e segue o seu caminho desbravando os encantos de Cem Soldos e do seu festival. Também nós, por esta altura, andamos em reportagem a espalhar sorrisos largos, embora sem chapéu vermelho.

A diversão é muita, o ambiente, incrível, inebria, e assim se vai mantendo conforme a noite vai avançando.

Entretanto esfriou um pouco, mas nada que demova os festivaleiros e nada que umas bebidas não ajudem a suportar. Por todo o lado se respira música e alegria. Os risos misturam-se com as conversas animadas e a música é uma constante.

Quem não está no local dos concertos, não passa sem música. Afastados dos palcos, vemos um grupo de adolescentes fazendo uma roda ao redor de uma coluna que passa hits dos inícios dos anos 2000, dançando e rindo.

“Se houvesse um Woodstock em dimensão bebé, é o Bons Sons, em Cem Soldos”, diz-nos entretanto uma festivaleira quando já nos dirigimos para a saída. E nós acreditamos. de sorriso largo e de alma cheia.

Reportagem, fotografias e multimédia – Rafael Ascensão.

Reportagem fotográfica – Luís Ribeiro.

Relembre todos os horários dos concertos aqui:

Rafael Ascensão

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

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