“A resistência é o manifesto desta edição, mas o próprio festival já é, em si, um movimento de resistência”, afirmou hoje à Lusa João Rufino, um dos dois responsáveis pela programação e direção artística do Bons Sons, ao destacar uma 13.ª edição que pretende afirmar “a música e todas as artes feitas em Portugal”, cruzando tradição, contemporaneidade e novos projetos emergentes.
A edição de 2026 foi apresentada esta terça-feira na Igreja de São Sebastião, em Cem Soldos, espaço que habitualmente acolhe o Palco Carlos Paredes e que, este ano, serviu de cenário simbólico ao lançamento do festival, numa sessão marcada também pelo regresso do evento após o interregno de 2025, ano em que não se realizou, na sequência do retomar da sua periodicidade bienal.

O mesmo espaço não integrará, contudo, o recinto do festival em agosto, uma vez que a igreja vai entrar em obras de requalificação da cobertura, intervenção há muito aguardada pela comunidade e que impedirá a instalação do palco que, desde as primeiras edições, ali tem lugar.
“Quisemos assinalar aqui a apresentação porque, para o próprio festival, pode ser diferente não existir o palco Carlos Paredes este ano, mas para nós a requalificação deste espaço também é um marco importante”, afirmou Filipe Cartaxo, presidente da direção do Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS), entidade organizadora.

Segundo o responsável, a obra representa “um objetivo comunitário” há vários anos assumido pela aldeia, à semelhança da anterior requalificação do Largo do Rossio, concluída antes da edição de 2024.
“Há tantos anos que a comunidade esperava por este momento e, efetivamente, vai acontecer este ano. É mais um dos marcos desta edição, para além da celebração dos 20 anos”, sublinhou.
A 13.ª edição do Bons Sons volta a ocupar o perímetro da aldeia com 10 palcos distribuídos por ruas, largos, eiras, hortas, auditório, garagens e espaços ao ar livre, mantendo a aposta exclusiva na música portuguesa e numa programação multidisciplinar que cruza concertos, dança, cinema, ambiente e atividades para a comunidade.




“Na programação tentamos trazer pensamentos de várias vertentes que achamos importantes, como a valorização da tradição, mas também pensar sempre na contemporaneidade e no futuro, em projetos mais emergentes”, afirmou João Rufino, destacando uma programação “transversal a nível de géneros musicais, mas também de projetos e dimensão de projetos”.
Entre os nomes hoje confirmados para a edição que assinala os 20 anos do festival contam-se Quinta do Bill, Rita Redshoes, Jorge Cruz, Luca Argel, Luta Livre, Cacique’97, 800 Gondomar, Jonas – Maçã de Adão, Xullaji, Miss Universo, Mães Solteiras, MXGPU, Romeu Bairos e Seara, projeto que junta, entre outros, Amélia Muge, Júlio Pereira e Rão Kyao.

João Rufino destacou ainda o equilíbrio entre artistas emergentes e projetos já consolidados, apontando nomes como Romeu Bairos, A Sul e O Mau Olhado, a par de propostas de maior dimensão, como MXGPU, e de “projetos coletivos que traduzem bem esta ideia de resistência e pertença”.
“Há projetos que estão a aparecer mais, outros já vinculados ao panorama musical, mas para nós é importante este diálogo entre tradição, futuro e comunidade, porque é isso que o Bons Sons representa”, afirmou.

ÁUDIO | JOÃO RUFINO, DIRETOR ARTÍSTICO DO BONS SONS:
A edição de 2026 traz também novidades ao nível do território, com o alargamento da programação a espaços fora do centro da aldeia, nomeadamente através do Palco Rosa Ramalho, instalado em hortas e eiras, e o lançamento do “Estúdio de Vídeo de Cem Soldos”, um projeto educativo dirigido às crianças da localidade.
“É um bocadinho trazer aqui alguns projetos mais antigos, alguns que passaram um pouco mais despercebidos, e voltar a trazê-los para continuar a crescer”, afirmou Filipe Cartaxo.
O orçamento do festival ronda um milhão de euros, valor que, segundo o presidente do SCOCS, reflete “a inflação dos novos tempos” e o crescimento natural da estrutura face à edição anterior.
“O orçamento do Bons Sons é muito próximo de um milhão de euros, valor que sofre um pouco aqui da inflação dos novos tempos, em termos comparativos com a edição anterior”, afirmou Filipe Cartaxo, apontando como principais apoios a Câmara Municipal de Tomar, a Junta de Freguesia da Madalena e Beselga, entidades privadas, bem como a receita de bilheteira e a dinâmica económica associada ao evento.

ÁUDIO | FILIPE CARTAXO, PRESIDENTE DO SPORT CLUBE OPERÁRIO CEM SOLDOS:
Para João Rufino, a edição que assinala duas décadas do festival assume-se também como uma reflexão sobre o percurso da aldeia e da própria comunidade que sustenta o projeto.
“Eu e o Sérgio crescemos em Cem Soldos, ainda conhecemos a aldeia sem o Bons Sons, éramos adolescentes quando nos começámos a envolver na equipa, e para nós é um grande orgulho o crescimento e o continuar deste festival”, afirmou, referindo-se ao outro responsável pela programação e direção artística, Sérgio Alves.
Segundo o programador, o festival ultrapassou há muito a dimensão estritamente musical e passou a integrar a identidade local.
“Começa a haver jovens, ou já adultos na casa dos 30 anos, que já não conhecem a aldeia sem o Bons Sons, ou seja, o Bons Sons já faz parte da aldeia e a aldeia faz parte do Bons Sons”, sublinhou.

Essa ligação, acrescentou, traduz-se também na mobilização comunitária, numa organização assente em voluntariado e numa dinâmica social que, defendeu, tem contribuído para contrariar a desertificação do interior.
“O festival continua a ser uma forma de resistência, uma forma de afirmação também da identidade rural e de celebrar a aldeia e a ruralidade”, afirmou, considerando que o projeto tem ajudado a manter a população, a escola primária e o jardim de infância.
“Uma aldeia sem crianças não tem crescimento e não tem desenvolvimento”, frisou.
A vertente multidisciplinar mantém-se como uma das marcas do Bons Sons, com parcerias com o festival Materiais Diversos, na área da dança contemporânea, com o Curtas em Flagrante, no cinema, e com o projeto 30por1linha, que promove passeios de descoberta da biodiversidade local.

O recinto integra ainda espaços dedicados à música tradicional, eletrónica, novos talentos e propostas multidisciplinares, com linhas programáticas distintas em cada palco.
Também o presidente da Câmara de Tomar, Tiago Carrão, destacou a dimensão nacional do evento e o seu enraizamento comunitário.
“O Bons Sons é tudo aquilo que queremos neste tipo de projetos, que são orgânicos, da comunidade, que nasceram de uma forma natural”, afirmou.

ÁUDIO | TIAGO CARRÃO, PRESIDENTE CÂMARA MUNICIPAL DE TOMAR:
Para o autarca, o festival “é uma referência muito mais do que para Tomar, muito mais do que para a região”, assumindo-se como “uma referência para o país”.
Entre os momentos simbólicos da edição está a estreia da Quinta do Bill no cartaz, coincidindo com os 20 anos do festival e a aproximação dos 40 anos de carreira da banda tomarense.
“É um prazer enorme, um grande orgulho. É um projeto que já tínhamos há muito tempo e finalmente vamos conseguir concretizar”, afirmou Carlos Moisés, vocalista do grupo.
“Foi sempre uma aldeia muito singular, de referência no que toca à dinâmica cultural do concelho de Tomar”, declarou à Lusa.

ÁUDIO | CARLOS MOISÉS, VOCALISTA DA QUINTA DO BILL:
Os bilhetes para a 13.ª edição estão na terceira fase de venda, com o passe geral de quatro dias, incluindo campismo, a 60 euros. Na quarta fase, passará para 70 euros. Os bilhetes diários já estão disponíveis.
A programação completa pode ser consultada em bonssons.pt
