Água das Casas, onde o Ribatejo deixa de ser e as Beiras começam, anos 70 do século passado. Trinta ou quarenta pirralhos, eu incluído, ouvida a missa de enfiada, que as guloseimas é que fazem valer o dia, já se reúnem no Casal, junto à pia dos burros, e definem atalhos. Está nevoeiro e as mãos arreganham, mas hoje ninguém se lembra disso.
Os maiores seguram sacos e bolsas de trapos, feitas pelas avós, que eles só trazem para a rua uma vez por ano. Os pequenos, ainda com bigodes do café, dão as mãos aos irmãos mais velhos, que os puxam, de má vontade, porque lhes atrasam a passada.
– Bolinhos, bolinhos, à porta dos santinhos! – Já cantam todos, a espreitar para a oferta.
Aqui são broas, é para a taleiga branca, de pano cru, ali tremoços, criados na Esteveira e adoçados no Rabaçal, uma mão bem cheia, que é produto de pouco valor. Já os provam e alguns nem as cascas escolhem, outros, mais fidalgos, dizem-nos salgados.
– Olha, a Ti Francelina dá um pacote de bolacha baunilha. Pra’qui é pra três, p’ra mim e p’ros meus irmãos!
– A Ti Maria dá passas. Não vou lá, quem é que quer passas? Figos secos embolados em farinha tenho eu lá muitos…
– Ó rapazinho – diz o viúvo gasto pelos anos e pela solidão – tu já não tens idade, se no ano que vem cá apareces, dou-te é uma corda para ires ao mato – e distribui uma moeda grossa de 50 centavos a cada um.
– Carcaças, papo-secos e tremoços… se alguém desse umas bolachas… olha a sorte, antes tarde que nunca, uma mão cheia de rebuçados, que a Ti Celeste trouxe de Lisboa. Agora vou-me regalar!
Ao fundo, os homens circulam entre as adegas, bem-dispostos, a provar a água pé nova. É dia santo, tempo de esquecer canseiras e dificuldades e de adoçar a boca.
– Bolinhos, bolinhos em louvor dos seus santinhos! Ali peço para quatro, que estão a dar `chicolates´…

Que saudades meu amigo. Nasci nasci nas Fontes faltam 20 dias para 79 anos,vim muito cedo para Lisboa onde vivo. Acidentetalmente a 2.000 kms de casa,lembrei-me deste dia e a emoção veio ao de cima,depois o seu belo artigo . Muito obrigado, e Bem Haja( dizia-se no outro tempo.
Agostinho Mendes
Mais uma crónica/história do tempos idos que não voltam, mas que são sempre recordados e até me fazem chorar, nem sei se de alegria se de tristeza, mas que me fazem voltar uns 50 anos atrás! Mais uma vez, grato, pela tão nobre lembrança, para este dia, que nos alegrava muito! É bom relembrar! Grande Abraço.
Abílio Carmo.
Mais uma história dos tempos idos em que, de facto, vivíamos este dia dos “bolinhos” com muita vontade e querer! Relembrar é muito bom e faz-nos voltar uns 50 anos atrás! Felizmente, que temos uma pessoa que, tão bem, nos faz reviver aqueles momentos, mesmo de traquinices que fazíamos uns com os outros, com bastante saudade! Grande abraço por isto! Abílio Carmo.
É bem verdade zé ,era uma alegria,ricos tempos eu até tinha o previlégio de estrear roupa ou sapatos novos
Grata ao Professor José Martinho Gaspar .. Deu aulas á minha turma de 9.ano na escola D. Miguel de Almeida.. á cerca de 23 anos atrás … Um Sr Professor,que, como poucos, conseguiu cativar Toda a Turma para a sua disciplina e também pelo seu carisma … Bem haja