Com teimosia ou casmurrice, e por vezes até com inoportunidade e indelicadeza, sempre que sou apresentado como tendo sido deputado europeu, corrijo e antecedo quaisquer outras falas com a afirmação de que nunca fui deputado europeu mas que estive no Parlamento Europeu – largos anos – em tarefa militante, como português e comunista.
E explicito a minha auto-biográfica correcção com o complemento de distinção entre o verbo ser e o verbo estar na nossa língua, procurando fazer ironia com a pobreza comunicacional de quem fala e escreve em inglês (até o Shakespeare!) e que não têm alternativa pois para eles, coitados…, é sempre e só “to be or not to be”.
Ainda digo, antes de passar a outros temas, que ninguém é presidente de junta, de câmara, da República, deputado disto ou daquilo, está nessas posições cidadãs em representação de concidadãos.
E não se façam confusões. Não se trata de arremedo de modéstia. Antes será um assumir pleno de responsabilidades, em que não entram estatutos sociais indevidamente umbilicados a senhorias e mordomias.
No entanto, essa responsabilidade pode dar, a quem a assume, motivos de orgulho. Orgulho que usará, com modéstia ou não, atento ou não à legitimidade de invocar a satisfação pessoal por ter sido o indivíduo a estar em determinados actos, a dizer certas palavras. Em representação de quem o escolheu. O partido que o candidatou, o povo que votou e ele assume representar. Com o compromisso que tem, face ao que que se propôs se eleito.
Vem este relambório a propósito da Xª Assembleia da Organização Regional de Santarém do PCP, no Tramagal, com o habitual relevo e desvelo que a comunicação social presta a realizações deste partido… Pois nessa importante iniciativa no quadro da preparação democraticamente exemplar do Congresso que se realizará em Dezembro, senti um pessoal orgulho por ter lembrado a voz que, do distrito – e de Ourém! –, no Parlamento Europeu, a 2 de Maio de 1998, disse um NÃO e os porquês desse não ao euro.
Porquês que, não tendo sido adivinhados mas previstos e prevenidos, hoje são repetidos por muitas vozes que, então e a partir de outras representações mal informadas ou pior formadas, disseram sim, nalguns casos entusiásticos, que hoje não sabem como sair de onde nos meteram.
Não é o nosso caso. Tal como há duas décadas, queremos preparar o País soberano que somos para a saída de onde dissemos não à entrada – no euro, na União Económica e Monetária –, e dizemos não a possíveis sanções e empurrões.
Dizemos basta de submissão.
Do esclarecimento destes porquês, como dos anteriores, iremos fazer campanha. Nas condições e dificuldades que tão bem conhecemos. Decerto, algumas delas resultantes de nossas deficiências, de erros nossos e má fortuna, de mal resolvidas dúvidas. Mas com algumas certezas e com vontades inquebrantáveis. A nossa voz não se cansará!
