José Megre (1942-2009), no já longínquo ano de 1982, acompanhado do seu inseparável companheiro de aventuras Pedro Vilas Boas, não podia imaginar que uma brincadeira para amigos, sem interesse competitivo, pudesse atingir o nível que a Baja Portalegre 500 atingiu, volvidas 38 edições da prova.

Depois de ambos participarem no Paris-Dakar, levando aos desertos africanos o “menino bonito” da indústria automóvel nacional da época, o UMM, produzido pela União Metalo Mecânica, veio a vontade de em terras portalegrenses se replicar a adrenalina, emoção e aventura vividas em África.

Surgiu então em 1987 a primeira edição ” a sério”, da Baja de Portalegre batizada de Rali Maratona de Portalegre-Finicisa.
Com 130 carros e 69 motos, cerca de 400 quilómetros, percorridos por duas vezes “non stop”, constituiu um verdadeiro sucesso apesar das dificuldades criadas por fortes chuvadas e piso bastante lamacento. Estas dificuldades vieram mesmo a tornarem-se imagens de marca da prova.

Os primeiros vencedores foram António Bayona/José Costa (Mitsubishi Pajero) nos automóveis e Paulo Marques/Marcos Carvalho (Aprilia RX 250). De notar que as motos eram pilotadas por dois pilotos passando a prova individual dois anos mais tarde.
Em 1989 a quilometragem foi reduzida para 500 quilómetros, passando a usar o nome de 500 Km Sagres Portalegre. Os anos 90 vieram cimentar uma posição de destaque no panorama automobilístico nacional com um crescimento exponencial de inscrições, atraindo as vedetas do “off road” estrangeiras.
Nas motos, Richard Saint foi o primeiro não nacional a triunfar em 1995, tendo Alain Perez vencido no ano seguinte. No final da década a prova passou a ter dois setores seletivos com uma neutralização a meio.

O virar do século veio trazer algumas mudanças. Passou a contar para o Campeonato Nacional de Todo-o-Terreno nos automóveis e passou a ter três setores seletivos após o prólogo, figurino que ainda mantém.
O ano 2004 ficou marcado com a estreia vitoriosa dum “monstro” dos ralis, Colin McRae, fazendo dupla com Tina Thorner, na Nissan Pick Up oficial em preparação para o Dakar.
Com cada vez maior número de nomes sonantes à partida, começaram os lusos Miguel Barbosa (Auto), António Maio e Mário Patrão (Motos) a colecionar vitórias.

A segunda década do século XXI veio trazer um recorde de 600 inscritos em 2011 e a queda de outros registos. Ricardo Porém venceu quatro edições consecutivas com três viaturas diferentes, com a fortíssima concorrência estrangeira, em carros oficiais das marcas.
António Maio juntou também quatro vitórias ao seu palmarés e o pontessorense Roberto Borrego colecionou vitórias: oito em dez anos. Notável!!! Surgiram os primeiros SSV em competição, em detrimento dos UTV, tendo em Rúben Faria o seu primeiro vencedor em 2017.

O início da década de 2020 ficou marcada pelas consequências da pandemia, sendo a ausência de público a mais notória. Lentamente recuperou todo o esplendor de prova rainha do Todo-o-Terreno nacional.
António Maio igualou nas motos, o feito de Borrego nas quads: o recorde de oito provas ganhas e surgiram novos nomes no topo das tabelas a fazerem “sombra” aos consagrados. Destaca-se o nome de João Ferreira.
O piloto de Leiria tem sido a grande revelação, batendo sistematicamente os grandes nomes da Taça do Mundo. Nos Quads, João Vale venceu duas em quatro edições. O mesmo sucedeu nos SSV com Gonçalo Guerreiro.
Auto| Miguel Barbosa fez história nos Automóveis.

A chuva fez a sua aparição logo no Prólogo da 38ª edição da Baja de Portalegre 500. As condições do piso estavam favoráveis aos veículos do grupo Challenger, com Tiago Reis a averbar o tempo de 3m02.8s batendo Miguel Barbosa por escassos 5.9 segundos.
Com o top 10 repleto de Challenger, a exceção era o Mini John Cooper Works Rally Plus de João Ferreira, navegado por Filipe Palmeiro, com o sexto tempo da Geral. O azarado do Prólogo foi João Ramos que viu calar-se o motor da sua Toyota Hilux T1+ Evo na passagem duma ribeira.
O primeiro setor seletivo ia começar a esclarecer muita coisa e a meio do percurso Tiago Reis mantinha a liderança a cerca de sete segundos de Alexandre Pinto. João Ferreira continuava a liderar os Ultimate, subindo um lugar, rodando na frente de Miguel Barbosa por escassas décimas.
No final do dia, após muita lama, alguma chuva, com muito espetáculo para os milhares de aficionados que se espalharam pelo percurso especialmente nas Zonas Espetáculo (ZE), onde se montaram verdadeiras aldeias de tendas, Alexandre Pinto conduziu o Can Am Maverick X3 à liderança com um rápido e surpreendente João Ferreira a colocar o Mini no segundo posto a apenas 16.7 segundos do líder.
João Dias impunha um excelente andamento, fechando o pódio. Entretanto o azarado João Ramos abandonou, com a sua nova “Dama Negra” a continuar a dar problemas.
Com diferenças mínimas a expetativa era alta para o dia de sábado… O segundo setor seletivo revelou-se favorável aos T1+ e ao Km 28 João Ferreira chegou à liderança batendo Armindo Araújo, o melhor em T3, por quase um minuto. O terceiro era agora a Toyota Hilux T1+ de Francisco Barreto.
A potência favorecia os T1 nesta fase do percurso assistindo-se à subida na classificação de Alejandro Martins (Mini), Luis Recuenco (Toyota) e Nuno Madeira (Ford Ranger).
João Ferreira teve problemas no Mini, parou e perdeu cerca de oito minutos tendo Gonçalo Guerreiro herdado a liderança no seu Polaris. Era seguido a curta distância por João Dias e Alexandro Pinto. Miguel Barbosa subia na classificação.
No final de SS2 o líder era João Dias (Can Am) com menos 2m 09.6s Alexandre Pinto (Can Am) e Miguel Barbosa (Taurus), empatados na Geral. João Dias partiu a transmissão do Can Am e abandonou, passando Alexandre Pinto para a frente com Miguel Barbosa a 26 segundos. O vencedor não estava encontrado…
Num “forcing” final Miguel Barbosa averbou um saboroso triunfo, o quarto em Portalegre, igualando Ricardo Porém, deixando Gonçalo Guerreiro a a 5m14s. Paulo Rodrigues fechou o pódio dos automóveis.
Se Miguel Barbosa fez história ao ser o primeiro vencedor do Portalegre, e duma prova da Taça do Mundo de Bajas, aos comandos dum veiculo Challenger, o pódio (e o quarto lugar) ocupado por veículos deste grupo é realmente inusitado!!! O primeiro T1 foi o Mini de João Ferreira, em quinto.
Classificação Final (Autos)
1º Miguel Barbosa – Paulo Fiúza (Taurus T3 Max) 4:57:23.9
2º Gonçalo Guerreiro – José Sá Pires (Polaris RZR Pro R) a 5:14.0
3º Pulo Rodrigues – José Sebastian Cesana (Can Am Maverick X3) a 9:32:8
4º Edgar Reis – Fábio Ribeiro (Taurus T3 Max) a 9:50.7
5º João Ferreira – Filipe Palmeiro (Mini JCWR Plus) a 11:06.3
Moto | António Maio deixou fugir a nona vitória no Portalegre para Martim Ventura.

Para o recordista de vitórias na Baja portalegrense esta podia ter um sabor especial. Em caso de vitória, o piloto alentejano, oficial superior da GNR, tornava-se o piloto com mais vitórias na Baja 500, se Beto Borrego não vencesse nos Quads… Era apenas um “pormaior” a apimentar a já de si interessante prova.
Com muita lama, cursos de água de alguma dimensão, erosão do terreno devido às sucessivas passagens, constituíam dificuldades que fazem do Portalegre a prova mais aguardada do todo-o-terreno nacional.
E o pluricampeão não deixou os créditos por mãos alheias… No final do primeiro dia já liderava apesar do vencedor do prólogo ser Bruno Santos em Husqvarna FE501. No primeiro setor seletivo, Maio averbou uma vitória sobre Martim Ventura por escassos 12.6 segundos.
A Geral era liderada por António Maio (Yamaha WR) com Martim Ventura (Husqvarna FE501) a apenas 15 segundos e com o vencedor do prólogo, Bruno Santos, a ficar com quase um minuto. Estava tudo em aberto para o segundo dia.
O jovem, 24 anos, Martim Ventura já aos onze andava por Portalegre a fazer a Mini Baja. Falhou um pódio por escasso décimo de segundo em 2022 . Tinha aqui uma soberana oportunidade de juntar a “rainha” ao seu palmarés e sagrar-se campeão nacional.
O azar desta vez bateu à porta do plurivencedor António Maio. Uma queda e problemas no acelerador da sua Yamaha relegaram-no para o quarto posto na segunda especial, ocupando igual posição na geral final.
Martim Ventura venceu com uma sólida vantagem de 3:41.3 sobre Bruno Santos, dando a dobradinha à Husqvarna. Micael Simão em Gas Gas MC-F 450 fechou o pódio.
Classificação Final (Motos)
1º Martim Ventura (Husqvarna FE501) 4:36:59.8
2º Bruno Santos (Husqvarna FE501) a 3:41.3
3º Micael Simão (Gas Gas MC-F 450) a 4:40.6
4º António Maio (Yamaha WR) a 4:41.9
5º Tomás Dias (Honda CRF 450RX) a 8;32.8
Quads | Luís Fernandes (Yamaha) voltou a saborear o triunfo.

As quads, motos de quatro rodas, são um espetáculo à parte… Fruto de forte andamento e muita perícia nos saltos e curvas, são alvo de forte agrado do público. Com muita lama e água estes veículos são altamente penalizados e a condução deixa os pilotos extenuados.
Depois de vencer em 2021, Luís Fernandes voltou a saborear o gosto do champanhe apesar dum acontecimento insólito: perdeu o assento já perto do final e as pernas e braços foram sujeitos a trabalho extra. O vencedor das duas últimas edições e vencedor do prólogo, João Vale (Can Am), secundou-o e Rodrigo Alves em Yamaha fechou o pódio.
Classificação Final (Quads)
1º Luís Fernandes (Yamaha YFZ 450R) 5:01:11.4
2º João Vale (Can-Am Renegade XXC 1000) a 5:54.4
3º Rodrigo Alves (Yamaha YFZ 450R) a 7:28.5
4º Tiago Gomes (KTM XC 450) a 13:47.3
5º Filipe Martins (Yamaha YFZ 450R) a 19:06.7
SSV | Hélder Rodrigues venceu uma “armada” cheia de nomes sonantes.

Esta categoria de veículos congrega uma verdadeira constelação de estrelas do desporto automóvel. A lista de inscrições é sempre extensa e o favoritismo é quase impossível de atribuir. A engrossar a “start list” este ano estavam os participantes da YXZ1000R European Cup SuperFinale onde competem pilotos de Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido, além dos pilotos dos troféus Polaris e Segway.
Pedro Santinho Mendes lidera um campeonato muito disputado seguido de Pedro Pinha, Sérgio Batista, Nelson Caxias e Luís Cidade. Qualquer um pode vencer e a estes temos de juntar Hélder Rodrigues, Roberto Borrego, Pedro Antunes, Pedro Grancha e Herlander Araújo além do estreante Filipe Campos ou os regressados Luís Costa e Santos Godinho.
Hélder Rodrigues começou por ser o mais rápido no prólogo, pouco mais de dois segundos que Pedro Antunes, ambos em Can Am. O Polaris de Arnaldo Monteiro foi terceiro a três segundos.
Apesar de ter vencido em quad por oito vezes Roberto Borrego ainda procura a sua primeira vitória em SSV. No final do primeiro dia o piloto da Ponte de Sor liderava com 1m14s para o segundo, Pedro Antunes. Luís Cidade fechava o pódio com escassos três segundos de Antunes.
No segundo segmento cronometrado, já no sábado, Roberto Borrego perdeu cerca de seis minutos, afundou-se na classificação, e Hélder Rodrigues tomou de assalto a liderança, seguido de Nélson Caxias e Tiago Guerreiro nos lugares secundários. Separados por escassos segundos, segue um enorme pelotão e qualquer um pode aspirar à vitória.
Hélder Rodrigues, a pilotar a solo o seu Can Am Maverick X3, venceu nos SSV, batendo a dupla Tiago Guerreiro-Carlos Paulino (Polaris) por 48 segundos e André Carita- Nuno Abrantes por pouco mais de um minuto. Equilíbrio foi a nota dominante.
Classificação Final (SSV)
1º Hélder Rodrigues (Can-Am Maverick X3) 4:51:17.6
2º Tiago Guerreiro/Carlos Paulino (Polaris RZR pro R) a 48.0
3º André Carita/Nuno Abrantes (Can-Am X3) a 1:08.3
4º Nélson Caxias/João Rodrigues (Can-Am X3) a 3:33.9
5º Vasco Martins/Luís Falé (Can-Am Maverick R) a 5:33.2
Promo & Hobby| Vitória incontestada de Ricardo Silva (Yamaha).

Depois de ter sido o mais rápido no prólogo, Ricardo Silva (Yamaha) deu continuidade ao domínio no setor seletivo de 166,20 quilómetros, terminando a prova com mais de três minutos de vantagem para o mais direto adversário. Emocionante foi a luta pela segunda posição, com André David (KTM) a levar de vencida Nelson Delgado (Honda) por escassos sete décimos de segundo.
Luís Chavado (Husqvarna) e Daniel Russo (Bombardier) fecharam o grupo dos cinco primeiros, este último como primeiro entre os Hobby SSV.
Classificação Final (Promo & Hobby)
1º Ricardo Silva (Yamaha) 2:42:04.9
2º André David (KTM) a 3:03.1
3º Nelson Delgado (Honda) a 3:03.8
4º Luís Chavado (Husqvarna) a 7:35.4
5º Daniel Russo (Bombardier a 11:10.8 (1º Hobby SSV)
Mini Baja| Bernardo Caiado (Gas Gas) venceu a prova dos novos.

Destinada a jovens com idades entre os oito e os 16 anos, a Mini Baja é o trampolim para alguns saltarem para outros voos e, quem sabe, para o estrelato. Com um recorde de 35 participantes, deixa antever um futuro promissor da modalidade.
Bernardo Caiado ganhou nos Iniciados, com o segundo posto a ser disputado ao segundo. Manuel Amaral (Yamaha) impôs-se por 3,5 segundos a Simão Severino, em moto semelhante, e foi o melhor Juvenil. Santiago Pereira foi o melhor dos Infantis.
Classificação Final (Mini Baja)
1.º Bernardo Caiado (Gas Gas) 1:19:13.1
2.º Manuel Amaral (Yamaha) a 1:24.1
3.º Simão Severino (Yamaha) a 1:27.6
4.º Domingos Cunha (Yamaha) a 2:05.0
5.º Martim Caetano (Yamaha) a 2:15.2
Evento Nacional| João Carvalho em Can Am venceu a competição da FPAK.

Paralelamente à Taça do Mundo, sob a égide da FIA, a Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK) leva a efeito o evento nacional que junta as várias categorias dos pilotos não participantes na prova FIA. A dupla João Carvalho- António Carvalho venceu o evento e o Grupo T4, batendo Jorge Cardoso, navegado pelo abrantino Rui Marques “Botas” também em Can Am mas T3, grupo que venceram.
No degrau mais baixo do pódio ficaram Alexandre Mota-Jaime Cortes (Can Am) que bateram o primeiro T8, Alexandre Mota-Joaquim Serrão, em Toyota.
Classificação Final (Evento Nacional)
1º João Carvalho/António Carvalho (Can-Am) 5:21:29.9
2º Jorge Cardoso/Rui Marques (Can-Am) a 6:27.9
3º Alexandre Cardoso/Jaime Cortes (Can-Am) a 7:32.7
4º Alexandre Mota/Joaquim Serrão (Toyota) a 15:24.5
5º Avelino Reis/Filipe Gonçalves (Toyota) a 26:03.1

Foi uma Baja de Portalegre como os aficionados gostam, com dificuldades para os pilotos mas com excelentes condições de visibilidade e segurança para os espetadores. As Zonas Espetáculo na nossa região foram palco de milhares de forasteiros e residentes. As ZE de Bemposta e do Campo Militar de Santa Margarida foram aposta ganha. Venha a 39ª edição da Baja Portalegre 500 em 2025.
C/ DAVID PEREIRA (Fotos)











































