O quinto debate promovido pelo mediotejo.net,  o segundo em parceria com a rádio Antena Livre, juntou no dia 15 de setembro dois dos candidatos (PSD e PS) à presidência da Câmara Municipal de Mação e ficou marcado pelos incêndios, pelo plano de emergência municipal, e pela premência de medidas de combate ao despovoamento do território.

Estava previsto que o debate em Mação, no Centro Cultural Elvino Pereira, decorresse a quatro vozes com Tiago Sá pelo CDS-PP, Fátima Pereira pela CDU, Nuno Barreta pelo PS e Vasco Estrela pelo PSD. Mas foram dois os candidatos (PSD e PS)que se dignaram a comparecer e a apresentarem-se para discutir temas que marcam a atualidade do concelho, como o ordenamento do território e da floresta, a desertificação, a criação de postos de trabalho e ainda outros temas como a saúde, a educação ou a cultura. O candidato centrista uma hora antes do início do debate justificou a sua ausência com motivos profissionais. A candidata da CDU não justificou a sua ausência.

O quinto debate promovido pelo jornal mediotejo.net com os cabeças de lista do Partido Socialista (PS) e do Partido Social Democrata (PSD) durou cerca de duas horas e foi transmitido em vídeo através da plataforma digital do jornal e ainda pela rádio Antena Livre, o parceiro do mediotejo.net em Mação.

A última ronda de perguntas aos candidatos foi dedicada a agregação de freguesias no concelho, decorrida na última legislatura liderada pela coligação de direita, tendo Vasco Estrela, o candidato do PSD, explicado que “a Câmara Municipal e a Assembleia optaram por não se pronunciar sobre esta matéria” naquela época.

“O que o PSD defendeu foi uma posição consensual entre os dois partidos. Aconteceram várias horas de reunião entre os cinco vereadores para chegar a um entendimento mas tal não foi possível”, disse. O candidato social democrata defende “uma avaliação” e até “uma consulta às populações” não recusando “poder voltar ao que existia” apesar de considerar a experiência no concelho de Mação “positiva”.

À esquerda a agregação de freguesias também é vista com bons olhos. O candidato do PS, o enfermeiro Nuno Barreta, manifestou-se pela continuidade defendendo a forma “positiva” como aconteceu em Mação.

“Tivemos um bom homem no local eleito que conseguiu dar conta do recado, o José Fernando, o saldo é positivo e os nossos habitantes das três freguesias não perderam nada ao terem apenas uma freguesia” referiu.

Mas nem tudo foi pacífico. Nuno Barreta admitiu que “ninguém tem nada a apontar ao candidato Vasco Estrela” durante os incêndios “em defesa do seu município”, no entanto o candidato socialista à Câmara deu conta da inexistência de “um plano de emergência municipal que teria sido uma mais valia” em defesa das aldeias. “Se os incêndios vêm do vizinho então a estratégia tem de ser concertada. Num concelho com elevado risco de incêndio um documento que permitiria “organizar, orientar, facilitar e uniformizar as ações necessárias” numa situação de catástrofe.

Sobre a legislação de defesa da floresta, Nuno Barreta entende que “legislar a quente não será um bom remédio”. O candidato do PS propôs que o tema seja debatido na escola. “Se ensinam a reciclar com a floresta pode ser igual”.

Apontou ainda um “gabinete florestal pouco expressivo com um descritivo de ações que nos remetem a 2014” quando consultado o sítio na Internet da Câmara Municipal. “Se quiser saber quem são os seus vizinhos vai à repartição de finanças de Mação e lá, como são poucos funcionários, dizem-lhe: vá ao gabinete florestal do município, neste caso à Aflomação, paga 5 euros e dizem-lhe quem são os seus vizinhos na propriedade A, B ou C”. E propôs a criação de um gabinete florestal intermunicipal.

O ordenamento do território “é um tema caro à Câmara Municipal de Mação. Uma aposta que fizemos há mais de 10 anos no sentido de dar contributos ao País e à região para encontrarmos uma solução para o ordenamento da floresta, a valorização da nossa maior riqueza” sublinhou Vasco Estrela, deixando claro que o defendido em 2005 é o mesmo que defendem hoje mantendo-se válido para o futuro. A aposta nas Zonas de Intervenção Florestal (ZIF) é para manter embora com alterações.

Vasco Estrela referiu as ZIF de Aldeia do Mato e de Furtado nos concelhos de Abrantes e Gavião que arderam durante os incêndios de agosto. O candidato do PSD defende a “diversificação de espécies, ordenar o território como um todo, e perceber o que é realmente viável”.

Vasco Estrela em resposta ao candidato do PS disse que este, enquanto enfermeiro, “sabia muito bem que, na evacuação das aldeias, as pessoas foram devidamente atendidas com a extraordinária colaboração dos serviços da Segurança Social e do gabinete de ação social da Câmara que teve mais de 60 pessoas envolvidas no incêndio, com 50 equipamentos no resgate das populações. E conseguimos retirar todas as pessoas sem que tivesse acontecido algo de grave”, frisou.

E “apesar de o presidente da Câmara ser o responsável máximo da Proteção Civil a gravidade era tal que houve localidades evacuadas sem a devida autorização” garantindo que “tudo aquilo que está num plano de emergência municipal foi cumprido”.

Nuno Barreta lembrou Vasco Estrela que defender a população é uma das suas obrigações. “É para isso que foi eleito e terá de o fazer até ao último dia do seu mandato”. Salientou que “no planeamento” o presidente da Câmara “deixa a desejar”. E continua: “se tivesse planeamento eu não o ouvia a dar uma entrevista da TVI a dizer que tinha aldeias que não sabia como as ia evacuar. Existem protocolos para se saber quem evacua A, B, C, ou D quando há uma catástrofe”.

Vasco Estrela contrapõe negando a afirmação do adversário político. “O que disse foi que a violência do incêndio foi tal que muitas vezes quase que não dava tempo para evacuar as populações”.

No tema da demografia e do envelhecimento da população do concelho, Nuno Barreta sublinhou “não ser uma característica só de Mação”. E no entender do candidato socialista há que “lutar um dia de cada vez para atrair empregos e fixar população jovens”. Tendo em conta a população envelhecida de Mação revê-se no plano local de saúde do Médio Tejo e propõe uma Unidade de Saúde Familiar e uma Unidade de Cuidados Continuados.

Vasco Estrela considera a desertificação “um dos maiores problemas”. Lembrou que os indicadores não são positivos e que na região do Médio Tejo “todos os municípios” estão a perder população. “É um problema que todos temos que encarar enquanto país, como desígnio nacional”, considera. Promover qualidade de vida é a missão “sabendo que aquele tempo, em que os autarcas andavam de porta em porta à procura de empresas que viessem para os concelhos com 200 ou 300 postos de trabalho, já não existe”. Deixando no ar que a “ideia de industrializar o interior do país poderá não ser válida”.

A poluição no rio Tejo foi outro dos temas abordados onde o candidato do PSD declarou como “mais valia” os cerca de 14 quilómetros de margem ribeirinha existentes no concelho de Mação. “Infelizmente nos últimos anos tem sido alvo de várias agressões que lhe têm trazido uma conotação negativa com prejuízos evidentes”. Vasco Estrela falava sobre a poluição mas também na dificuldade de manter “a cota na praia fluvial da Ortiga em condições aceitáveis” para que aquele investimento da Câmara Municipal de Mação possa ser rentabilizado.

Como proposta Vasco Estrela referiu um projeto desenvolvido “concluído e candidatado na Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo no programa Mais Centro” relacionado com a valorização das margens do rio Tejo com um percurso pedestre que o candidato acredita “devolver um pouco de vida ao rio para que as pessoas possam usufruir daquele espaço” e ainda a valorização das pesqueiras.

Ao nível do saneamento básico está previsto “a recuperação e requalificação de um conjunto de ETAR no concelho” da responsabilidade das Águas de Lisboa e Vale do Tejo. “Neste momento está em concurso, em conceção de construção a de Ortiga, Cardigos e Envendos e está também previsto o lançamento de um segundo concurso para outras ETAR em Penhascoso, Aboboreira, Vales de Cardigos e Carvoeiro”.

O candidato do PS manifesta preocupação com a qualidade da água do rio Zêzere após os incêndios. É intenção do PS ligar o rio Ocreza ao rio Tejo, e disse ter um projeto de museu piscatório para Ortiga. Admitindo parte da culpa na poluição do rio Tejo uma vez que “algumas ETAR não estão a funcionar corretamente, há que pressionar a entidade responsável”, nomeadamente a EDP para zelar “pelo caudal ecológico do Tejo. Nuno Barreta quer “que volte a ser possível tomar banho e pescar” no maior rio português.

As prioridades da candidatura socialista para os próximos quatro anos passam pela saúde até porque o concelho tem perto de 50% de população idosa e pela educação. “Estas duas premissas leva-nos à ação social uma vez que a média de rendimentos é baixa”. O quarto e último prende-se com o desenvolvimento socioeconómico. “Temos idosos de aldeias distantes que não vêm ao centro de saúde fazer os tratamentos que lhes são prescritos porque não têm meios para pagar”. Nuno Barreta deu como exemplo a freguesia de Amêndoa com veículo para realizar esse tipo de transporte.

Afirmando que a realidade financeira do concelho é “favorável” o candidato do PSD deixou as suas prioridades se for eleito presidente para os próximos quatro anos no dia 1 de outubro. Mas antes disso contrariou as afirmações do adversário socialista dizendo que todas as freguesias têm extensões do centro de saúde “com a exceção de Aboboreira”. Acrescentou que a CM “proporcionou ao centro de saúde duas viaturas para que por itinerância possam fazer os cuidados de saúde primários”. O PSD vai propor que a CM possa comparticipar “medicamentos, exames ou transportes para fora do nosso concelho” avançou.

Além da saúde “a valorização da floresta, empreendedorismo, educação, cultura, regeneração urbana e regeneração do património”, são prioridades sociais-democratas.

O turismo é uma das apostas, estando relacionado com a valorização do território. O candidato do PSD refere-se ao turismo de natureza, de lazer e “quem sabe de saúde”. Embora tenha dúvidas que seja “a grande alavanca de crescimento económico” do concelho. “Temos de fazer uma aposta clara nos percursos pedestres junto às nossas ribeiras e criar rotas. São quatro ou cinco ideias como o núcleo museológico para Ortiga ligado à arte das pescas. Tirar partido do centro geométrico de Portugal. É possível criar pacotes importantes que possam promover o concelho. Para o candidato do PSD “esta área do turismo terá de ser complementada com outros serviços” que não dependem da câmara municipal.

Nuno Barreta entende que Mação tem como mais valia os cuidados de excelência a idosos. Por isso considera viável outro tipo de oferta como por exemplo residências para idosos. Sendo Mação a catedral do presunto este deve ser “explorado” sugerindo a criação de um museu dessa atividade económica.

O socialista considera que na educação o conselho municipal deve ser melhorado uma vez que “não funciona”. Também uniformizar as AEC é uma das propostas. Protocolar o apoio dos manuais escolares até ao 12º ano. Também é intenção do PS continuar a apoiar o associativismo.

Quanto à educação, Vasco Estrela recorda que é reconhecido o trabalho que a câmara municipal tem feito. “Respeitamos na integra a autonomia. Hoje as ACE estão entregues ao agrupamento de escolas”. Não escondeu algumas divergências com o diretor do agrupamento de escolas no sentido de “os cursos profissionais poderem ser adaptados o mais possível ao concelho”.

Vasco Estrela referiu ainda a reabilitação do cine-teatro de Mação para que o cinema volte e o desenvolvimento do teatro e da dança em parcerias com as associações seja uma realidade. No desporto deu conta do aumento de utilizadores das piscinas cobertas e deixou a promessa de requalificação das piscinas ao ar livre.

Vasco Estrela termina dizendo que ao longo do mandato que agora termina estiveram “sempre ao lado da solução e nunca do problema” enquanto Nuno Barreto descreve a sua candidatura como de “cidadania”.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.