Autarca de Ferreira do Zêzere aponta sensação de abandono e defende reforço estrutural. Foto: DR

Num artigo de opinião publicado no Expresso, Bruno Gomes (PS) sustenta que os fenómenos recentes, como a depressão Kristin, que provocou elevados prejuízos no concelho, exigem uma reflexão mais profunda sobre coesão territorial e capacidade de resposta do Estado.

“Tornou-se quase rotina assistir a imagens devastadoras vindas do interior de Portugal associadas a contextos climáticos: incêndios devastadores, secas que ameaçam a agricultura e o rendimento ou episódios climatéricos de elevada intensidade e destruição.”

O autarca refere que, semanas após a passagem da tempestade, ainda decorrem trabalhos no terreno.

“No momento em que escrevo este artigo, ainda perto de 200 operacionais das mais diversas áreas permanecem no concelho de Ferreira do Zêzere a trabalhar na reposição de energia, telecomunicações, desobstrução de vias, corte de árvores ou reparação de telhados e janelas.

E após esta semana, em que o esforço incansável de dezenas de homens e mulheres nos foi encorajando a enfrentar cada dia, ainda é cedo para falar de normalidade”, notou.

Bruno Gomes considera que os eventos extremos têm seguido um padrão repetido.

“A cada novo episódio extremo repete-se a mesma cadeia de eventos: profundos danos, reposição lenta e um sentimento crescente de vulnerabilidade.”

“Ao sabermos que o clima está a mudar e que os avisos da proteção civil e do IPMA e de outras autoridades se tornam cada vez mais frequentes, não podemos deixar as regiões enfrentar estas mudanças praticamente sozinhas.”

O presidente da câmara enquadra ainda o impacto destes fenómenos no papel das autarquias do interior.

“Com isto, e face aos casos dos últimos anos, os autarcas do interior começam a descobrir novas competências que o processo de descentralização não previa: o combate ao isolacionismo e ao abandono do interior tornou-se um pelouro exclusivo.”

“Não porque estivesse previsto em algum organograma ou no processo de descentralização de competências, mas porque a realidade nos obriga a esse papel.”

“Todos os dias somos convocados a demonstrar que o interior não está entregue a si próprio e assumimos a primeira linha de escudo entre a população e a sensação de abandono.”

Referindo-se diretamente à tempestade que afetou o concelho, acrescenta:

“A tempestade ‘Kristin’ provou isso. Ora atendemos o telefone a membros do Governo, mas, em espera, está já o cidadão comum que, no meio do caos, precisa de um gerador para o familiar dependente ligado a uma máquina em Águas Belas ou outra freguesia.”

“Esta proximidade não é um detalhe. É a diferença entre o abandono e a presença, entre o desespero e a resposta.”

O autarca defende que a resposta aos fenómenos extremos não deve limitar-se ao reconhecimento da resiliência das populações.

“Por isso, e após ultrapassarmos o ‘comboio de tempestades’ que nos assola, não basta elogiar a tradicional resiliência das populações do interior ou glorificar o interior no verão, quando nos parece mais apetecível para visitar.”

“É preciso dotar o território de meios, competências e financiamento que permitam agir antes da catástrofe, responder durante a crise e recuperar com rapidez depois dela.”

Para Bruno Gomes, a coesão territorial deve ir além das transferências financeiras.

“A coesão territorial não pode ser medida apenas nos constantes envelopes financeiros transferidos da Administração central para as autarquias.”

“Precisamos efetivamente de reconhecer que o interior importa e que faz tão parte da identidade, da economia e da cultura do país como os grandes centros urbanos.”

A posição surge numa altura em que o concelho de Ferreira do Zêzere enfrenta prejuízos avultados decorrentes da depressão Kristin, que deixou milhares de habitações com danos e provocou prolongados cortes de energia elétrica e comunicações.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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