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Hoje, mais uma vez, o Presidente da República repetiu a frase “é preciso em abril ganhar maio”. Deixando de lado a ironia desta frase, que convoca a nossa memória para o 25 de Abril e 1.º de Maio, ela significa a manutenção de todas as medidas de contenção até ao final de Abril, para que, provavelmente, em Maio se possa avaliar e encetar o alívio do confinamento.

Mas, também já sabemos, que o vírus ainda por cá vai permanecer. Assim como sabemos que já aí está uma crise económica e social de grande dimensão. Os números falam por si: 930 mil trabalhadores/as em lay-off; 353 mil no desemprego. Sempre com tendência a agravar-se. Todos os dias sabemos de novos abusos sobre trabalhadores/as precários/as que são “dispensados” sem justificação. E uma coisa é absolutamente certa: verifica-se uma redução generalizada dos rendimentos das pessoas e uma sobrecarga nas contas da segurança social, neste caso sobretudo devido ao lay-off.

São-nos pedidos sacrifícios em nome de se vencer a “guerra contra o vírus”, mas nem todos respondem da mesma forma.

Amanhã reúne a assembleia geral da EDP que se prepara para distribuir 700 milhões de euros pelos seus accionistas – este valor corresponde a 10 anos de tarifa social !!

Se é verdade que o vírus não escolhe e todos/as podemos ser contaminados, também é absolutamente verdade que as consequências serão bem diferenciadas e não somos todos iguais nem agora e muito menos depois da pandemia.

É urgente, mesmo uma emergência, pensar o dia depois, pensar em Junho, Setembro e por aí fora. Temos que apoiar as famílias, os/as desempregados/as, os/as jovens com vínculos precários e a recibo verde, os/as pensionistas – temos que garantir que ninguém fica para trás.

Temos que programar como se vai apoiar o pequeno comércio, os agricultores que continuam a produzir, as pequenas empresas que empregam muita gente no nosso país.

Não se trata de mera retórica, sem estas medidas não sairemos da crise, não há economia que aguente e muito menos que se reinvente. E é nestes aspectos que parece que a coisa não avança. Existe timidez em pedir aos mais ricos, à Banca, em proibir a distribuição de dividendos. Porque não se proíbem os despedimentos? Será que a receita do passado entra de mansinho?

As instâncias europeias reúnem, reúnem e tudo espremido é “uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”. A austeridade, chamem-lhe o mesmo ou outro nome, já a conhecemos e sabemos os seus efeitos e está em conflito com a solidariedade.

Nem sequer sobre os “eurobonds” ou “coronabonds” (emissão de dívida conjunta) se consegue um entendimento, provando que não se fala sobre solidariedade naquelas reuniões. São outros os valores no Eurogrupo.

Temos que sair desta crise – sanitária, económica e social. Duvido que consigamos se não colocarmos em causa a arquitectura da construção europeia, as suas regras e os seus Tratados.

Helena Pinto

Helena Pinto, vive na Meia Via, concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da associação Feministas em Movimento.
Escreve no mediotejo.net às quartas-feiras.

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