Ator Victor Hugo tem 85 anos de vida e 70 de teatro. Foto: mediotejo.net

“Para mim o teatro acabou, mas não deixem morrer o teatro”. Foi com este apelo sentido que o ator amador chamusquense Victor Hugo Marques, de 85 anos, se despediu dos palcos depois de quase 70 anos dedicados à arte da representação.

No final da peça “Sonho de uma Noite de Verão”, representada na sede do Grupo Dramático Musical, na Chamusca, no sábado, dia 30, e com a voz tolhida pela emoção, Victor Hugo, que representou o papel de “Cabeleireiro Catita”, agradeceu a homenagem e lançou o desafio aos encenadores e atores presentes para que “não deixem morrer o teatro”.

A representação aconteceu perante dezenas de espectadores, um dia depois do Grupo Dramático Musical completar 100 anos de história.

No final do espetáculo, depois de longas palmas dos espectadores, de pé, dirigidas ao ator Victor Hugo, subiu ao palco Vitor Rosa, presidente do Grupo Dramático Musical. Referiu-se ao homenageado como “o mestre”, “uma lenda do teatro chamusquense”. Desde sempre ligada à dinamização cultural, a centenária coletividade continua de porta aberta a todo o tipo de atividades culturais, como realçou o seu presidente.

Com base nesse posicionamento, entregou ao grupo Fatias de Cá uma lembrança que foi recebida pelo ator Humberto Machado, o mais velho do grupo, com 92 anos.

Vitor Rosa enalteceu o trabalho dos que fundaram “esta humilde casa”, recordou ainda a vivência com que ali cresceu e congratulou-se pela presença de jovens na plateia.

Ao homenageado disse que “tudo aquilo que podia oferecer é pouco”. Entregou-lhe várias lembranças, nomeadamente um azulejo alusivo à peça A Comédia da Marmita e um cartaz da peça acabada de representar.

“A Chamusca a si muito lhe deve. Esteve sempre disponível, sempre a dar à Chamusca, seja no associativismo, no teatro, na política, na forcadagem, entre outras vertentes”, realçou o dirigente associativo, destacando a “brilhante carreira” do homenageado.

O Município da Chamusca associou-se à homenagem e o presidente Paulo Queimado subiu ao palco para “fazer um reconhecimento pelos 70 anos dedicados ao teatro amador e por aquilo que fez no concelho e na vila”.  

Foi descerrada uma fotografia à entrada de uma sala da sede da centenária coletividade à qual foi atribuído o nome do ator. No interior estão expostas uma série de fotografias do ator em várias peças de teatro e em diversos momentos da sua vida.

Mais uma vez, Vitor Rosa falou de Victor Hugo como “uma referência no teatro a nível distrital e nacional, um farol desta terra”.

“Estou feliz” disse no final, em declarações ao mediotejo.net, entre cumprimentos e abraços, fazendo uma retrospetiva da sua longa carreira.

Tudo começou em 1951

Começou em 1951, tinha então 14 anos, e lembra-se perfeitamente qual era a peça; “O Amigo de Peniche”, onde fazia dois pequenos papeis.

Victor Hugo recorda nomes marcantes do teatro dessa época e que estiveram na génese da criação do Grupo Dramático Musical. Nessa altura, procurava dar resposta positiva a todas as solicitações dos grupos de teatro, arte que lhe está na massa do sangue como o próprio reconhece.

Mas nem tudo foram rosas na vida do ator. Em 1986 perdeu o único filho que tinha, na sequência de uma leucemia galopante. Era um jovem de 21 anos que pegava toiros, jogava basquetebol, futebol, um atleta, lembra, emocionado, o ator. Depois dessa tragédia e durante quatro ou cinco anos reconhece que cometeu excessos. “Fiz disparates, foi como se houvesse um naufrágio e fiquei a esbracejar, perdi-me. Foi terrível.  Foi o teatro que me salvou”, reconhece. Quando foi convidado a regressar aos palcos, libertou-se do tabaco e dos excessos de álcool e desde então nunca mais parou.

Victor Hugo fala da sua passagem pelos teatros Trindade e Monumental e agradece ao seu “querido público” que sempre esteve consigo.

“O teatro foi durante muito anos o maior veículo cultural que a Chamusca teve. Agora está um bocadinho doente”. Neste ponto o ator desafiou “os homens que têm capacidade para produzir, para fazer”, nomeando João Coutinho e Carlos Petisca, para que envolvam a juventude e que a câmara apoie mais o teatro.

O seu afastamento definitivo dos palcos deve-se não só à provecta idade como a um problema de saúde que o atormenta. Dentro de dias vai ser operado à garganta e diz que não sabe como vai ficar, lembrando que “o melhor de um ator é a voz, é a ferramenta melhor do ator, eu tinha uma belíssima voz”.

Figura estimada e admirada por toda a população, é um filho da aldeia antiga do Pinheiro Grande. Ator amador desde tenra idade até aos dias de hoje, foi galardoado com o 2º Prémio de melhor ator masculino no Concurso Nacional de Teatro Amador e, como encenador, obteve o 3.º lugar com a peça “O Lugre”, em igual Certame Nacional.

Destacou-se também no campo político e social, tendo sido Presidente da 2ª Comissão Administrativa que geriu a Câmara Municipal da Chamusca. Foi vereador, membro da Assembleia Municipal e tesoureiro na Junta de Freguesia de Chamusca. Foi igualmente presidente da Comissão Permanente das Finanças, durante mais de 20 anos, para além de Presidente de várias Associações.

Há dois anos, pelo seu percurso nas diversas áreas, Victor Hugo recebeu uma medalha de reconhecimento atribuído pela Junta de Freguesia da Chamusca e Pinheiro Grande.

José Gaio

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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