Ficamos mais pobres quando perdemos alguém de quem gostamos. Esta semana perdemos um amigo e uma figura de referência para muitos de nós.

Lembro-me de ir para a escola dos mais crescidos e ser tudo novidade. Ter um professor invisual era uma coisa que poderia parecer estranha, mas que nunca sentimos ter qualquer influência na relação que estabelecemos. Não precisávamos do toque da campainha para saber que estava na hora de ir para a sala, até porque o toque da sua bengala já vinha pela escada a baixo a dar esse sinal.

Corríamos todos para a sala, porque ninguém arriscava a chegar atrasado e sentávamos por ordem, de janelas fechadas para não nos distrairmos a olhar para a rua e estarmos atentos. Se arriscávamos a virar para trás, o professor Serra sabia perfeitamente quem o fazia chamando pelo nome e até dava uma “orelhada” se fosse preciso. Respeitado, fez-nos apaixonar pela disciplina, conseguia fazer-nos estar atentos, querer saber mais.

Promoveu concursos de história entre turmas, reativou o grupo de teatro onde participei (apesar de não ter jeito nenhum) e mesmo assim ele incentivava-me a continuar. Ainda participei pontualmente no programa de rádio que tinha na Rádio Tágide. Ao mesmo tempo que nos dava um carolo, também nos recebia em sua casa, numa relação de proximidade que hoje não se vê entre professores e alunos. Contava histórias da sua vida pessoal, era um livro aberto.

Irreverente, assertivo, afetuoso, firme e um apaixonado pela vida e pelo que fazia. Contava-nos imensas vezes como via o mundo através dos olhos da sua companheira de vida, a Professora Isaura Serra. Extraordinária a cumplicidade entre os dois. Mesmo quando deixei se ser sua aluna, continuou a querer saber de mim, e carinhosamente me chamava “Vaninha” sempre que estávamos juntos. Conhecia-nos mesmo do outro lado da estrada, e fazia questão de nos cumprimentar sempre. Ainda há pouco tempo o telefone tocou, e a voz inconfundível do outro lado não me fez enganar… será sempre lembrado.

É com toda a certeza o professor que mais me marcou e de quem guardo boas recordações. As pancadas de Moliére já não vão arrepiar-nos da mesma forma, mas vamos guardar com carinho todas as recordações deste Homem que ajudou a formar gerações de homens e mulheres Tramagalenses (e arredores).

Obrigada professor Serra. Obrigada meu amigo.

Vânia Grácio

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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