Associação do Ribatejo Interior inicia projeto de valorização das artes e ofícios tradicionais em Abrantes, Constância e Sardoal. Foto: mediotejo.net

A Tagus – Associação do Ribatejo Interior tem procurado identificar, proteger e valorizar as artes e ofícios tradicionais dos municípios de Abrantes, Constância e Sardoal. O levantamento histórico efetuado pelo antropólogo Paulo Lima foi apresentado na sexta-feira, em Sardoal, na Conferência de Artes e Ofícios do Ribatejo Interior, numa sessão que contou com a presença de dezenas de oradores que partilharam ideias e experiências. O governo marcou presença no evento através de Carlos Miguel, secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território.

“O trabalho de recolha do antropólogo Paulo Lima é, sobretudo, um trabalho técnico de uma pessoa que é experiente nesta área do levantamento e do reconhecimento da importância que as artes e ofícios têm no território pela sua experiência a nível nacional, mas focada aqui agora no território do Ribatejo interior, nos concelhos de Abrantes, Constância e Sardoal”, explicou Conceição Pereira, técnica coordenadora da Tagus.

Este levantamento histórico é o primeiro trabalho onde assentará um conjunto de ações no âmbito do projeto global que tem por objetivo “valorizar as artes e ofícios tradicionais do Ribatejo Interior, enquanto elementos diferenciadores deste território, que contribuem para o aumento da sua competitividade territorial, dinamização turística, cultural e económica”, bem como “adaptar as artes e ofícios às tendências atuais de mercado e a novas áreas de expressão, criação cultural e artística” na região, realçou a responsável.

“E porque é que este levantamento que o Paulo Lima fez é tão importante? Porque ele é o fio condutor do trabalho nestes três concelhos, ele é o elemento aglutinador da análise que nós fomos fazer ao Ribatejo interior e vai ser com base neste levantamento que nós vamos fazer um progresso maior deste projeto, porque este levantamento acaba por ser a primeira fase”, disse Conceição Pereira.

GALERIA

Paulo Lima, o antropólogo responsável pelo levantamento dos artesãos em atividade, comparou a atividade existente nos anos 70 com a dos dias de hoje, dando conta de existir “uma diferença brutal”, onde “há muitas artes e ofícios que desapareceram, mas por outro lado”, notou, este levantamento também permite perceber a diversidade e o que poderá ser, no futuro ou no presente, ainda recuperado” ao nível das artes e ofícios.

“Aquilo que eu gostaria de destacar é a diversidade, ou seja, Constância, Sardoal e Abrantes, embora tenham algum património comum a nível das artes e ofícios têm também diversidade. Em Constância podemos encontrar as bonecas das perninhas de cana ou ainda a construção de barcos de rio. Depois em Abrantes temos da Sifameca os capachos, mas por exemplo, no Pego, podemos referir uma presença de registos e dos palmitos. Ou então, no Sardoal, ainda temos uma presença muito forte do linho ou uma memória ainda presente da malária, ou seja, nestes três concelhos existem artes e ofícios que tem muito a ver com a história local, na sua relação com a paisagem”, destacou.

Por outro lado, Paulo Lima relevou o facto das artes e ofícios “continuarem a desenvolverem-se, articulando-se com novas linguagens, novos equipamentos e procurando mercados, com artesãos que estão também a configurar-se para o presente e para o futuro, ou seja, com conhecimento de onde vão buscar as matérias-primas, como transformar, como usar as novas tecnologias, e como usar as redes sociais para colocar os seus produtos, procurando novos mercados”.

A responsável pela Tagus deu ainda conta de algumas das leituras que o levantamento permite descortinar, “como o artesanato descontinuado, o que está vivo e o que surge como inovador”, para além de ter permitido identificar os vários artífices que trabalham no território e sobre os quais vão recair as próximas fases, ao nível da capacitação e formação, entre outros. “Há, efetivamente, artesanato que está descontinuado e que é necessário valorizar, se possível revitalizar, e temos o bom exemplo do que tem a ver com as redes de pesca em Constância, e outros que, estando ainda vivos, importa melhorar ou reinventar, como as malas de folha de Flandres de Sardoal, ou o caso da Sifameca nas Mouriscas (Abrantes), com as ceiras e capachos ligados aos lagares”, exemplificou.

VÍDEO

Para Conceição Pereira, estes “são três exemplos, bons exemplos de uns que estão vivos, mas que precisam ser reinventados, melhorados, ou de outros que já estão completamente descontinuados e que é preciso revitalizar e criar novas dinâmicas, e é este o papel importante que tem este projeto e que é necessário aqui lançar o desafio, por um lado aos novos artesãos que queiram surgir, e, por outro lado, também salvaguardar a identidade”.

Segundo Paulo Lima, este levantamento “mostra que existe uma atividade em constante reflexão e em constante renovação, com preocupações ambientais e de sustentabilidade”, tendo elogiado um projeto que “pode ser um contributo para o território, a partir do saber fazer ancestrais ou adquiridos agora ou recuperados, reinventados e recriados. Isto pode ser uma enorme mais-valia identitária para o território”, afirmou o investigador.

Carlos Miguel, Secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, encerrou a sessão destacando a importância do projeto de recolha desenvolvido pela Tagus. “Aquele trabalho que a TAGUS aqui fez e que hoje juntou ao seu trabalho, trabalhos parecidos feitos pelo país fora é algo de muito importante. Os saberes ancestrais, deixaram de ser saberes ancestrais para serem arte, devido à sua raridade, devido à sua preciosidade e devido à importância que eles têm. E por isso estas linhas não são definidas, são linhas que se vão alterando e é bom que elas se alterem”, realçou.

O Secretário de Estado falou ainda da importância da certificação no artesanato e da necessidade de inovação. “Outra coisa muito importante que foi aqui hoje falada e que importa também refletir é as diferenças que existem e as importâncias que se impõe entre aquilo que é a certificação, nomeadamente o artesanato (…). Sabemos que a certificação hoje é essencial em tudo na nossa vida e, no artesanato também o é, mas em paralelo com a certificação é a inovação”, referiu.

Carlos Miguel, Secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território. Foto: mediotejo.net

“Partindo do artesanato, chegar à inovação, chegar ao design e aí se chegar também ao valor acrescentado. E esta diferenciação é uma diferenciação que é importante fazer e por isso, se há artesanato que é fundamental que se mantenha e que se criem linhas caracterizadoras do mesmo, das quais não se pode fugir, por outro lado, há todo um outro trabalho, que partindo do artesanato envolve a inovação, envolve o design e é fundamental que ele aconteça”, acrescentou Carlos Miguel.

Na sua intervenção sublinhou a necessidade de continuar a investir na preservação deste património para permitir um fortalecimento económico não só do artesão, mas também da região em que está inscrito. “Eu diria mesmo que é fundamental que ele se desenvolva para que depois se possa chegar àquilo que foi transversal em todas as comunicações, que é o acrescentar valor e o fortalecimento económico do artesão, a sua vivência quotidiana e os mercados. Isso é determinante e julgo que cada vez há mais gente e há melhor gente a trabalhar em ambos os lados e ajudando os dois lados”, concluiu.

ÁUDIO | Carlos Miguel, Secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território

Dinamizado pela TAGUS – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior, e pelos três municípios da sua área de ação, o projeto AO.RI – Artes e Ofícios do Ribatejo Interior visa a valorização do património identitário dos territórios no âmbito do desenvolvimento local de base comunitário, representando um investimento na ordem dos 72.500 euros, sendo financiado a 85% no âmbito do Programa Operacional do Centro do Portugal 2020 pelo FEDER – Fundo Europeu para o Desenvolvimento Regional.

Este projeto, que irá decorrer em cinco fases, pretende focar-se na valorização das artes e ofícios que “representam as vivências, os saberes fazer ancestrais e a identidade e cultura do território, dinamizando um conjunto de iniciativas que contribuam para a sua preservação, mas também, para a sua diferenciação e adaptação às necessidades atuais”, ao mesmo tempo que “a sua afirmação confere uma maior competitividade ao território em termos turísticos”. Por outro lado, acrescenta, através deste projeto, “acredita-se que irá sensibilizar os artesãos para o trabalho conjunto e para a intersecção das diferentes artes, possibilitando o surgimento de novas áreas de expressão e de criação cultural e artística”.

Depois da apresentação do levantamento histórico das artes e ofícios do Ribatejo interior e identificação do “saber fazer” dos artesãos e das entidades a envolver, os passos seguintes passam por um concurso de ideias, pela criação de oficinas de formação e capacitação de artesãos, de oficinas criativas – do artesanato tradicional à inovação, pela criação de um percurso turístico integrado de artes e ofícios do Ribatejo Interior e experiências imersivas, culminando na promoção e divulgação do projeto e envolvimento da comunidade.

Jéssica Filipe

Atualmente a frequentar o Mestrado em Jornalismo na Universidade da Beira Interior. Apaixonada pelas letras e pela escrita, cedo descobri no Jornalismo a minha grande paixão.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *