Nascente do Almonda, por trás da fábrica antiga da Renova, na localidade de Almonda, Zibreira. foto mediotejo.net

A Assembleia Municipal de Torres Novas aprovou (apenas com uma abstenção) uma recomendação à Câmara Municipal no sentido de esta “liderar e empenhar-se na concretização de um plano de requalificação da nascente do rio Almonda”. Na origem desta ação está um abaixo-assinado que reuniu quase mil assinaturas exigindo o acesso público à nascente do rio, num local que a empresa Renova reivindica como sua propriedade.

Conforme dado a conhecer na sessão extraordinária da Assembleia Municipal do dia 28 de julho, este órgão aprovou que o município deve liderar e empenhar-se num plano de requalificação da nascente do rio Almonda, “cujas ações imediatas” devem passar pela pavimentação adequada da estrada pública até próximo da nascente, o acesso livre e público à nascente (com a negociação para a retirada da vedação metálica e a criação de condições para a fruição visual da nascente e sua envolvência, acautelando a segurança através dos meios normais com os avisos aos visitantes).

Conforme foi lido por José Trincão Marques, presidente da Assembleia Municipal, o documento incita ainda a Câmara Municipal a proceder ao diálogo com os proprietários de algumas edificações em ruínas com vista à limpeza das mesmas, sem perder de vista a médio prazo a elaboração de um plano pormenor de reabilitação urbanística e paisagística do núcleo histórico do moinho da fonte que inclua um programa de recuperação do edificado ainda existente, bem como a libertação de todo o leito do rio com a deslocalização dos pavilhões fabris que o cobrem para a nova unidade da Zibreira.

Esta tomada de posição por parte da Assembleia deu-se após um email enviado pela direção de marketing da Renova, onde a empresa esclareceu “de forma inequívoca que adotou uma estratégia para se barricar atrás da vedação”, baseada em “a água é nossa, o terreno é nosso, nós estamos aqui, daqui não saímos e daqui ninguém nos tira”, referiu na sessão o deputado Rui Alves Vieira (BE).

Arnaldo Santos (PSD), o único a abster-se na votação, disse que no seu entendimento via esta recomendação como um reforço à posição que a Câmara tem assumido – segundo a informação prestada por Pedro Ferreira, presidente da edilidade, de que o assunto estava a ser tratado com bom senso e em diálogo com a empresa – afirmando que “esse deve ser o caminho a percorrer”.

“Estamos num país de direito e portanto devemos salvaguardar os direitos de todos, quer o direito público, de todos os cidadãos, quer o direito obviamente dos privados”, declarou o deputado, que acrescentou que a aprovação por si era “pacífica”, mas propondo que não devia ser imposto a retirada da vedação, uma vez que é um elemento de segurança.

Transmissão da sessão de Assembleia Municipal de Torres Novas.

Rui Alves Vieira, que interveio depois de Arnaldo Santos, afirmou por sua vez que “mais do que legalidades aquilo que eu sinto é aquilo que muitos torrejanos sentem. A apropriação da nascente do Almonda por parte da Renova é uma situação ilegítima e que a cada dia que passa se torna cada vez mais insustentável”, disse o deputado, acrescentando que esta situação é única no país, uma vez que não existe mais nenhum empresa a reclamar a propriedade da nascente de um rio.

Por parte da CDU, Cristina Tomé apontou que para o município o rio Almonda nunca foi uma prioridade e que a intervenção municipal a este respeito se limita ao mínimo possível, pelo que incitou a autarquia: “Se o rio é do povo, então que a Câmara dê os passos necessários para que esta frase tenha uma tradução prática”.

A deputada referiu-se também à questão da vedação, afirmando que para esta ser retirada basta que exista uma deliberação municipal nesse sentido, dizendo que não está em causa a fruição visual mas sim a fruição total do espaço.

Enquanto que do lado do Partido Socialista, Francisco Dinis defendeu que esta não deve ser uma questão partidária mas transversal a todos e que deve ser tratada através de diálogo e moderação – tendo confirmado o voto favorável da bancada a que é afeto – Mafalda Batista afirmou que o Movimento P’la Nossa Terra defendeu “desde o primeiro momento” uma política de intervenção “mais abrangente e interventiva ao longo das margens de todo o rio Almonda”, clarificando no entanto que o voto não é contra a Renova.

“O nosso voto a favor de uma solução para a nascente do rio, jamais poderá ser interpretado como um voto contra a Renova e seus colaboradores e muito menos contra o papel importantíssimo que aquela empresa tem tido no tecido social do nosso concelho. O que está aqui em causa é a elaboração de um plano de requalificação da zona da nascente e o respetivo acesso livre e público que é um direito de todos os cidadãos, torrejanos ou não”, disse a deputada que confirmou o voto favorável. 

A recomendação foi assim aprovada com apenas uma abstenção.

As restrições ao acesso à zona da nascente do Rio Almonda têm sido alvo de amplas críticas e movimentos por parte de cidadãos e partidos –  como o BE ou a CDU – que salientam que a nascente e o rio são bens públicos, mas a maioria dos terrenos em redor da nascente parecem ser de facto propriedade privada da Renova, adquiridos nos anos 30.

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

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1 Comment

  1. A vedação está ilegal… a câmara tem os meios legais para atuar. Se não o fizer está a pactuar com a ilegalidade!

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