As reformas que vamos ou não vamos ter é um assunto que persegue a nossa geração… Penso nisso muitas vezes.
Mas sabes que não vale de grande coisa preocupares-te. Ainda nem 50 anos tens. Vais ter muito que penar até chegares ao ponto de te reformar. E cada vez mais vão adiar a idade da reforma.
É verdade. Sei bem disso. Mas não consigo deixar de pensar na injustiça a que estarão sujeitas gerações de portugueses que trabalharam décadas a fio e que vão ter um fim de vida muito diferente das gerações anteriores. A História tem destas coisas. Em poucos anos, pessoas nas mesmas condições veem o seu futuro traçado de forma completamente diferente. Por exemplo, os professores que se reformaram há uns 10 anos conseguiram progredir na carreira enquanto nela estiveram e chegaram ao fim do seu percurso profissional com uma reforma que hoje lhes permite ter uma vida relativamente confortável. Já os que vieram a seguir, não só ficaram com as carreiras congeladas como vão ter que trabalhar mais tempo e reformar-se com menos dinheiro.
Tens que perceber que os tempos são outros.
Claro que percebo! Como também percebo que ser professor hoje é estar sujeito a uma pressão maior do que no passado.
Ai, a velha conversa da falta de respeito em relação aos professores!
A conversa pode soar a velha, mas é verdade. Hoje é tudo muito mais complicado. Não para todos os professores, claro, mas os níveis de exigência são, em geral, maiores, a todos os níveis. Portanto, o desgaste também é maior.
Então também terias que falar em muitas outras profissões…
E falo! Por exemplo, trabalhar em determinados serviços públicos, como o atendimento ao público na Segurança Social, pode ser extremamente complicado. E também sofreram cortes e congelamentos e as reformas serão o que tiverem que ser!
A conversa está só na Função Pública. Então e as pessoas do privado, que não têm as benesses do público?… E todas aquelas pessoas que toda a vida ganharam uma miséria e que, por isso, uma miséria de reforma vão ter?
Tens razão. Também penso nessas pessoas. Mas o que me preocupa é sobretudo pensar na sustentabilidade da sociedade, em tempos futuros que já não estão tão longe quanto isso. Pensa comigo: neste momento, são as reformas de muitas pessoas que estão a ajudar filhos e netos. Na alimentação, na renda da casa, na escola das crianças… Ou seja, quem pensava que ia ter uma reforma tranquila, não está a ter! Há até casos de pessoas com idade muita avançada, cansadas da vida, que não querem morrer porque sabem que a família depende da reforma delas…
É muito triste tudo isso.
Pois é… E o pior é que, quando morrerem, os filhos já caminham para a reforma e nada de jeito vão receber. Viveram com a ajuda dos pais e já não vão conseguir ajudar os filhos. Vão é precisar da ajuda dos filhos. É uma geração entalada: depende dos pais quando devia estar a ajudá-los e vai depender dos filhos quando eles estiverem a constituir as suas famílias.
Talvez por isso haja agora tanta pessoa desesperada. É, de facto, muito triste chegar aos 30, 40, 50 anos e ter que voltar a depender dos pais. E, pior, não saber se podem contar com a ajuda dos filhos…
Por isso é que, agora que nos dizem que a crise já lá vai, deveriam, mesmo, facilitar as reformas antecipadas, sobretudo de quem já trabalhou imenso. Há muita gente desgastada com as profissões que tem, que até preferia reformar-se mais cedo com um pouco menos de rendimento. E, assim, libertavam-se lugares para outras pessoas, sobretudo aos desempregados que precisam de regressar ao mercado de trabalho. E, assim, deixávamos de ver pessoas, em determinados sítios, a arrastar-se penosamente nas tarefas que têm que cumprir…
Estás muito preocupada com os outros, mas tu e a tua geração vão arrastar-se até morrerem!
Coitados dos que tiverem que me aturar porque eu, provavelmente, já nem saberei o que andarei a fazer…
