Foto: CMTN

As mulheres fizeram parte da luta – A propósito do Prémio Francisco Canais Rocha, uma iniciativa do Município de Torres Novas.

Um Domingo cheio de sol, 25 de Maio, foi o dia escolhido para a entrega do Prémio Francisco Canais Rocha. O prémio foi entregue a Pâmela Peres Cabreira com o trabalho “Operárias em luta. Reivindicações e resistência nas fábricas durante o PREC (1974-1975)”. Houve ainda lugar à atribuição de uma Menção Honrosa a Álvaro Arranja pelo trabalho «Cidade Sem Muros Nem Ameias… Setúbal na Revolução de 25 de Abril (1974-1975)». Já direi algo sobre o trabalho de Pâmela Cabreira (o de Álvaro Arranja ainda não conheço).

Mas primeiro falemos sobre os Prémios. O Município de Torres Novas atribui dois Prémios – o Prémio Maria Lamas, dedicado às questões de Género e agora o Prémio Francisco Canais Rocha dedicado às questões do Trabalho. Reputo os dois de uma grande importância, simbólica porque homenageia uma e um ilustre torrejano, mas de grande importância científica, ao premiar trabalhos pela sua valia na área própria de estudos, pela divulgação dos trabalhos junto de toda a comunidade, pela promoção do interesse pelos temas abordados e ainda, mesmo que de forma indireta, por promover o debate, já que o conhecimento é promovido de forma direta.

Não sei quantos Prémios deste tipo existem nos Municípios, mas penso que se deve sublinhar a postura da Câmara de Torres Novas em manter estes dois. Por isso estranhei a ausência de vários responsáveis políticos da Câmara e Assembleia Municipal sejam da situação ou da oposição, à exceção da vereadora Elvira Sequeira. Quando um momento como este é desvalorizado por tanta gente, no mínimo, estranha-se.

Eu bem sei que o Prémio Maria Lamas teve um começo turbulento, mas recompôs-se e tem premiado excelentes trabalhos. Agora temos o Prémio Canais Rocha abordando uma temática muito atual e que precisa de abordagens inovadoras. O Trabalho como força motriz da sociedade, o Trabalho como gerador de riqueza e os trabalhadores e trabalhadoras sempre explorados, sempre mal pagos, sempre esgotados, mas sempre a produzir seja nas formas mais arcaicas de organizar a produção seja na era digital.

Há que conhecer a história do movimento operário, há que estudar as várias formas de organização do trabalho, há que perceber como se faz a exploração hoje. Há ainda que olhar para os trabalhadores e trabalhadoras no seu conjunto mas também na sua pluralidade e na sua diversidade e encontrar os caminhos que levarão à conquista de direitos que tardam, como, por exemplo, a redução da jornada de trabalho.

Nos tempos que vivemos esta reflexão é fundamental e fico satisfeita por o meu Município proporcionar espaço para que ela aconteça. Canais Rocha ia gostar!

Sobre o trabalho da Pâmela, que conheci nesta cerimónia, do que ouvi de Fernando Rosas (em nome do júri) percebi que era um trabalho inovador (porque aborda as mulheres operárias e as suas lutas numa perspetiva que não deixa de fora toda a vivência inerente a ser mulher, incluindo a vida familiar.

Eu, que cresci na Margem Sul do Tejo onde estavam situadas muitas das fábricas que a Pâmela estudou, sei que quando se falava dos operários se falava no masculino (está toda a gente incluída, dizia-se) e eram os homens que tinham os lugares de destaque nas lutas, nos sindicatos ou quando era preciso tomar a palavra.

Raramente se olhava para as mulheres para além da sua condição de operárias, mas elas eram “inovadoras” e levavam alegria para as lutas, como referiu a autora.

Estou a “torcer” pela publicação desta tese de doutoramento em livro e espero que surjam outras oportunidades para falarmos sobre tudo isto.

Informação constante da página do Município de Torres Novas:

O Prémio Francisco Canais Rocha de Estudos sobre o Movimento Operário é uma iniciativa conjunta da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional (CGTP-IN) e do Município de Torres Novas que visa homenagear o torrejano, nascido em 1930, que foi o primeiro coordenador da CGTP-IN após o 25 de Abril, pela sua luta como ativo combatente antifascista e historiador do movimento operário e sindical.

O júri do Prémio Francisco Canais Rocha é constituído por Joana Dias Pereira, doutorada em História Contemporânea (2013), investigadora integrada do Instituto de História Contemporânea (FCSH-UNL), membro da Comissão Científica da Confederação das Coletividades de Cultura Recreio e Desporto; Fernando Rosas, professor catedrático jubilado no departamento de História da Faculdade de Ciência Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa e Investigador no Instituto de História Contemporânea da mesma instituição, do qual foi fundador e Presidente da Direção entre 1994 e fevereiro de 2013; e Rogério Paulo Amoroso da Silva, coordenador da FIEQUIMETAL e membro da Comissão Executiva do Conselho Nacional da CGTP-IN, mandato 2024-2028.

Helena Pinto vive na Meia Via, no concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Feministas em Movimento. Escreve quinzenalmente no mediotejo.net

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