"Maria Lamas" - azulejo de Ana Paula Lopes, da colecção particular do Dr. Carlos Trincão Marques Foto: DR

Maria Lamas. De lés a lés, palmilhando serras e serranias, leiras e baldios, olhando, escutando, por vezes emudecendo, quase sempre encorajando, aquela mulher teria que o conseguir. Tarefa árdua em pleno Estado Novo, naquela já longínqua década de quarenta, sacudindo ainda as cinzas de um pós-guerra atordoado, agora as armas seriam outras.

A palavra, a imagem e a escrita para memória futura, seriam bem mais que um desafio, antes uma missão que assumia há muito e chegava agora ao prelo. “As Mulheres do Meu País” livro único e irrepetível, só poderia ter sido escrito por ela. Um testemunho intemporal. Devia-o à sua consciência, mas sobretudo a tantas mulheres anónimas, com rosto mas sem posto.

À mulher mãe. Porque onde há mulheres há canalha, como no Norte se chama à miudagem. Que tantas vezes crescia como se cria o gado, se guardam ovelhas, cabras ou segredos. Com amores, desamores, rezas e ladainhas. Bailaricos e mau olhados.

À mulher trabalho. À camponesa “que conduz firmemente os bois ou que segura sem desfalecimento a rabiça do arado”. À castreja que, vestida de burel que ela própria fiava e tecia, qual monja sem mosteiro, vai parindo de quando em vez, enquanto o homem ali vai e vem até à estranja. Ou à outra que cava, que vindima, que ceifa, com um filho no ombro e outro no ventre.  Ou ainda àquela que, de água pelos joelhos na margem da ribeira, vai lavando a roupa e com ela as mágoas, como se as nódoas da sua triste sina assim fossem por água abaixo.

E, também, à mulher brio. Dos brios e das vaidades, porque não? Das tradições e contradições também. Ou, como tão bem descrevia a autora, “da predilecção pelo oiro e do respeito pelo luto”.

E, por fim, à mulher luta. Das omissões e dos esconderijos. De histórias do contrabando ou do contra gosto. Da viuvez mascarada e da prostituição simulada. Das violências e violações nunca assumidas. Guardadas a sete chaves, com fugas a sete pés.

É, ainda, um livro salpicado por imagens. Das mais belas. De Silva Porto e Sousa Pinto. De Malhoa, Pavia e Pomar. De Abel Manta, Eduardo Malta, Alberto Sousa e tantos outros. Com a mestria dos desenhos de Fernando Carlos. São mais de quatrocentas páginas de sonos e de sonhos por entre espigueiros e teares. Linho ripado e enxoval preparado.

Por tudo isto, este não é apenas um livro. É antes, um hino à mulher portuguesa. Um verdadeiro monumento. Onde tanto país cabe numa mulher. E onde tanta mulher sabe deste país.

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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